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Diário outonal (6)

por Carla Hilário Quevedo, em 11.11.17

- Ontem, no Irritações (o programa foi gravado na quinta-feira), irritei-me com a Web Summit, mais precisamente com o endeusamento das figuras que nos visitam para falar sobre aplicações. Para mim, uma startup é uma empresa que começa para cima, por isso, naturalmente que não fui à cimeira dos techies e dos nerds empreendedores. Atenção que me parece excelente que a Web Summit se realize em Lisboa. Acho perfeito que se reúnam aqui, que gastem aqui e que fiquem por cá a viver. Portugal precisa de investimento e precisa sobretudo de pessoas para crescer. O que me irrita na Web Summit é o estado de fascínio pueril pelos semideuses que dominam algoritmos e inventam aplicações para encontros, restaurantes, viagens ou seja o que for. Irrita-me que a imprensa e os governantes glorifiquem pessoas como o inventor do Tinder, ou um advogado "que chegou a presidente da Microsoft", pronto, ou uma senhora que inventou o booking.com (que dá imenso jeito, claro) ou outro que "lidera" o Messenger. Já para não falar do robô Sophia, que, segundo uma amiga, "não dá uma para a caixa". São de certeza "excelentes profissionais", com o quociente emocional certo e as características adequadas para trabalhar em equipa e liderar ao mesmo tempo. Mas é preciso pôr as coisas nos seus devidos lugares. Estas pessoas tiveram boas ideias e enriqueceram por causa delas, o que é excelente e não passa disso. Alguém alguma vez quis ouvir o inventor do limpa pára-brisas? E o que devemos fazer ao inventor da roda? Bem vistas as coisas, já merecia uma estátua.

- Quanto aos visitantes nervosos da Web Summit que esperam ter uma ideia milionária a partir de uma conversa com estes semideuses devo dizer que estas coisas não acontecem por osmose. 

- Imaginem que tínhamos uma Book Summit e que vinham cá os escritores que mais livros vendem em todo o mundo. Estou a imaginar uma reunião de pesadelo com Paulo Coelho, Nicholas Sparks, Dan Brown, tudo organizado pelo esperto do Alain de Botton. O que teriam essas pessoas para dizer? “Tive uma ideia, escrevi um romance e vendi cem mil exemplares”? E?

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publicado às 09:54