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Almas doentes

por Carla Hilário Quevedo, em 15.06.15

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O Papa Francisco admitiu há tempos que não via televisão há 25 anos. Também já afirmou várias vezes que não sabe usar o computador. Há dias alertou os pais para os perigos da internet que as crianças correm sem saberem. A falta de vigilância dos pais pode levar os filhos a ir parar a sites pornográficos, declarou. O Papa deixou um aviso sobre a dependência dos computadores, nefasta como é próprio de qualquer dependência, por “tornar a alma doente”.

 

Até o Papa alegar motivos de “doença da alma” para evitar os computadores admito que não o estava a levar muito a sério nestas declarações. Afinal de contas, trata-se de uma pessoa que afirma não saber usar o computador, o que nos dá uma indicação sobre a autoria das suas várias contas nas mais variadas línguas espalhadas pelo Twitter, pelo Facebook, em sites, etc. Vimos o Papa em selfies, no YouTube, etc. Na verdade, nunca tivemos um Papa tão entusiasta dos “novos” meios de partilha na internet, e afinal é logo Francisco que nos vem dizer que os computadores tornam as pessoas doentes. Em que ficamos?

 

Talvez o Papa não esteja a ser tão contraditório como parece. Se falamos de crianças, parece-me evidente que é importante, para não dizer essencial, que os pais vigiem o que os filhos vêem. Embora não seja assim tão fácil ir parar a um site de pornografia, é relativamente fácil assistir sem querer a um vídeo de enorme violência. Há também muitas formas de pornografia pela internet fora. Pessoas que partilham toda a espécie de desgraça moral que acontece no mundo, por exemplo, não estarão a contribuir para um ambiente virtual tóxico, altamente nocivo para pessoas com uma estrutura emocional em formação? E o que dizer da partilha constante de notícias irrelevantes, que causam a comoção geral num dia para horas depois caírem no mais profundo esquecimento? Não será essa uma forma de “pornografia”, de tomar uma parte pelo todo, de fixar a atenção num momento, numa imagem, numa frase? Já para não falar da indignação com tudo em geral o que acontece, como se fosse possível (para não dizer desejável) que o mundo nos oferecesse surpresas diárias. Viver em constante revolta com seja o que for só revela ignorância e frivolidade. Não, não indica que se é boa pessoa. Se é a este tipo de pornografia que o Papa se refere, então dou-lhe razão. É fácil chegar a ela e não faz nada bem à alma.

 

Também fiquei a pensar se só as crianças serão vulneráveis à pornografia virtual. Talvez os adultos mais jovens estejam a crescer em meios de estupidez, na medida em que estes ambientes de queixa exigem reacções constantes ao que acontece. Se existe uma “doença da alma” associada à dependência dos computadores, então a causa estará no vazio da urgência de reacção às alegrias e desgraças, que acaba com a possibilidade de rir e chorar. Note-se que ao contrário da televisão, a internet exige em muitos casos uma relação com o “espectador”, que se torna “participante” a propósito de tudo e de nada.

 

Talvez o Papa, inexperiente nestes assuntos como em tantos outros, tenha toda a razão do mundo. Pelo sim, pelo não, afastem as crianças dos computadores. E a maioria dos adultos também.

 

Publicado na edição de hoje do i

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publicado às 19:14

Walk my barefeet (walk my barefeet)

por Carla Hilário Quevedo, em 15.06.15

Down, down valley peak (Down, down valley peak)
I keep my fee-fi-fo-fum (Fee-fi-fo-fum)
I keep my heart undone (My heart undone)

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publicado às 18:51