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Feminicídio

por Carla Hilário Quevedo, em 20.04.15

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Num muro de Campolide estão escritas palavras contra a violência machista, com um número de uma cor diferente. A intervenção é do Bloco de Esquerda e já vi aquele número mudar algumas vezes até se fixar no 21. Como se os crimes de morte de mulheres num contexto conjugal fossem tantos que seria preciso estar alguém de serviço a pintar um número por cima do outro. Não sei se foi por isso que acabou por ficar aquele desactualizado 21, mas sempre que por ali passo, penso que só no ano passado foram 42 e que ao longo de dez anos, 400 mulheres foram assassinadas pelos maridos ou companheiros no nosso país. Foi recentemente divulgado que 700 crianças ficaram órfãs de mãe.

 

Ao longo dos anos tenho visto várias campanhas contra a sinistra violência doméstica e diria que nos últimos dois anos, a opinião pública tem sido mais activa nestas questões. Acontece que, até agora, as campanhas contra a violência doméstica, a maioria delas, estavam demasiado concentradas na vítima espancada, como se ver uma mulher morta numa maca de hospital fosse dissuasor para os agressores. É difícil apelar à intervenção de outros no casal, porque a ideia de “não meter a colher entre marido e mulher” está ainda enraizada. Na verdade, é uma desculpa, sobretudo se tivermos em conta que vivemos num país em que as pessoas gostam de se meter na vida dos outros. Talvez não seja útil analisarmos isto a fundo, nem o que leva alguém a não fazer uma denúncia quando sabe que uma mulher está a ser maltratada pelo marido. O melhor é mostrar o que acontece quando intervém e salva uma vida.

 

Foi o que aconteceu numa campanha recente sobre violência doméstica, concentrada na diferença que faz “meter a colher” na altura certa. A campanha é promovida pela Associação de Apoio à vítima e descreve duas possibilidades. O vizinho que percebe o que se passa na casa ao lado e ignora a situação acaba por ver a mulher sair de casa num saco de plástico. A segunda história é a mesma até o vizinho chamar a polícia. O desfecho é muito diferente.

 

Portugal, além dos vários problemas que conhecemos, tem um problema com mulheres. Não gosta, não cativa, não apoia, não atrai. Pelo contrário, só impõe: regras, comportamentos, papéis a desempenhar. A violência doméstica acaba por não ser levada a sério, porque na verdade, a maioria das pessoas, mesmo sem admitir, acredita que a mulher pertence ao homem, que é propriedade dele. Não são apenas os agressores que pensam assim, mas também os cúmplices da violência a que a mulher é sujeita. Estou a falar de uma misoginia entranhada na sociedade, muitas vezes apoiada por outras mulheres.

 

É do Brasil que nos chega o que pode ser uma solução interessante para o julgamento de casos de violência e discriminação em Portugal. A presidente Dilma Rousseff sancionou a lei do feminicídio, e assim fica claro que se trata de crimes de homicídio, estupro e discriminação contra as mulheres por uma questão de género, com o necessário enquadramento legal e penas que vão até aos 30 anos de prisão. No Brasil morrem 15 mulheres por dia em contexto de violência doméstica. No país-irmão também não gostam de mulheres.      

 

Publicado na edição de hoje do i.

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publicado às 19:42