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Diário outonal (4)

por Carla Hilário Quevedo, em 29.10.17

- Passados estes dias de exaltação mais que justificada acerca de um acórdão judicial sobre mais um caso sórdido de violência doméstica, fica a ideia de que, em Portugal, mal por mal antes ir parar ao hospital do que ao tribunal. Ainda sou do tempo em que era ao contrário. As pessoas normais viviam na ilusão de que um homem que desse um soco numa mulher, com ou sem bebé ao colo, receberia a devida punição (a meu ver, sempre insuficiente, mas sou uma pessoa antiga). A realidade das sentenças sobre violência doméstica que vieram agora a público ajuda a esclarecer aqueles que, do seu sofá moral, aparecem a acusar as vítimas de não terem dito nada "mais cedo". Como se fosse pouco, ficámos também a saber que há quem leia processos judiciais na diagonal e assine sem saber ao certo o que lá está escrito. Há de tudo neste mundo.

- É possível pagar e não ver o espectáculo do Ricardo Araújo Pereira? Os bilhetes estão esgotados e gostava de contribuir.

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publicado às 08:35

Diário outonal (3)

por Carla Hilário Quevedo, em 28.10.17

- Há dias ouvi miar alto perto da janela da cozinha. Era um gato preto bem tratado que parecia perdido. Convidei-o a entrar em casa e reconheci-o. Dei-lhe leite, fiz-lhe umas festinhas e peguei no telefone para sossegar a dona, uma vizinha, que não tinha dado pela falta do bicho. Enquanto esteve aqui, o gato esteve manso e andou à vontade. Não lhe peguei ao colo porque não conhecia intimamente, miou como quem fala muito, ouvi e respondi como pude. Depois veio a dona, agarrou nele com uma toalha e disse que a criatura era um demónio. Mais tarde falámos. "O que fizeste ao bicho que está um anjinho?" Só o tratei como uma pessoa.

- Uma gata da rua teve dois gatinhos pretos. Têm ambos manchas brancas na zona do peito que se alongam até ao focinho. Dizer que são "muito queridos" é pouco. Decidi, no entanto, não intervir no Grande Esquema das coisas. Não posso agora dar atenção a um bicho, mas um ano e meio depois da morte do Varandas, voltei a achar graça à ideia de ter um gatinho pequenino. Os sofás que entretanto comprei também já não são assim tão novos. Talvez em 2018.

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publicado às 08:32

Diário outonal (2)

por Carla Hilário Quevedo, em 23.10.17

- No início do seu mandato presidencial, pareceu-me a dada altura que Marcelo dava muitos beijinhos e falava demais. Não parecia ter grandes razões para agir assim, mas era assim que agia. Aos poucos o Presidente passou a beijar mais e a não falar tanto, o que me pareceu do mais elementar bom senso. Percebi que era aquele o seu estilo, que não tinha medo das pessoas, e que assumia na perfeição o seu papel de mais alto representante do Estado, junto de todos, fracos ou menos fracos. Era muito criticado pela direita por causa deste seu comportamento, não sabemos se por ciúme ou medo de o Presidente estar envolvido num romance com o governo. Em Portugal, as analogias, sabemo-lo bem, variam entre a doença e as relações amorosas, e nem a realidade entediante de serem todos homens impedem os comentadores de se referirem deste modo a uma relação institucional. Até porque se é "institucional", há certamente "casamento", "divórcio". Seja como for, aqueles que há pouco tempo o criticavam por ser demasiado cúmplice com Costa, agora levam-no em ombros por ter sido "firme". A nenhum destes comentadores passa pela cabeça que Marcelo tenha valores mais altos em mente e que se guie por algo que vai além do que poderia ser o seu interesse mais imediato. A impressão com que fico, quase sempre, é a de que não há grandes diferenças entre políticos e comentadores políticos. Todos, cada um à sua maneira, fazem política. Não há nenhum mal nisso, mas há um mal em todos pensarem e dizerem o mesmo. 

- Numa manifestação pacífica em Belém, pouco antes de Marcelo falar ao País, podia ler-se num cartaz qualquer coisa como: "Basta de afectos". Pressupõe-se que a mente brilhante que deu origem a este cartaz considere excessivo aquilo que pouco depois vimos ser essencial às pessoas que sobreviveram a um autêntico inferno. Imagino o que tenha pretendido dizer com aquilo, mas aquele cartaz ridículo é a prova de que a falta de jeito existe em todo o lado. 

- João Miranda resumiu muito bem em imagens a relação do País com Costa e Marcelo. A felicidade de Constança, que claramente não sofre de síndrome de Estocolmo, com aquele que a libertou é mais reveladora do que qualquer carta. Não, nem tudo é casamento. Às vezes, é rapto.

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publicado às 08:22

Diário outonal

por Carla Hilário Quevedo, em 22.10.17

- Apesar das opiniões praticamente unânimes - que tenha dado por isso, só André Ventura não gostou do discurso do Presidente da República -, fiquei atónita quando li que o discurso de Marcelo tinha sido "brutal". Não quero passar a minha existência diarística intermitente a criticar jornalistas, mas acho sempre tudo um bocado jovem demais, com "descodificações" e "entrelinhas" que não podem deixar de ficar aquém de qualquer expectativa. Qualquer pessoa que leia o Washington Post, o TLS e o NYRB, chega aos jornais portugueses e - com excepções muito dignas, atenção - parece que está a ler o DN jovem, com a agravante de ter sido extinto há séculos. 

- Marcelo fez um discurso magnífico que começa desta forma aparentemente simples e que é a base de toda a sua exposição: "O Presidente da República é, antes de mais, uma pessoa. Uma pessoa que reterá para sempre na sua memória imagens como as de Pedrógão." Está aqui para quem quiser ouvir outra vez. 

- Entretanto, os jornais e as televisões passaram estes dias a insistir que Costa tinha pedido desculpa ao País. Isto porque o Primeiro-ministro respondeu o seguinte ao líder parlamentar do PSD: ""Não vou fazer jogos de palavras, se quer ouvir-me pedir desculpas, eu peço desculpas". As análises e os comentários feitos ao PM foram, apesar de tudo, caridosas, e nenhuma reduziu o Primeiro-ministro àquele tipo de pessoa que adora dar boas notícias e que não sabe lidar com os problemas. É, porém, apenas isto que temos. 

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publicado às 09:17

Diário pós-estival (3)

por Carla Hilário Quevedo, em 09.10.17

- É triste que na sucessão no PSD, o partido não apresente nenhuma mulher como possível líder do partido. Continua a ser tudo demasiado masculino e aborrecido. 

- Gostei deste documentário de Michael Moore, em que vai a vários países roubar as melhores ideias para aplicar nos Estados Unidos. Muito engraçada a visita à Islândia, país onde foi eleita presidente uma mulher solteira com uma filha de sete anos. Depois da crise financeira que levou o país à ruína, mais de 70 banqueiros foram julgados, alguns condenados à prisão, e muitas mulheres estiveram na linha da frente da recuperação económica e financeira. Uma mulher, CEO de uma empresa, disse que nunca viveria nos Estados Unidos, porque é uma sociedade demasiado individualizada, em que o bem comum é desprezado. Não sei se terá razão, pois não conheço tão profundamente nem uma realidade nem a outra. É bom não confundirmos "a comunidade", formada por diferentes indivíduos, com "o colectivo". Ou seja, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Em Itália, por exemplo, vive-se bem. 

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publicado às 11:17

Diário pós-estival (2)

por Carla Hilário Quevedo, em 07.10.17

- Ruirrio é muito mau de dizer. Em Portugal, mesmo em Lisboa onde carregamos nos nossos érres, é uma dificuldade, quanto mais no estrangeiro. Por outro lado, às vezes é preciso um Calígula.

- Entretanto, cheguei à quinta temporada de uma série pouco falada de que gosto muito chamada Ray Donovan. As personagens são complicadas e fascinantes, todas, sem excepção. Dei por mim a pensar que personagem seria (coisa estranhíssima, que só pode ser resultado de testes do género feitos na parvoíce do Facebook) e cheguei à conclusão de que seria o Avi.

- Ray Donovan é o resultado da imaginação de uma mulher, Ann Biderman. Ray é uma criatura extraordinária nas qualidades e nos defeitos, de tal maneira que nos esquecemos que é um assassino. Não é cruel, é justo, não se surpreende com nada porque já viu tudo, resolve problemas, não é arbitrário nas suas decisões e até na infidelidade tem respeito. A única mulher por quem se apaixona, além da mulher com quem casou e teve filhos, é honesta e corajosa. Está tudo certo e bem pensado. Grande série!

- Há muito tempo que não via um filme de desenhos animados para crianças/adultos. Adorei Sing!

 

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publicado às 09:46

Diário pós-estival

por Carla Hilário Quevedo, em 05.10.17

- A última entrada do diário estival é de 7 de Setembro, altura na pré-campanha em que deixou de haver sequer 15 minutos para escrever um post curto de manhã. 

- Foi um Verão atribulado e entusiasmante. Os resultados do PSD em Lisboa não foram bons, mas não é o fim do mundo. Há, obviamente, explicações muito certas sobre o que se passou nesta campanha, onde vi de tudo, desde o muito mau que qualquer pessoa mais ou menos pressente, até ao muito bom, confesso que inesperado. Conheci pessoas com o coração e a cabeça no sítio certo, com as convicções bem definidas e com conhecimento. Essas pessoas estão lá e espero que ainda ouçamos falar muito delas. Nunca fiz parte de nada semelhante, não estou inscrita em nenhum partido, nem vou estar, mas, se me permitem, o líder do PSD deve surgir depois de uma reflexão acerca da ideologia, do pensamento e do discurso que se quer para o futuro. O líder seria uma consequência diria que natural e por isso teria uma legitimidade inequívoca. Provavelmente, não vai ser isto que vai acontecer, mas sou uma pessoa ponderada por natureza. 

- Passei dias muito compridos com pessoas extraordinárias. Nuno, Luís, Joaquim, Rodrigo, João Pedro, José Eduardo, Manuela, Cristina, Marta e Inês, I love you. Teresa, I love you more.

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publicado às 10:39