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Fragmentos de uma campanha eleitoral

por Carla Hilário Quevedo, em 14.09.15

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App CameraBag com filtro Mono sobre capa da Vanity Fair de Agosto de 1991

 

Em Portugal temos o hábito de nos afeiçoarmos demasiado a episódios, que pela sua natureza são temporários e rapidamente esquecíveis. Por outro lado, há uma tendência neurótica de não pôr um ponto final às conversas. O expoente máximo desta inclinação surge em programas sobre futebol, onde parece haver uma memória prodigiosa ou arquivos muito bem organizados.

 

O tema “Joana Amaral Dias nua e grávida com o namorado na revista Cristina” tinha todo o aspecto de ser mais um episódio com tempo limitado de antena, mas tornou-se uma conversa sem fim à vista. Gostaria de dar aqui o meu contributo para não deixarmos já, já de falar do assunto, fazendo deste modo a vontade a Joana Amaral Dias, sempre no entanto com a esperança que vive em qualquer colunista que se preze de encerrar o tema de uma vez por todas.

 

Fazendo um resumo dos acontecimentos, a Joana foi capa da Cristina nua e grávida, com o namorado de calças de ganga e cara escondida no pescoço dela. Caiu o Carmo e a Trindade mas não se sabe bem porquê. Havia qualquer coisa que incomodava na fotografia e que ia além da piroseira da produção. Seria o olhar de desejo (ou seria náusea?) de Joana? Ou como escreveu no Diário de Notícias a ex-deputada do PS, Marta Rebelo, com a intensidade que a caracteriza, seria por “[nojo profundo] de ver uma mulher atentar contra tudo aquilo em que acredito]”, nomeadamente a sua crença de “[existir] voz, acção e mudança sem a prostituição político-partidária”? Dito assim, teria Marta receio de os tempos de antena do PTP/Agir passarem a ter lugar no canal Sexy Hot? A demagogia da Joana fez muita impressão à Marta e é natural que assim seja. A Joana é uma feminista que diz que manda no corpo dela; a Marta joga no clube das moralistas que não quer ver a sexualidade alheia exibida sem controlo e por causa de eleições. Acontece que só o sentido de humor pode salvar uma mulher moralista. E afinal de contas a que eleitorado se dirige Marta Rebelo?

 

Compreendo o problema prático de Joana Amaral Dias: como se diz aos eleitores que existe uma coligação chamada PTP/Agir? Aceito a solução que lhe deu a um mês de eleições. Não votarei neste partido que Joana defende com excesso de ambição “não ser de direita nem de esquerda”, mas penso que “a batalha está ganha”, como afirmou. Não a que se refere à “oportunidade para falar dos direitos das mulheres e da maternidade” – essa parece-me perdida, apesar do esforço de manter a discussão viva, desta vez no Correio da Manhã. Não vi ninguém a falar sobre temas como, por exemplo, gravidez de risco. Ou Joana Amaral Dias está a mentir sobre as suas intenções ou “não sabia” que queria coisas simples e imediatas, como pôr o partido no boletim de voto.

 

Penso que de toda esta discussão, falta saber a que eleitorado se dirige Joana Amaral Dias: aos indecisos a ter filhos ou aos abstencionistas? Também ficou por esclarecer a que propósito aparece o namorado de Joana na capa. A que partido pertence? Que ideias defende? Qual é o seu programa eleitoral? Queremos saber!

 

Publicado na edição de hoje do i

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publicado às 17:42