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O génio saudável

por Carla Hilário Quevedo, em 24.08.15

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Como se contam histórias quando a realidade é dura e incompreensível? E que relação pode haver entre o encerramento dos estaleiros de Viana do Castelo e uma praga de vespas? Será pergunta que se faça? Como interpretar a realidade caótica do país sem fazer um documentário ou, pior, um panfleto?

 

O realizador Miguel Gomes, no primeiro volume d’As Mil e Uma Noites, denominado “O Inquieto”, foge porque não sabe responder às perguntas e porque tem graça. A equipa corre atrás dele, até aparecer de novo, corpo enterrado, cabeça de fora, com dois membros da equipa (um deles, Vasco Pimentel, responsável pelo som), a lembrar Play de Samuel Beckett. Não estão em urnas, mas estão metidos em sarilhos. Só a ficção e três jornalistas podem ajudar.

 

A protagonista d’As Mil e Uma Noites é Xerazade, que conta episódios que aconteceram em Portugal entre Agosto de 2013 e Julho de 2014. Lembremos que a rainha original tinha arranjado o subterfúgio de contar histórias durante a noite para que o rei não a matasse. Não a matava porque queria saber como a história acabava. Também Penélope desfazia à noite o que ia tecendo durante o dia, tudo para fugir à “morte” de casar com um pretendente. Xerazade assim sobrevivia, como qualquer um de nós sobrevive a adiar a morte na medida em que o podemos fazer. A estratégia só em aparência é feminina, mas é certo que Miguel Gomes filma as mulheres com generosidade e sem paternalismos – coisa rara e até comovente. Um exemplo é a cena arriscada do segundo volume, “O Desolado”, protagonizada por uma filha ao telefone com a mãe. Esta mãe, que dá conselhos esquisitos, será a juíza numa das melhores cenas do filme, a do tribunal, em que é incapaz de julgar porque os participantes, réus, testemunhas e outros, são culpados e inocentes à sua maneira. Todos têm as suas razões.

 

No terceiro volume, “O Encantado”, Xerazade dá uma resposta extraordinária a um homem agradável à vista e que lhe sussurra que quer ter filhos dela. A proposta é clássica e estúpida como só o que é intemporal pode ser. Xerazade está à altura. É, afinal de contas, a heroína do filme. Aquela que é capaz de juntar desempregados de longa duração num banho de mar gelado a 1 de Janeiro; uma pirómana apaixonada; um galo que canta às três da manhã; uma reunião da troika com os governantes que tem graça por estar bem contada e filmada. A cena cómica é a mais arriscada, mas é por ser tão óbvia que se torna hilariante. E por ter um tradutor brasileiro, que ideia magnífica!

 

A opção de dividir o filme de seis horas em três partes foi acertada. Depois de ver o primeiro, quis ver o segundo, e depois de ver o segundo quis saber como o terceiro poderia estar à altura dos anteriores. Nenhum defraudou as minhas expectativas. Pelo contrário, a última história sobre os passarinheiros é tão excepcional e intrigante que podia resultar num único filme separado de todos.

 

As Mil e Uma Noites fala dos tempos humilhantes que vivemos mas não permite que sejamos engolidos por eles. Xerazade tem sentido de humor, conta bem as histórias – é rigorosa e literária. Parabéns a Maria José Oliveira, Miguel Gomes e Luís Urbano por nos mostrarem o génio saudável.

 

Publicado na edição de hoje do i.

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publicado às 19:38