Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Uma vacina contra a ignorância

por Carla Hilário Quevedo, em 06.07.15

CHQ161.jpg

App Instagram com filtro Ludwig

 

Há uma fronteira ténue que separa a “preocupação” do “bullying” e da sua consequente falta de respeito pelo próximo em nome de um “sentimento” que, por ser tão nobre, dá sempre razão a quem o tem. Outro caso de confusão entre o que parece ser e o que acaba por se revelar é o da preocupação dos pais com os filhos. A confusão é flagrante no caso do movimento antivacinação, que vai ganhando força em países desenvolvidos. O novo problema só pode aliás existir em países habituados a ter cuidados de saúde e remédios. É um problema de ricos e, devo acrescentar, de irresponsáveis e egoístas.

 

Sob a capa da “preocupação” com os filhos, os pais que não os vacinam estão a deixá-los à mercê de doenças entretanto erradicadas, graças, precisamente, à vacinação em massa. Mas a negligência travestida do que é “melhor para os filhos” não se limita à descendência. Estes pais não estão interessados em perceber as consequências dos seus actos noutras crianças e até nos adultos.

 

Desde 1987 que não havia um caso de difteria em Espanha, que começou a vacinar a população em 1945. A doença estava erradicada do país até este triste dia, em que uma criança de seis anos morreu por não ter sido vacinada. A criança teve contacto com outras oito que eram portadoras da bactéria, mas que não tinham desenvolvido a doença porque tinham sido vacinadas. Visto que havia mais três crianças não vacinadas contra a difteria naquela escola, os portadores vacinados tiveram de ficar em casa para não contagiarem os outros.

 

Não havia uma morte confirmada por sarampo nos Estados Unidos desde 2003, mas a morte de uma mulher na sequência de complicações por ter contraído a doença não foi uma surpresa para as autoridades. O movimento anti-vaxxers é activo no estado do Washington, o que contribuiu para o aumento de casos de sarampo. Quanto menos vacinados houver, maior o risco de propagação das doenças, porque a imunidade do grupo fica comprometida. Tanto vacinados como não vacinados sofrem com a falta de vacinação. Surtos de sarampo no início do ano em parques da Disney, primeiro na Califórnia e no Distrito de Colúmbia, em Washington, fizeram com que as autoridades sanitárias falassem sobre o regresso de uma doença que se pensava estar erradicada.

 

O médico inglês Andrew Wakefield é o mentor do movimento anti-vacinação. Wakefield publicou um estudo em 1998 em que defendia a relação entre as vacinas para o sarampo, a papeira e a rubéola e o autismo. Em 2001, Wakefield juntou-se a Jeff Bradstreet, outro médico activo na comunidade de anti-vaxxers nos Estados Unidos. Bradstreet apareceu morto há dias num rio na Carolina do Norte e as autoridades estão a investigar o caso. O estudo de Wakefield e as teorias de Bradstreet foram desacreditadas pela comunidade científica. Porém, o grupo de paranóicos, charlatães e ignorantes persiste em causar danos.

 

A cereja é o actor Jim Carrey, que há dias se tornou mais uma celebridade a fazer parte deste grupo ao insultar o governador da Califórnia, Jerry Brown, por ter aprovado a lei que obriga à vacinação das crianças em idade escolar. Neste caso em particular, por se tratar de um actor talentoso, é tudo mau a dobrar.

 

Publicado na edição de hoje do i.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:36