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O dia das eleições

por Carla Hilário Quevedo, em 05.10.15

Loja de Porcelana CHQ 5-10

App CameraBag com filtro 1974

 

Colunistas que escrevem sobre política não sabem o que escrever no dia de reflexão, 24 horas em que paramos para pensar, actividade quase caída em desuso. É um hábito de tempos passados em que só havia dois ou quatro canais de televisão. Hoje em dia não faz sentido. Até parece que “no pasa nada”, quando não se passou outra coisa durante meses de campanha eleitoral. Pessoalmente, gosto do sossego, mas é ridículo ver os noticiários no dia anterior à votação a fazer de conta que o país deixou de existir. O dia de reflexão é difícil para os colunistas que escrevem sobre política, mas o pior dia para todos os colunistas (salvo uma excepção) é aquele em que escrevo com o prazo de entrega que tenho; a saber, o dia das eleições legislativas até umas horas antes do fecho das urnas. Ora aqui está um desafio interessante.

 

Digo que é o pior dia para os colunistas em geral e não só para os que costumam escrever sobre política porque o tema é inevitável, há muitas expectativas quanto aos resultados – sobretudo nesta eleição – e porque tudo se tornará irremediavelmente datado quando este artigo for publicado amanhã; que é como quem diz hoje, o dia em que o está a ler. São poucas as pessoas que se vêem confrontadas com este problema, bem sei, e não pretendo suscitar a compaixão de ninguém, mas a tarefa não é fácil para quem não quer arriscar a fazer previsões que podem resultar num tremendo falhanço. Como qualquer pessoa, tenho impressões sobre o que pode acontecer, mas a verdade é que não sei, tal como ninguém às 11h05 da manhã de dia 3 sabe como vão abrir os telejornais. (Só esta frase, reparem na dificuldade, estará ultrapassada quando for lida em papel neste dia 5.) Resta-me abraçar a actualidade datada.

 

Acordei e fui votar. Não tão cedo quanto Ricardo Salgado, que evitou prudentemente os lesados do BES, mas ainda assim cedo. Sobre Sócrates nada se sabe. Quando cheguei ao Liceu Pedro Nunes não estava ninguém, mas quando saí da minha secção havia uma azáfama no corredor, com pessoas a fazer fila e à procura das secções de voto. Fiquei com a impressão de que a abstenção talvez não chegue às percentagens do costume, talvez também porque nunca se viu tanto apelo ao voto. Aproveito para chamar a atenção para o mini-bullying dos apelantes ao voto (em que me incluo e contra mim falo).

 

Lá por o Presidente da República apelar ao voto, isso não nos dá o direito de andar a aborrecer o próximo nas redes sociais, a indicar o link para consultar o site do Ministério da Administração Interna e a anunciar a App não-sei-das-quantas para ir votar. Fi-lo (embora com moderação), mas não o voltarei a fazer. A abstenção é um modo de exprimir uma opinião sobre o sistema político. Votar é, nesse sentido, um bocadinho como fazer anos. Há quem não goste e há quem ache graça. Quem somos nós para dizermos ao próximo que gostar de fazer anos é melhor do que não gostar de festejar?

 

Por esta altura já se sabe se a pressão social baixou as habituais percentagens da abstenção e se a redução será interpretada como um resultado desse mini-bullying ou como outra coisa qualquer. Tudo depende dos resultados, que às quatro da tarde de dia 4 só Deus conhece.

 

Publicado na edição de hoje do i.

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publicado às 19:32