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Fazer amigos (2)

por Carla Hilário Quevedo, em 14.01.17

Anteontem, no Irritações, irritei-me com a moda absurda de nos telejornais irem "ver o que dizem as redes sociais". Numa altura em que se fala da importância do jornalismo, as televisões fazem esta opção estranha de equiparar notícias, reportagens, entrevistas e comentário a leitura de tweets e posts no Facebook de pessoas comuns, que estão a dizer coisas nas redes sociais. Neste vídeo, podemos assistir ao risco que se corre a partir do momento em que se escolhe ler o feed do Twitter, porque precisamente aparece de tudo, desde o comentário mais banal até ao disparate e ao insulto. 

 

Gostava de perceber qual é a ideia das televisões ao fazerem esta opção igualitária, na medida em que parecem validar um desabafo no Twitter como opinião relevante. Também "ir ver o que dizem as redes sociais" é uma actividade impossível, porque tem de haver uma escolha de pessoas a seguir e, portanto, no máximo o que se lê é o que se diz nos cafés da Av. da Liberdade, sendo certo que na Av. de Roma ninguém é lido. O que estamos a ver é a timeline do jornalista ou do canal de televisão? Dantes o jornalista ia para a rua recolher a opinião de quem passava, actividade igualmente inútil. Agora só precisa de um telefone e assim ainda por cima lembra que não há dinheiro para mandar cantar um cego.

 

Resta saber quem está interessado em ver na televisão o que as pessoas dizem no Twitter ou no Facebook. Será uma rubrica para atrair os autores dos tweets e dos posts? Porque, se não forem esses (e mesmo esses, tenho muitas dúvidas), quem quer saber? Se eu quiser ver o que dizem no Twitter ou no Facebook, pego no meu telefone e vejo. 

 

Qual é então o valor jornalístico de mostrar na televisão o que dizem as pessoas nas redes sociais? Por que razão os jornalistas estão tão interessados em desabafos? Querem adular aquele público que não os vê (porque garanto que não vê)? Querem mostrar que são "modernos"? Dar espaço televisivo a timelines mina a credibilidade do noticiário televisivo, porque põe no mesmo saco o que não pertence ao mesmo saco. É uma prova de impotência do jornalismo. Como se o jornalismo se demitisse da sua função de contar as coisas que só o jornalismo pode contar. 

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publicado às 11:11