Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Dentro da cabeça

por Carla Hilário Quevedo, em 29.06.15

CHQ160.jpg

App CameraBag com filtro Instant

 

Tinha pensado em desenvolver o tema excitante sobre o que considero ser uma forma de bullying na estrada disfarçada de “preocupação”, a propósito da porta mal fechada de um carro, quando a semana nos trouxe acontecimentos importantes. O Estado Islâmico actuou em acções terroristas concertadas na Tunísia, em Paris e no Koweit, fazendo vítimas em nome do Califado. O governo grego convocou um referendo para saber o que o povo pensa sobre um assunto técnico que poucas pessoas entendem. Gosto da ideia do referendo, embora o momento em que é convocado seja revelador do fracasso da capacidade de negociação do governo grego, quanto a mim incompetente e irresponsável no processo. A saída da Grécia da Zona Euro, ou como inteligentemente referiu Helena Garrido, no Jornal de Negócios, “o Euro sair da Grécia”, trará momentos ainda mais difíceis para os gregos, que sofrem na pele as decisões dos seus governantes.

 

O presidente Obama, por seu lado, teve uma semana extraordinária, com a aprovação do Obamacare pelo Supremo Tribunal e a decisão histórica sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A decisão é histórica porque não foi imposta por um partido em maioria num parlamento. É o resultado de uma conversa longa, em que os argumentos contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo foram contestados um a um até acabarem por ficar reduzidos a uma crença, que cada um terá livremente, mas que não tem força suficiente para ser legal. Ainda haverá pessoas que acreditam que o Estado tem o direito de proibir casais que estão juntos a vida toda de formalizarem a sua união. A partir desta semana, nos Estados Unidos, o que era lei passou a ter o valor de uma opinião. Viva a civilização! Obama ainda cantou Amazing Grace numa cerimónia de homenagem às vítimas do massacre em Charleston e fez um discurso religioso, algo só possível numa democracia como os Estados Unidos.  

 

Aconteceu isto tudo e ainda fui ao cinema ver Inside Out, ou Divertida-Mente, como lhe chamaram em português. O filme é difícil para crianças, talvez complicado para alguns adultos, mas fala de assuntos importantes como as “vozes na nossa cabeça”, que na verdade ouvimos mal. Uma mudança de casa e de cidade aos 11 anos com os pais são suficientes para causar alterações de comportamento e até mudanças mais profundas. É o que acontece a Riley, a menina que conhecemos através do que se passa dentro da sua cabeça.

 

Inside Out é um filme sobre saúde mental e sobre a importância das emoções, mesmo da tristeza, apresentada como uma gorda chata de camisolão grosso. Riley sofre com as mudanças na sua vida, ao ponto de a sua identidade ficar fragmentada. O sofrimento é grande porque Riley deixar de ser capaz de estar alegre ou triste. As emoções que restam – o medo, a repulsa e a raiva – são insuficientes para viver saudavelmente. As memórias destas emoções caem num buraco negro do qual nada se pode recuperar e no fim do dia são “os desordeiros” residentes no subconsciente que acordam Riley e a obrigam a agir, tornando-a, curiosamente, ainda mais doente. Só a tristeza é capaz de pôr as coisas no seu lugar e dar espaço à alegria de saber o que não pode perder.

 

Publicado na edição de hoje do i.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:38

Dos Antigos

por Carla Hilário Quevedo, em 24.06.15

Bonheur_Matisse.jpg

Henri Matisse, Le bonheur de vivre, 1905

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:10

Joguinhos mentais

por Carla Hilário Quevedo, em 24.06.15

O Guardian pergunta porque é que Putin chega sempre tarde às reuniões e obviamente não responde. Faz, apesar disso, um balanço divertido sobre o hábito horrível de nunca ser pontual. Não se trata apenas de uma questão política. Já a primeira mulher se queixava que já no namoro que Putin se atrasava. Quando ficava uma hora à espera desatava num pranto. Mas nos encontros políticos é possível intuir uma hierarquia no atraso. O presidente da Ucrânia esperou quatro horas. John Kerry, três. Podíamos arriscar e dizer que a personalidade mais respeitada por Putin é a Rainha de Inglaterra, que só esperou 14 minutos, mas o contrário também pode estar certo. Não é politicamente relevante. Não merecia o exercício de poder de obrigar a esperar. O Papa Francisco esperou 50 minutos, o que sobe o grau putiniano de (des)consideração. Não há notícia de personalidades que tenham desistido de esperar. Ainda não nasceu o homem ou a mulher que o mande à fava.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 19-6-15

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:58

Solteiros e casados

por Carla Hilário Quevedo, em 24.06.15

Li um artigo no Telegraph com o título enganoso "o casamento é mais benéfico para os homens do que para as mulheres". Nada que não saibamos. Na verdade, a novidade, se é que lhe podemos chamar novidade, é ter sido estatisticamente provado que o celibato é mais perigoso para os homens do que para as mulheres. Não vamos incluir neste grupo os homens com perturbações obsessivas-compulsivas nem hipocondríacos, porque sabem tratar deles. Os outros parecem-me mais vulneráveis às idas e vindas da depressão e da euforia nas mais variadas temáticas, sejam gastronómicas, existenciais, laborais ou de ocupação dos tempos livres. As mulheres sozinhas, por seu lado, não são assim tão diferentes das suas congéneres casadas. Mais filho, menos filho, mais ou menos namorado, é mais ou menos a mesma coisa. É por isso que o texto mencionado não tem o título certo. Não é que o casamento seja melhor para os homens. O problema é não saberem lidar com o celibato.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 19-6-15

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:48

Até na repetição há desencontro

por Carla Hilário Quevedo, em 23.06.15

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:47

Cenas da vida conjugal

por Carla Hilário Quevedo, em 23.06.15

Aconteceu há dias começar a falar em castelhano, sem ter aulas nem haver nenhuma razão que me seja conhecida. 

 

- (visivelmente contente) Vais finalmente começar a falar a língua do Khal?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:42

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 23.06.15

 Daenerys da Casa Targaryen, a Primeira do Seu Nome, Rainha de Meereen, Rainha dos Ândalos e dos Primeiros Homens, Protectora do Domínio, Khaleesi do Grande Mar de Relva, Mãe de Dragões aka Emilia Clarke

 

... bem, obrigada. O que deve uma pessoa inocente fazer quando acaba uma temporada de Game of Thrones? Primeiro, chorar um bocadinho. Depois pensar em como preencher o vazio emocional. A segunda temporada de True Detective estreia esta semana, mas é como ver agora um filme do Ingmar Bergman. Não é um substituto. Decidi que o melhor seria voltar a 2011 e rever a primeira temporada. O canal SyFy não compreende os fãs como é seu dever, porque recuperar o passado teria sido uma boa maneira de esperar pela sexta temporada. Por enquanto, quatro anos depois, posso dizer que não me lembrava de imensos pormenores e até de certas relações entre personagens, em que situações tinham aparecido, quem eram na história. Também estou em condições de defender que Ned Stark é responsável pelo seu fim. George R. R. Martin sabia que a seriedade de Stark seria impossível de sustentar num ninho de víboras, porque é uma característica de personagens aborrecidas, previsíveis, das quais não se pode esperar grandeza, porque não são capazes de mudar, de se adaptar, de jogar. Foi a falta de complexidade que matou Ned Stark. Agradeço ao autor a decisão certa que tomou. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:56

Blockbomba

por Carla Hilário Quevedo, em 22.06.15

Big Eyes (lembro-me de ter lido que este filme não era "um Tim Burton" e outras tretas de quem quer controlar a criatividade alheia. É um excelente filme, bem contado, bem interpretado. Tim Burton a mostrar o seu enorme talento.)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:45

A síndrome da porta mal fechada

por Carla Hilário Quevedo, em 22.06.15

CHQ159.jpg

App PictureShow com filtro Cinema e moldura 135 Slide

 

Há dias, Hercule Poirot, o detective belga criado por Agatha Christie, disse a seguinte frase a propósito de assuntos tão importantes como o homicídio: “o mundo está cheio de pessoas boas que fazem coisas más”. Não me lembro se a terá dito em “Crime do Expresso do Oriente”, uma obra-prima, mas faria todo o sentido naquele contexto. A solução para o crime coloca Poirot na situação de juiz, o que é raro acontecer, se não mesmo caso único. E Poirot decide como “pessoa boa que faz uma coisa má”. Mas até que ponto será mau o que fez?

 

Tomemos esta introdução como pano de fundo para a história que vou contar, que está, felizmente, vários furos abaixo do problema moral com que Poirot é confrontado. No caso de Poirot, temos a justiça a ser praticada pelas próprias mãos de várias vítimas, tornando-as homicidas. No caso da minha história quotidiana temos pessoas preocupadas com os outros, a querer fazer o bem, com efeitos que podem ir do sobressalto ao acidente e até à morte.

 

No ano passado ia tendo um acidente na Ponte sobre o Tejo. Vinha feliz da praia com uma amiga quando do carro atrás começam a buzinar imenso. “Mas o que é que se passa?”, perguntava ao espelho retrovisor como se esperasse ser atendida na resposta. As buzinadelas não paravam e o homem atrás gesticulava e apontava para a porta dele. Percebi que “o problema” estaria relacionado com uma porta mal fechada. Provocado o pânico, perguntámos uma à outra: “É a tua ou a minha?”. Íamos a meio da ponte e as buzinadelas não paravam. O condutor estava desesperado com a nossa distracção (não assinalada pelo carro) e estava disposto a tudo, até a provocar uma crise de nervos ao volante, para resolver a situação, quem sabe se de vez. Tentei não me deixar levar pela preocupação alheia, até porque se havia uma porta mal fechada, o assunto não seria resolvido no tabuleiro da ponte. O homem lá me ultrapassou gesticulante ao ponto do pré-enfarte (dele) e quando parei em Campo de Ourique confirmei que havia uma porta mal fechada, sim, e depois?

 

Há dias aconteceu o mesmo, embora na auto-estrada, também num regresso da praia. É provável que o sol e o mar enfraqueçam os braços das raparigas e daí haver portas de carros mal fechadas nestes dias. Lá apareceu outro homem cheio de gestos que se traduziam por “ai que horror, a porta!”. Parei numa bomba de gasolina e acabei com aquela fresta, a reentrância causadora de tantas angústias. Mas realmente, senhores, o que poderia acontecer? A porta abrir por causa do vento e arrastar-me com ela? Seria levada pelos ares, agarrada (ou não) à porta do carro, deixando o resto do automóvel e a passageira à deriva? Uma vez no ar, seria atacada por uma águia ou engolida por um dragão, ou raptada por extraterrestres, sugada por um feixe de um óvni que ali pairava no anonimato? Nunca vi uma porta mal fechada de um carro de repente abrir-se, provocando o caos, mas percebo a força da imaginação.

 

Porém, daqui faço um pedido: no momento em que for confrontado com a vontade de “fazer o bem”, avisando o outro do “perigo extremo” que corre, respire fundo e meta-se na sua vida. Ainda provoca um acidente grave.

 

Publicado na edição de hoje do i.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:36

Dos Antigos

por Carla Hilário Quevedo, em 19.06.15

house-by-the-railroad.jpg

Edward Hopper, House by the Railroad, 1925

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:40

Pág. 1/3