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Blockbomba

por Carla Hilário Quevedo, em 30.05.15

Birdman (excelentes actores num filme pretensioso). The Theory Of Everything (Hawking retratado como um nerd encantador, que troca a mulher por uma enfermeira - na verdade, penso que já vai na terceira enfermeira). 

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publicado às 19:38

Qual Acordo?

por Carla Hilário Quevedo, em 26.05.15

Há dias li que o Acordo Ortográfico tinha passado a ser obrigatório. Assim, de um momento para o outro, passados anos de resistência de tantas pessoas na sociedade portuguesa. Escrevi bastante sobre este tema e a partir de uma certa altura deixei de escrever, não por ter mudado de ideias, mas porque passei a fazer exactamente aquilo que queria, indiferente aos acontecimentos. Em Portugal pratica-se pouco a desobediência silenciosa e há uma tendência para preferir a queixa activa e permanente, que dá muito mais trabalho. A partir de certa altura, como é aliás tão feminino, desliguei. Para mim, o Acordo Ortográfico não existe. Não o quero, não o compreendo e não o sigo. É uma teimosia imposta por quem quer impor à força regras de escrita inúteis, que ainda por cima só trazem confusão e mais erros de português. O que me acontece se continuar a escrever Setembro com maiúscula? Serei multada? Enviem a multa para casa com a referência Multibanco.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 22-5-15

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publicado às 19:19

Haio que não

por Carla Hilário Quevedo, em 26.05.15

O governo grego suspendeu inesperadamente a acção judicial que tinha apresentado contra o Reino Unido por causa dos frisos ou mármores roubados no século XIX pelo embaixador britânico da altura junto do Império Otomano, Lord Elgin. Há décadas que a recuperação deste património artístico e histórico tem sido a prioridade dos ministros da Cultura da Grécia. A decisão do novo ministro da Cultura, Nikos Xydakis, de tratar o assunto pela via diplomática e política e não pelos tribunais, é uma mudança importante. Não digo isto por ter pena de Amal Clooney, que fica sem um trabalho que lhe valeria uma estátua ao lado dos ditos frisos no caso de ganhar o processo. Para um país em crise, uma vitória no Tribunal de Haia teria um valor prestigiante e justiça seria feita. Mas transferir este conflito para o campo político-diplomático pode ser um factor de peso noutro tipo de negociações. Enfim, algo me diz que os frisos não saem do Museu Britânico tão cedo.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 22-5-15

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publicado às 19:16

Indignação e moral

por Carla Hilário Quevedo, em 25.05.15

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Há uma actividade que não pode ser feita à segunda-feira: consultar o Facebook ou o Twitter. A razão? O “spoiling” indecente, ou vontade de contar o que se passou, do episódio da série Guerra dos Tronos transmitido no dia anterior nos Estados Unidos e outros poucos países. Apesar da importância e da relevância de uma potência como os Estados Unidos, alguém tem de avisar a população da existência de outros países, que não vêem a série em simultâneo e que também gostavam de ter a oportunidade de achar nada menos que “inaceitável” aquilo que o psicofreak (novo distúrbio de personalidade, que ainda não figura no DSM-V) do marido de Sansa Stark lhe fez.

 

Assim, quando vi o episódio na segunda passada, já estava à espera do que ia acontecer, até porque o Washington Post, maldito seja, tinha incluído num título a palavra “violação” acompanhado de uma imagem de Sansa e Ramsay, ela vestida de branco, num estilo noiva de Inverno, edição da Vogue Dezembro 413 d.C., e ele com aquele sorriso de quem se prepara para ser ele próprio. Como dizia, chego à noite, vejo o episódio e nos últimos quarenta segundos lá acontece o que tinham passado o dia a dizer que ia acontecer. Na noite de núpcias, Ramsay Bolton viola a mulher, Sansa Stark. A novidade foi Ramsay ter obrigado Theon Greyjoy a assistir. Nós “vemos” a violação através dos olhos lacrimejantes de Theon, que cresceu com Sansa em Winterfell e que traiu a sua família. Theon é um homem destruído por Ramsay, que o torturou, castrou e escravizou. Ramsay é cruel como o imperador Calígula, um bully e até tem qualquer coisa de troll. É aquela insistência em se fazer notar, não sei.

 

Sempre que há uma violação, os espectadores exprimem em massa o seu desagrado nas redes sociais. Aconteceu depois da cena entre os irmãos Cersei e Jamie, aos pés de Joffrey (filho de ambos) já morto. Na altura George R.R. Martin veio dizer que tinha sido consensual, mas o curioso nessa altura foi ter havido poucos comentários de repúdio ao incesto. Fascinante é este “diálogo” entre autor e espectadores, em que os segundos reagem como se estivessem a viver uma história que foi criada e que é manipulada pelo seu autor.

 

Desta vez, a indignação chegou ao ponto de haver apelos inflamados (sempre) ao boicote à série. Foi a gota de água que fez transbordar o oceano para a senadora democrata Claire McCaskill, que manifestou no Twitter repugnância pela cena. As críticas que se seguiram lamentaram que se tivesse “ultrapassado um limite”, não se sabe realmente qual, uma vez que, desde o primeiro episódio, a série é baseada na violência, própria da guerra e da conquista. Outras pessoas referiram que Sansa Stark é uma personagem forte e as sansanetes reclamam que não merece ser humilhada. Mas a história ainda não acabou. E o fim é que interessa.  

 

Penso que à excepção dos apelos ao boicote, que são inúteis e estúpidos, os comentários indignados revelam que ninguém quer ver uma personagem inocente e amada a sofrer, e isso é bom. Ninguém quer que Ramsay triunfe. Também é bom. A ficção tem esta capacidade de nos reconciliar com a humanidade.

 

Publicado na edição de hoje no i.

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publicado às 19:46

Obsessão antiga

por Carla Hilário Quevedo, em 21.05.15

Todos os dias lemos notícias ou vemos anúncios que nos informam dos nossos deveres para viver melhor. Na televisão temos o apelo diário ao consumo de cálcio. Nos jornais multiplicam-se os artigos sobre a necessidade de dormir bem. Katharine A. Craik é autora de um texto publicado no site History Today que nos informa que não é uma obsessão moderna. No século XVII já havia médicos a recomendar soníferos e métodos naturais para dormir as sete a nove horas na altura recomendadas. Fatias de pão embebidas em vinagre e atadas aos pés era um dos métodos revolucionários que felizmente foram substituídos por comprimidos e chás. Outra recomendação que não mudou foi a de dormir durante a noite e estar acordado durante o dia. O luar, a falta de cortinas e a luz das velas eram inimigos do descanso, tal como são hoje os ecrãs luminosos dos smartphones e dos tablets. Ainda havemos de descobrir que os comprimidos de cálcio são como as fatias de pão em vinagre.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 15-5-15

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publicado às 19:34

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 21.05.15

Lilla "Little Red" Crawford

 

... a palestra de ontem sobre Stephen Sondheim, no Museu Nacional da Música, tinha um tema demasiado ambicioso para a hora, hora e meia de exposição. Havia mais a dizer sobre as letras de cada canção que ouvimos (dez, oito de Sondheim) e também, claro, muito mais a contar sobre a vida de Sondheim. Parei aos 16 anos, quando "iniciou" a sua carreira. A minha ideia era tentar contrastar coisas tão inesperadas com uma vida de isolamento dos pais na infância e na adolescência e letras que revelam um profundo conhecimento da relação entre as pessoas, homens, mulheres. É alguém que sobrevive à família que não escolheu e, num certo sentido, à família que adoptou, os Hammerstein. É um caso (não há nenhuma intenção de generalizar da minha parte) de um filho que é melhor do que os dois pais. Ao contrário do que se possa pensar, Sondheim não é um génio solitário. E não é preciso conhecer a vida deste homem para sabermos isto. Basta ouvirmos atentamente (seguindo a letra) um tema como You Could Drive A Person Crazy, de Company (aproveito para deixar aqui os nomes das intérpretes das três amigas de Bobby que cantam a versão original de 1970: Susan Browning, Pamela Myers e Donna McKechnie). Obrigada aos que vieram. 

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publicado às 07:51

PUB

por Carla Hilário Quevedo, em 18.05.15

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publicado às 17:52

Já é tarde para falar do Daniel

por Carla Hilário Quevedo, em 18.05.15

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Esta semana fomos surpreendidos por um acto que não é original, que não aconteceu pela primeira vez e que também não será a última que acontecerá. Um rapaz de 17 anos matou outro de 14. Não deixa de ser chocante, porque afinal de contas são miúdos e a ideia que temos hoje dos miúdos é outra, mais esperançosa. É neste ponto que erramos: os miúdos são todos diferentes e o mais normal é nenhum saber o que é. Se existe alguma coisa rara neste caso é o número de vezes em que o conhecimento se torna definitivo tão cedo.

 

Numa notícia diziam que Daniel Neves matou Filipe Costa porque lhe queria roubar a roupa, os ténis e o telemóvel. Rita Costa, a mãe da vítima, que tinha contactado as autoridades porque o filho estava desaparecido desde que saíra de casa na segunda-feira para ir à Feira de Magos, cruzou-se com o homicida na rua e percebeu que levava vestido o blusão do filho. Os meios são pequenos e a vida tem destes acasos curiosos. Daniel foi interrogado pela polícia e acabou por confessar que tinha deixado Filipe a morrer numa arrecadação em Salvaterra de Magos depois de o atingir com uma barra de ferro. Parece que a confissão à PJ não será admitida como prova em tribunal, mas até agora não foi apresentada nenhuma razão para o homicídio. Como se num caso destes pudesse haver uma motivação que nos fizesse compreender este acto bárbaro.

 

Há dias apareceu na televisão a sugestão de que o assassino tinha interpretado um gesto da vítima como tentativa de assédio. Não sei o que significa isto, mas imagino que a defesa do homicida confesso esteja a trabalhar. Entretanto, nos próximos dias, seremos inundados com informações sobre o Daniel, que tinha alguns antecedentes criminais, como detenções por posse de droga. Estava referenciado pela Comissão de Protecção de Menores. Mas certamente os vizinhos dirão que nunca pensaram que fosse capaz de um acto assim, que até era bom rapaz, que tinha uma vida familiar conturbada, que não tinha culpa, coitado, etc. Uma série de desculpabilizações de estranhos serão repetidas na esperança de os próprios se poderem desculpar em público pelo que nunca imaginaram ser possível. Como se tivessem a obrigação de adivinhar...

 

A mãe do Daniel escreveu uma mensagem no Facebook que parece ter chocado muita gente. A mãe toma uma atitude de extraordinária coragem ao descrever a conduta do seu filho com lucidez, sem ceder ao estereótipo habitual da mãe que iliba o filho de qualquer horror. A frase que escreveu, “os pais não têm de pagar pelos erros dos filhos e vice-versa”, torna claro que não defende o acto indesculpável do filho. Outra frase impressionante é: “Preferia mil vezes que ele estivesse no lugar do Filipe”. Lembra Platão, que no Górgias argumenta que é melhor ser vítima da injustiça do que injusto.

 

Esta mensagem será incompreendida pelos que se apressam a sacrificar mães, pais, meio ambiente e escolas para sufocar a responsabilidade individual. Esta mãe afirmou que não tinha culpa por o filho ser assim: um assassino. Foi esta a descoberta que Daniel fez naquele dia sobre si. Agora sabe quem é.

 

Publicado na edição de hoje do i.

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publicado às 17:49

Blockbomba

por Carla Hilário Quevedo, em 16.05.15

The Wind Rises (obra-prima). The Trip to Italy (já tinha gostado muito do primeiro e gostei deste também). Deux de la Vague (muito bom: não temos de estar mergulhados num caldeirão de estupidez). 

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publicado às 19:46

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 15.05.15

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Chloe Sevigny

 

... Michael Oakeshott escreveu em 1944, quando tinha 43 anos: "Perfection - not belonging to life at all. Not required by love, not required in ourselves". Por muito que achemos que sabemos certas coisas, há um momento em que somos surpreendidos por esse conhecimento que pensávamos que tínhamos e era verdade. A confirmação de uma impressão; neste caso, a de que a perfeição não é apenas impossível, mas irrelevante, nunca chega cedo na vida, porque a juventude acredita que é imortal. Só existe perfeição na morte ou em Cristo semper idem. Um busto em calcário é perfeito, porque não vive: não continua.

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publicado às 09:56

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