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Dar um passo

por Carla Hilário Quevedo, em 27.04.15

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Há uns anos, numa de muitas entrevistas na televisão, António Barreto disse que só acreditava nele e em mais ninguém. Lembro-me na altura de ter ouvido a frase com uma mistura de escândalo e admiração. Ali estava uma pessoa – e logo um português! – a afirmar com a maior tranquilidade do mundo que tinha confiança nele acima de tudo. Pareceu-me um pensamento revolucionário, no melhor dos sentidos. Tinha a particularidade de não soar a vaidade, talvez pelo tom usado. Ou então foi dos meus ouvidos humildes embora não discretos.  

 

Passaram alguns anos desde que ouvi essa frase e muita coisa mudou no país e em cada pessoa. Portugal passou por uma crise muito difícil que teve consequências que estão à vista. Por um lado, uma camada substancial da população é hoje mais pobre e tem menos oportunidades de sair da pobreza. Por outro, há uma parte da população que progride, dentro e fora de Portugal. Há vidas destruídas também porque a dada altura as pessoas desistiram de lutar, como se a desistência fosse uma opção de vida. E há vidas que melhoram lentamente graças a enormes esforços pessoais. Cada vez mais, hoje em dia, vejo dois países num só, o que dificulta a vida dos políticos. Como vão fazer para chegar a estes dois países concentrados num só? Gente que não desistiu não quer ouvir falar de pobreza, mas de prosperidade. Ao mesmo tempo, gente que perdeu tudo quer ouvir falar do que pode esperar para refazer a sua vida.  

 

Quando procuramos razões para explicar a pobreza em Portugal, aparecem vários especialistas que apontam factos, números, etc. É verdade. Nos últimos quatro anos a vida tornou-se mais difícil e a pobreza mais humilhante. Há, no entanto, outro aspecto a considerar, mais psicológico é certo, mas não menos rigoroso. Existe em Portugal a ideia generalizada de que nada pode mudar. Esta ideia não só é falsa como corrói a vida das pessoas, tornando-as mais paralisadas, desorientadas, e em última análise, pobres. O primeiro passo para acabar com a desorientação é procurar ajuda, o que parece ser um problema insolúvel. Como é que alguém que acredita que está de mal com a vida por causa da troika, do governo, do desemprego, etc. pode dar um passo no sentido de resolver os seus problemas? Além do mais, como é que se quebra um ciclo de paralisia em que família, amigos, vizinhos, parecem colaborar e até incentivar? E que reacção pode esperar dos outros aquele que decide tomar conta da sua vida, procurando ajuda, falando com alguém que o oriente?

 

A explicação emocional para o mal-estar não interessa aos políticos que pensam em “eleitorados”, como se não fossem compostos por pessoas, cada uma delas com características específicas e vidas diferentes. Admito que me interessam mais as pessoas, os indivíduos, que partilham os mesmos interesses em comunidades, com a liberdade que a actividade implica. É cada pessoa, que é diferente da outra, que pode fazer a diferença; que muda um cargo, uma empresa, uma escola. “Acreditar em si próprio” é uma ideia boicotada e mal vista em Portugal, país do fado e do destino. Só somos bons lá fora, lembram-se? Tomemos conta de nós e assim poderemos ajudar quem mais precisa.

 

Publicado na edição de hoje do i

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publicado às 19:50