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À espera dos bárbaros

por Carla Hilário Quevedo, em 31.08.15

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App PictureShow com filtro BlueVintage sobre O primeiro Dia de Acção de Graças em Plymouth, de Jennie Augusta Brownscombe (1914)

 

Há vários meses e diariamente que assistimos à fuga de centenas de milhares de pessoas da Síria, do Afeganistão, por causa da guerra civil, alguns a escapar do Estado Islâmico. Viver em certas zonas do planeta é um pesadelo que justifica arriscar a própria vida e a dos seus. Muitos enviam só as crianças. Estão mais seguras num bote de borracha no meio do Mediterrâneo do que em terra. Não se imagina o que é estar na posição de colocar um filho num barco para o desconhecido porque o que é conhecido é a morte violenta a seu tempo.

 

Os governos europeus têm demorado a reagir à chegada dos refugiados, que muitos vêem como “invasores”, esquecendo que a Europa foi feita de invasões. A diferença mais óbvia entre os fugidos à guerra, à fome e à pobreza em países do Norte de África e, por exemplo, os Vândalos, está na forma pacífica com que os primeiros chegam à ilha de Kos, na Grécia. Uma imagem de pessoas salvas pela polícia marítima a acenar de alegria por terem chegado a terra comoveu-me. É uma imagem de paz e esperança. Estas pessoas são no entanto recebidas como bárbaros sanguinários, mesmo em países como o Reino Unido. A Hungria e a Bulgária constroem muros e vedações com arame farpado para garantir a exclusão daqueles que procuram uma possibilidade de vida noutro sítio. Pobre gente que foi convencida da hipótese de ter uma vida melhor na Bulgária! Só esta “escolha” nos dá uma ideia do desespero e do engano a que estas pessoas estão sujeitas num momento de vulnerabilidade extrema.

 

Enquanto centenas de milhares de pessoas lutam pela sobrevivência, muitas delas morrendo pelo caminho, quer afogadas no Mediterrâneo, quer sufocadas em camionetas na fronteira entre a Áustria e a Hungria, os governos europeus reflectem sobre o que fazer, com todo o tempo do mundo à sua disposição. A indignação com a desgraça à nossa porta não basta, até porque na maior parte dos casos não é uma indignação “limpa”, por assim dizer. Não é uma culpabilidade deslocada pelo nosso bem-estar que nos deve atentar nos que sofrem: é o sentido de decência que tanta falta faz, sobretudo aos governantes. A excepção é Angela Merkel, a única pessoa na Europa que mostrou ser capaz de pensar e agir seriamente sobre este problema e que tomou uma posição muito clara relativamente às manifestações neonazis na Alemanha. Merkel sabe perfeitamente o perigo que isto representa, ao contrário de outros esquecidos.

 

Entretanto, já ouvi de tudo no nosso Portugal sonsinho e xenófobo. Várias pessoas desconfiam da vinda de refugiados para Portugal, porque o país, já se sabe, “é pobre”. “Não há para os que cá estão, como vai haver para os sírios?”, perguntam com a mesquinhez que Deus lhes deu. Portugal precisa de pessoas que queiram fixar-se no nosso país, aprender a língua, viver em paz e trabalhar aqui. E não necessariamente para “fazer trabalhos que os portugueses não fazem”, ah, essa sugestão de exploração infecta que paira sempre que se fala de pessoas que pouco têm. Os argumentos de xenofobia utilitarista estão aí para quem os quiser ouvir. Que venham os sírios, os afegãos, as mulheres e as crianças. Que amem Portugal e adoptem o país como seu, é o que desejo.

 

Publicado na edição de hoje do i

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publicado às 19:46

Dos Modernos

por Carla Hilário Quevedo, em 28.08.15

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Jackson Pollock, Shimmering Substance, 1945

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publicado às 18:08

Vida maior

por Carla Hilário Quevedo, em 26.08.15

Uma biografia de Gore Vidal será publicada em breve nos Estados Unidos. O título é Every Time a Friend Succeeds Something Inside Me Dies e foi escrita por Jay Parini, seu amigo de longa data, e já está na minha wish list. Em breve também teremos a estreia de um documentário intitulado Best of Enemies, com os debates de Gore Vidal com William F. Buckley, político conservador e inimigo de estimação. Inimigos, rivais e gente insuportável de estimação aliás nunca lhe faltaram. Gore Vidal não suportava Truman Capote, Norman Mailer, Henry Miller, Bush pai (imagino que o filho também), Christopher Hitchens e muitos mais. O próprio Jay Parini escreveu no Guardian um texto que serve como um belo panorama dos combates com amigos e inimigos. Embora Gore Vidal tenha estado sempre por aí, a pairar nas livrarias portuguesas, nunca é demais puxar por ele. Se a sua obra é importante e vasta, a sua vida não lhe fica nada atrás. Talvez seja até maior.  

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 21-8-15

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publicado às 18:01

O génio saudável

por Carla Hilário Quevedo, em 24.08.15

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App PictureShow com filtro Quad

 

Como se contam histórias quando a realidade é dura e incompreensível? E que relação pode haver entre o encerramento dos estaleiros de Viana do Castelo e uma praga de vespas? Será pergunta que se faça? Como interpretar a realidade caótica do país sem fazer um documentário ou, pior, um panfleto?

 

O realizador Miguel Gomes, no primeiro volume d’As Mil e Uma Noites, denominado “O Inquieto”, foge porque não sabe responder às perguntas e porque tem graça. A equipa corre atrás dele, até aparecer de novo, corpo enterrado, cabeça de fora, com dois membros da equipa (um deles, Vasco Pimentel, responsável pelo som), a lembrar Play de Samuel Beckett. Não estão em urnas, mas estão metidos em sarilhos. Só a ficção e três jornalistas podem ajudar.

 

A protagonista d’As Mil e Uma Noites é Xerazade, que conta episódios que aconteceram em Portugal entre Agosto de 2013 e Julho de 2014. Lembremos que a rainha original tinha arranjado o subterfúgio de contar histórias durante a noite para que o rei não a matasse. Não a matava porque queria saber como a história acabava. Também Penélope desfazia à noite o que ia tecendo durante o dia, tudo para fugir à “morte” de casar com um pretendente. Xerazade assim sobrevivia, como qualquer um de nós sobrevive a adiar a morte na medida em que o podemos fazer. A estratégia só em aparência é feminina, mas é certo que Miguel Gomes filma as mulheres com generosidade e sem paternalismos – coisa rara e até comovente. Um exemplo é a cena arriscada do segundo volume, “O Desolado”, protagonizada por uma filha ao telefone com a mãe. Esta mãe, que dá conselhos esquisitos, será a juíza numa das melhores cenas do filme, a do tribunal, em que é incapaz de julgar porque os participantes, réus, testemunhas e outros, são culpados e inocentes à sua maneira. Todos têm as suas razões.

 

No terceiro volume, “O Encantado”, Xerazade dá uma resposta extraordinária a um homem agradável à vista e que lhe sussurra que quer ter filhos dela. A proposta é clássica e estúpida como só o que é intemporal pode ser. Xerazade está à altura. É, afinal de contas, a heroína do filme. Aquela que é capaz de juntar desempregados de longa duração num banho de mar gelado a 1 de Janeiro; uma pirómana apaixonada; um galo que canta às três da manhã; uma reunião da troika com os governantes que tem graça por estar bem contada e filmada. A cena cómica é a mais arriscada, mas é por ser tão óbvia que se torna hilariante. E por ter um tradutor brasileiro, que ideia magnífica!

 

A opção de dividir o filme de seis horas em três partes foi acertada. Depois de ver o primeiro, quis ver o segundo, e depois de ver o segundo quis saber como o terceiro poderia estar à altura dos anteriores. Nenhum defraudou as minhas expectativas. Pelo contrário, a última história sobre os passarinheiros é tão excepcional e intrigante que podia resultar num único filme separado de todos.

 

As Mil e Uma Noites fala dos tempos humilhantes que vivemos mas não permite que sejamos engolidos por eles. Xerazade tem sentido de humor, conta bem as histórias – é rigorosa e literária. Parabéns a Maria José Oliveira, Miguel Gomes e Luís Urbano por nos mostrarem o génio saudável.

 

Publicado na edição de hoje do i.

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publicado às 19:38

Lisboa 2015

por Carla Hilário Quevedo, em 23.08.15

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publicado às 20:29

Alentejo 2015

por Carla Hilário Quevedo, em 23.08.15

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publicado às 20:24

Nazaré 2015

por Carla Hilário Quevedo, em 23.08.15

There's truth that lives
And truth that dies
I don't know which
So nevermind

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publicado às 20:08

Dos Modernos

por Carla Hilário Quevedo, em 19.08.15

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Tezh Modarressi, Who's Got The Whiskey, 2010

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publicado às 17:01

O terceiro homem

por Carla Hilário Quevedo, em 19.08.15

Para consolo dos socialistas devo lembrar que a história dos famosos cartazes vai ser, como tudo o que acontece em Portugal, rapidamente esquecida. Há, no entanto, um lado enigmático que pode dar um filme. Sabemos que os publicitários experientes Vítor Tito e Edson Athayde não são responsáveis pela incompetência neste início de campanha. Por outro lado, passámos a saber que haverá um terceiro criativo desconhecido que teve aquela brilhante ideia e o poder de distribuir os cartazes no absoluto anonimato e isso não é coisa pouca. Penso que a ideia da campanha não era má. Se as histórias pertencessem às pessoas e as datas fossem mais apropriadas para fundamentar os estragos da austeridade, teria sido interessante de ver. Claro que para isto tinha sido preciso trabalhar um bocadinho. Não deve ser difícil encontrar voluntários na multidão de desempregados e nela alguém que não tivesse trabalho há quatro anos. O criativo ignoto foi preguiçoso.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 14-8-15

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publicado às 16:58

Duas vezes bom

por Carla Hilário Quevedo, em 19.08.15

Num artigo na Economist abordaram o grande problema da humanidade chamado Twitter. A condenação consensual do máximo de 140 caracteres como responsável pela iliteracia da juventude foi declarada exagerada e perniciosa. Ser breve continua a ser uma virtude que não se ensina, sendo apesar disso literariamente apreciada. Curiosamente só nos jornais é exigida, não tanto por exigências de estilo mas para não dificultar a tarefa editorial e a paginação. Mas a questão de fundo é não estarmos a formar os nossos jovens na difícil arte da clareza concisa, da adjectivação austera e no combate à divagação inútil, à repetição senil e à informação desinteressante. Mas os jovens estão a aprender o estilo da maneira mais directa e por vezes cruel da exposição pública, mesmo que o público seja formado pelos seus pares. Abaixo as exigências de escrever em dez páginas o que se pode dizer em cinco. Vivam os 140 caracteres que revelam a burrice e o génio. 

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 14-8-15

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publicado às 16:52

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