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Dos Antigos

por Carla Hilário Quevedo, em 17.08.15

Edward Hopper, Two Figures at Top of Steps in Pari

Edward Hopper, Two Figures at Top of Steps in Paris, 1906

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publicado às 19:53

A vida adulta

por Carla Hilário Quevedo, em 17.08.15

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A minha infância não me interessa nada. Foi vivida, como a de qualquer pessoa foi, é e será vivida. Pensei sobre ela, por vezes, em certas circunstâncias lembro-me dela e, sempre que isso acontece, fujo dela a sete pés. A minha infância foi vivida no seu tempo, melhor, pior, com alegria, com choros, com birras, com felicidade e tristeza à minha volta. Lá me mantive à tona de água, apesar de correr o risco de me afogar. Não parece, mas é uma metáfora. Uma pessoa nasce e a partir daí é uma incógnita. Em que se tornará o bebé querido quando chegar aos 30, aos 40? Chegará aos 50 revoltado com os pais, por não terem sido o que gostaria? Acabará a vida arrependido de não ter feito o que queria? Estas são perguntas de adulto, que raramente surgem com serenidade e limpidez a quem ficou cristalizado numa altura em que a vida não tinha fim.

 

Ser adulto passa por percebermos que não somos eternos. Parece fácil, porque está à vista. Os avós desaparecem, alguns cedo na vida. Mas não é suficiente para a tomada de consciência mais importante: a de que um dia seremos nós a envelhecer e a morrer. Não são boas nem más notícias: é só natural e um sinal de que somos feitos de matéria perecível, que decairá a seu tempo e extinguir-se-á como tem de ser. Talvez a morte – igualitária, devo salientar – tenha sido excessivamente conotada com uma tal ideia de fim, que faz com que a vida seja descrita como “um caminho” que se “percorre” até chegar àquele ponto. Por isso, podemos dizer de alguém que “é uma tristeza chegar aos 43 anos com rancor ao pai”, mas a verdade é mais complexa e mais difícil de descrever.

 

Li há dias um conto curto de Lev Tolstói intitulado “Depois do Baile”. Ivan Vassilievitch, “um homem respeitado por todos”, conta o que lhe aconteceu numa manhã em que toda a sua vida mudou – uma manhã de epifania, em que percebeu que sabemos o que é o bem e o mal não por estarmos inseridos num meio mas “por acaso”. No caso de Ivan Vassilievitch, terá acontecido quando resolveu meter-se “a direito pelo campo”, num passeio matinal. Estava apaixonado e a partir do momento de terrível descoberta, tudo mudaria. O conto é sublime, talvez autobiográfico, uma vez que Tolstói foi alguém a quem “aconteceu uma coisa”. Ao mesmo tempo, a história até chegar ao momento da “mudança” é ambígua. A história é contada depois da “revelação”, o que explica os incómodos que precipitariam o reconhecimento, se se desse o tal acaso. Mas talvez a explicação seja outra: Ivan Vassilievitch não mudou. Foi sempre assim, e foi essa inalterabilidade que lhe permitiu precisamente “mudar numa manhã”. Ninguém muda “numa manhã”, nem o próprio Tolstói.

 

Não muda: no melhor dos casos, num momento de crise, interrompe, conquista – deixa de repetir. No pior dos casos, regride a um tempo em que não sabia falar. Não se trata de ter uma experiência (mística ou outra mais prosaica), nem de “percorrer um caminho na vida”, ou “crescer”, mas de haver uma altura em que decidimos viver de acordo com o que somos e queremos, sabedores de que a morte chega para todos. Nesse dia de verdade gloriosa deixamos a infância na infância. Foi o que foi enquanto durou e ainda bem que acabou.

 

Publicado na edição de hoje do i

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publicado às 19:49