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Premiar o homicídio premeditado

por Carla Hilário Quevedo, em 20.02.17

Na quinta-feira passada, irritei-me com o prémio da Foto do Ano do World Press Photo, atribuída à fotografia do assassino do embaixador russo em Ancara. Começo por esclarecer que sou a favor da publicação da fotografia nos jornais, mas compreendo inteiramente a polémica. Há certamente muitas imagens que não são publicadas por muito que os terroristas queiram. Mas a publicação por si só, mesmo sendo de um homicídio premeditado (e este é um ponto muito importante) numa galeria de arte (outro ponto importante), não me causa dúvidas. Ninguém abraça causas por ver imagens de causas. Imaginem que me tornava um terrorista e era apanhado (tudo no masculino, claro). Em tribunal dizia que a responsável por me ter "tornado" um assassino era uma fotografia de um homicida jovem e magro de fato numa galeria. Aquela pose de poder, pistola numa mão e braço no ar, tinha-me levado a inscrever na célula terrorista mais próxima. O mais provável era cumprir uma parte da pena num hospital psiquiátrico. Isto para dizer que não há imagem nenhuma que nos leve a cometer um crime. O que nos leva a cometer um crime é a realidade de sermos criminosos. 

 

A publicação da fotografia não representa assim um perigo para a sociedade. Já premiar esta fotografia em particular é outro assunto completamente diferente. 

 

A pergunta é simples: o que se está a premiar? Aos que louvaram a coragem do fotojornalista da Associated Press, gostaria de lembrar que o próprio disse que num primeiro momento pensava que se tratava de uma performance. Nada mais natural. Numa galeria de arte, esperamos ver quadros, esculturas, instalações e, às vezes, performances. Acontece que agir (neste caso, fotografar) de uma certa forma pensando que se está a ver uma coisa que não é o que está a acontecer não qualifica o acto como 'corajoso'. Certamente, o fotojornalista tirou outras fotos, percebeu depois que a pistola era verdadeira, pode ter pensado que estaria em perigo de vida, etc. Sim, claro. Simplesmente, há uma inconsciência, ou entorpecimento por ter expectativas que são adequadas ao sítio onde está, que estraga, por assim dizer, ou pelo menos baralha as coisas. Terá sido coragem ou uma espécie de 'piloto automático' que o moveu? (Nada disto é um ataque ao fotojornalista. Tento apenas ir ao fundo desta questão, porque houve muita gente a falar na 'coragem' como a razão para a atribuição do prémio.)

 

O prémio é atribuído à fotografia, o que me leva de novo à questão: o que se está a premiar? Uma fotografia de um homicídio premeditado num sítio onde as pessoas vão ver obras de arte. O que aconteceu foi uma pessoa a matar outra a sangue-frio. É verdade que o mal existe em todo o lado, mas devemos premiar a imagem de um homicídio cometido como se fosse um espectáculo para ser publicitado? Por tudo isto, a minha resposta é não. 

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publicado às 09:30