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Ao serviço do Mal

por Carla Hilário Quevedo, em 09.11.15

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Sim, eu sei. Estão a passar-se coisas extraordinariamente importantes em Portugal. A importância destas coisas espectacularmente importantes exige que nos preocupemos com solenidade sobre questões como “o futuro do país”. Sim, vai tudo mudar com um governo à esquerda que não foi eleito. Sim, haverá dinheiro a rodos. Sim, a despesa publica aumentará e o défice ficará abaixo dos 3%, porque como sabemos 2+2=1. Milagre! Sim, eu sei. Mas enquanto não somos todos felizes, ricos e magros, mais vale ver um filme. Assim, quando o mundo mudar estaremos descansados para viver essa gloriosa mudança.

 

Podia ter ido ver os Minions ao cinema quando estreou, no Verão, mas não me apeteceu sair de casa, comprar o bilhete e estar numa sala cheia de gente a tossir, a comer e a falar. Meses depois, o filme estreou no videoclube e pude vê-lo deitada no sofá, a rir à gargalhada, a fazer pausas, a sair e a entrar da sala, a atender o telefone pelo meio, a ver o e-mail e a fazer pesquisas sobre a linguagem estranha dos Minions, uma mistura de italiano e espanhol, com meias palavras inglesas e sílabas soltas. Ver filmes em casa não obriga ao cumprimento dos rituais próprios de uma sala de cinema, mas o melhor desta liberdade é integrarmos o filme no nosso quotidiano, como se fosse um animal de estimação. Já não dizemos “casamento” porque “la boda” nos parece mais adequado e nunca mais agarraremos no gato como se fosse uma pessoa. A partir de agora há-de andar pendurado no braço como a ratazana adoptada por Bob, que a carrega como o urso de peluche. É um pormenor divertido dos muitos detalhes engraçados de que vive este filme para crianças e adultos.

 

A história dos Minions, todos do sexo masculino, porque como afirmou o seu criador, Pierre Coffin, “os Minions são tão tontos que não os imagino como raparigas”, não é complicada. A sua espécie é composta por criaturas amarelas e baixinhas parecidas mas com ligeiras diferenças entre elas. Todos têm nomes comuns, como Bob ou Dave, e ambicionam o mesmo: servir o maior vilão que existe à face da terra. Antes do homem das cavernas, os Minions serviram peixes esquisitos e agressivos e dinossauros. Depois passaram a faraós, vampiros, a Napoleão e os russos. Em todas as situações são os Minions que ajudam a enterrar o vilão, até ao momento em que se vêem sozinhos numa caverna gelada. O tempo passa e o tédio instala-se. À falta de um vilão, a vida dos que servem o mal torna-se um aborrecimento profundo. E é aqui que surge o primeiro problema da tese que diz que os Minions são todos iguais: Kevin, um Minion expedito, resolve ir à procura do vilão que dá sentido à vida. Daí a chegarem a Scarlett Overkill (Sandra Bullock) é uma viagem atribulada mas breve. O segundo problema surge quando os Minions cumprem as ordens de Scarlett mas roubam a coroa da Rainha de Inglaterra (Jennifer Saunders) e ficam com ela, subvertendo a ordem natural dos Minions, que não lideram.

 

Mas voltemos às coisas espectacularmente importantes do país, desta vez para descrevermos a situação numa linguagem mais clara: Po ka la boda? Sa la ka... Stopa! Tank yu. Banana para tu! (Tradução: “Que casamento? Como se atrevem... Parem! Obrigado. Banana para ti!”)

 

Publicado na edição de hoje do i.

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publicado às 19:05