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Diário pós-estival (2)

por Carla Hilário Quevedo, em 07.10.17

- Ruirrio é muito mau de dizer. Em Portugal, mesmo em Lisboa onde carregamos nos nossos érres, é uma dificuldade, quanto mais no estrangeiro. Por outro lado, às vezes é preciso um Calígula.

- Entretanto, cheguei à quinta temporada de uma série pouco falada de que gosto muito chamada Ray Donovan. As personagens são complicadas e fascinantes, todas, sem excepção. Dei por mim a pensar que personagem seria (coisa estranhíssima, que só pode ser resultado de testes do género feitos na parvoíce do Facebook) e cheguei à conclusão de que seria o Avi.

- Ray Donovan é o resultado da imaginação de uma mulher, Ann Biderman. Ray é uma criatura extraordinária nas qualidades e nos defeitos, de tal maneira que nos esquecemos que é um assassino. Não é cruel, é justo, não se surpreende com nada porque já viu tudo, resolve problemas, não é arbitrário nas suas decisões e até na infidelidade tem respeito. A única mulher por quem se apaixona, além da mulher com quem casou e teve filhos, é honesta e corajosa. Está tudo certo e bem pensado. Grande série!

- Há muito tempo que não via um filme de desenhos animados para crianças/adultos. Adorei Sing!

 

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publicado às 09:46

Diário pós-estival

por Carla Hilário Quevedo, em 05.10.17

- A última entrada do diário estival é de 7 de Setembro, altura na pré-campanha em que deixou de haver sequer 15 minutos para escrever um post curto de manhã. 

- Foi um Verão atribulado e entusiasmante. Os resultados do PSD em Lisboa não foram bons, mas não é o fim do mundo. Há, obviamente, explicações muito certas sobre o que se passou nesta campanha, onde vi de tudo, desde o muito mau que qualquer pessoa mais ou menos pressente, até ao muito bom, confesso que inesperado. Conheci pessoas com o coração e a cabeça no sítio certo, com as convicções bem definidas e com conhecimento. Essas pessoas estão lá e espero que ainda ouçamos falar muito delas. Nunca fiz parte de nada semelhante, não estou inscrita em nenhum partido, nem vou estar, mas, se me permitem, o líder do PSD deve surgir depois de uma reflexão acerca da ideologia, do pensamento e do discurso que se quer para o futuro. O líder seria uma consequência diria que natural e por isso teria uma legitimidade inequívoca. Provavelmente, não vai ser isto que vai acontecer, mas sou uma pessoa ponderada por natureza. 

- Passei dias muito compridos com pessoas extraordinárias. Nuno, Luís, Joaquim, Rodrigo, João Pedro, José Eduardo, Manuela, Cristina, Marta e Inês, I love you. Teresa, I love you more.

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publicado às 10:39

Diário estival (22)

por Carla Hilário Quevedo, em 07.09.17

- Por vezes, coisas que parecem simples são muitíssimo complicadas, como, por exemplo, saber ao certo a data e a freguesia de nascimento de uma pessoa. Se há dúvidas deste género sobre alguém que nasceu no século XX, o melhor é aceitar de uma vez que há aspectos da vida das pessoas em épocas mais antigas que nunca poderemos saber. E estou a falar de factos, não de reacções ou comportamentos, sempre sujeitos à interpretação de biógrafos e historiadores.

- Gostei da praxe solidária na Golegã. Excelente ideia! 

- Sinestesia é diferente de cinestesia. A primeira pode ser divertida, e até há quem veja palavras às cores. Há vários anos, treinei um pouco a segunda nas aulas de dança. O objectivo era desenvolver a percepção do espaço (ir de um ponto ao outro da sala com os olhos fechados, por exemplo) e a coordenação dos movimentos. Mas nos dias em que não há tempo para nada, só gostava de ter poderes de telecinésia

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publicado às 08:28

Diário estival (21)

por Carla Hilário Quevedo, em 03.09.17

- Clara Ferreira Alves foi ontem a única pessoa no Eixo do Mal a ter uma posição razoável e sensata sobre os blocos de actividades cor-de-rosa e azuis. Por causa da sua opinião moderada, foi atacada com agressividade por dois dos seus colegas de programa, ambos homens. Isto acaba por ser divertido. Eram aqueles que estavam "a defender" a causa feminista que mais se atiravam a uma mulher. CFA lembrou o óbvio: homens e mulheres não são iguais e ainda bem que não são. O problema está em pensar que essas diferenças são de capacidade ou de inteligência ou de potencial. Como não acredito nos poderes mágicos dos livros - se tivessem poderes, líamos todos o mesmo e não havia interpretação, nem opinião - e não desculpo comportamentos "por causa da educação que x ou y teve", tenho muita dificuldade em dar importância a este assunto. Todas as pessoas, sem excepção, têm o dever de sobreviver à sua infância, à sua família, sobretudo aos seus pais. Mas uma coisa ficou clara do programa de ontem: para uma certa esquerda, as causas abstractas são mais importantes do que as pessoas, que, coitadinhas, não sabem nem percebem e têm de ser devidamente orientadas e instruídas até repetirem as palavras certas, as ideias certas. Tudo aos berros, claro.

- Adoro que Madonna venha para Lisboa viver, se é mesmo verdade que tenciona mudar para cá. Parece é que não comprou a tal quinta em Sintra, que mereceu várias notícias que mais pareciam anúncios da Remax. 

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publicado às 09:33

Diário estival (20)

por Carla Hilário Quevedo, em 02.09.17

- A notícia de que o Papa Francisco a dada altura da sua vida procurou respostas a algumas perguntas no consultório do psicanalista fez-me pensar que além do respeito e da admiração que tenho pelo Papa, sinto também amor. Para os argentinos, como de resto para os franceses, a psicanálise não é um drama, nem um sinal de fragilidade. É uma oportunidade de fazer perguntas a si próprio, de dizer a verdade. Nada disto é possível sozinho.

- Ainda sobre Game of Thrones, a figura de Cersei Lannister é a mais fascinante para mim. A Mãe dos Dragões tem qualidades importantes, mas está convencida de que não é uma facínora, como foi o pai. A minha preferência vai para quem se conhece. Cersei é movida pelos seus interesses, pelo nome da família, pelo legado. Carrega um ódio motivador contra aqueles que causaram a morte dos filhos, directa ou indirectamente. Por tudo isto, parece-me absurda a ideia de que possa estar a mentir sobre a gravidez. Seria uma mentira de revista de cabeleireiro. Cersei mentiu a Daenerys sobre enviar ou não tropas para o Norte. Isso, sim, é digno de Cersei. Por fim, um pormenor. Sou fã do Night King e vibrei com a cena avassaladora da destruição da Muralha. Mas do que gostei mesmo foi das asas esburacadas do dragão não-morto. Parece que vamos ter de esperar até 2019 para vermos o final da série televisiva mais espectacular de sempre. Alguns dizem que se situa na Idade Média e tem influências de Tolkien misturadas com a lenda do Rei Artur. Para mim, é Homero e Tácito com Tucídides e dragões. 

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Cartoon de Farley Katz para The New Yorker.

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publicado às 08:06

Diário estival (19)

por Carla Hilário Quevedo, em 01.09.17

- Tive de me ausentar por uns dias e fiquei com acesso limitado à internet, o que me impediu de escrever aqui. Não ter wi-fi e os dados móveis acabarem de repente é uma grande seca! Deixemo-nos de coisas.

- Nesta ausência, fiz descobertas muito interessantes numa escavação arqueológica na garagem de uma casa de família. São documentos soltos, fotografias de pessoas cuja existência desconhecia e palavras escritas de quem conheci pouco. Foram dias de inesperada emoção. 

- Talvez a maneira certa de conseguimos que alguém de quem gostamos fale sobre o que queremos saber (e que, por alguma razão, não nos querem dizer) passe primeiro por revelarmos uma novidade. Depois é pedir factos e mais factos. Quando, onde, etc. As razões hão-de aparecer.

- Vi o último episódio da sétima temporada de Game of Thrones com os meus primos, três deles muito fãs da série e dois que nunca a tinham visto. Os três primos e eu estivemos no estado de transe e excitação que é próprio do fã taradinho da série. A novidade foi a adesão gradual dos dois que nunca tinham visto. No fim, um já estava preocupado com algumas personagens e o outro não tirou os olhos do ecrã. Juro que não houve proselitismo.  

- Já li várias críticas a este último episódio, mas julgo que a maioria revela expectativas caprichosas. (Atenção que a partir de agora, contém spoilers.) Até que ponto poderemos ser surpreendidos? A grande força deste episódio esteve, quanto a mim, em detalhes, como o momento em que o sinistro Qhorin pega no braço decepado, mas que ainda mexe da criatura trazida do terríório a Norte da Muralha. Aquela curiosidade científica às vezes confunde-se com imoralidade. E é certo que Qhorin fabricou um monstro. O Dr. Frankenstein quer ver o que é aquilo, quer tentar perceber como funciona, de que é feito, estudar a coisa. É um momento extraordinário. A cena de sexo entre tia e sobrinho foi muito criticada, de novo a meu ver sem fundamento. A experiência de Daenerys é vasta. Há que não esquecer que esta mulher foi casada com um bárbaro brutamontes que se apaixonou profundamente quando ela se virou. O pobre Jon Snow é um coelhinho assustado e o resultado é uma espécie de primeira aula no Kindergarten. A cena é perfeita. (Tenho mais duas observações para fazer sobre este último episódio. Ficam para amanhã.) 

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publicado às 09:32

Diário estival (18)

por Carla Hilário Quevedo, em 28.08.17

- Corrijo de novo, baseada no que disse o Ricardo Araújo Pereira no Governo Sombra: os blocos de actividades foram mesmo retirados do mercado, após a recomendação da CIG. Não tenho tempo para comentar com pormenor esta entrevista de Teresa Fragoso, mas educar não consiste em impedir que as pessoas pensem de uma determinada forma. E não sejamos inocentes ao ponto de pensar que as pessoas são um produto daquilo a que foram expostas na infância. Não parece, mas é uma ideia optimista. Educar é explicar e repetir; às vezes esperar que passe um interesse que parece pouco saudável e, em geral, é preciso ter paciência. Proibir impede a explicação. Proteger nem sempre é positivo. E, acima de tudo, nunca se escolhe um livro por causa da capa.

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publicado às 08:10

Diário estival (17)

por Carla Hilário Quevedo, em 26.08.17

- Gostei de ler este post de uma pessoa que trabalha na Porto Editora, sobre a polémica dos livros de actividades para rapazes e raparigas. Aproveito para corrigir o que escrevi: a comercialização dos livros foi suspensa (ou seja, não houve livros retirados do mercado).

- Há "palavras pesadas" a circular com uma insistência nunca vista. Há imensa gente nas redes sociais - a viver literalmente no Twitter e no Facebook - que está completamente viciada na indignação e que se considera a mais digna representante dos injustiçados e oprimidos. Só tenho a dizer que se fosse uma causa, não quereria ser defendida por estas pessoas. Não lêem e por isso não sabem ler, não têm conhecimento - por isso se indignam com tudo -, na maior parte das vezes são ignorantes profundas e em muitos casos não passam de analfabetas. Jogam com um sentimento de perda ou de injustiça e manipulam sobre a emoção. O resultado disto é termos problemas graves (racismo, sexismo), com consequências sérias na vida das pessoas, reduzidos ao ridículo. Se tudo é um problema, então nada é importante.

- Divertido este cartoon de Julia Suits.

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publicado às 08:08

Diário estival (16)

por Carla Hilário Quevedo, em 25.08.17

- Confesso que a polémica a respeito dos livros de actividades da Porto Editora, agora retirados de circulação, não me atrai tanto quanto a do memo armado em descoberta científica de James Damore, a vítima despedida da Google por ter defendido a "tese" de que é a biologia que afasta as raparigas da engenharia informática. Não era preciso ler mais nada daquele manifesto cobarde - sim, o medinho é real - mas houve muita gente a ir naquela conversa. Vêem um gráfico e acreditam logo no poder dos astros.

- Sobre os livros, não me choca o cor-de-rosa nas meninas e o azul nos rapazes, e o facto de o exercício do labirinto ser mais fácil para as raparigas é só tolo. Como bem lembrou o Bruno Vieira Amaral, "se não fosse Ariadne, Teseu teria sido comido pelo Minotauro". Acho esquisito haver livros de actividades diferentes para meninos e meninas, mas a Porto Editora é uma empresa privada (que eu saiba) que toma as suas decisões baseadas naquilo que julga serem as exigências do mercado. As pessoas deixam de comprar os livros e acabam as edições. Esta é a maneira certa, e de resto profunda, de resolver o assunto. Por isso, não posso concordar de maneira nenhuma com a intervenção do Governo nesta questão. É um péssimo antecedente.

- Gostei de ler este artigo de Helena Garrido. 

- A minha experiência de brincadeira não obedeceu a nenhum critério. Brinquei com bonecas, carros e carrinhos e adorava legos. Um dos meus grandes amigos de infância brincava com bonecas comigo e com a irmã dele. Nunca nenhum adulto nos impediu de fazermos o que nos apetecia (não éramos delinquentes; só crianças). Só me lembro de a minha avó me dizer que era feio as meninas assobiarem. Amei-a profundamente e nunca lhe obedeci.

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publicado às 08:28

Diário estival (15)

por Carla Hilário Quevedo, em 24.08.17

- Há personagens em Ray Donovan que me despertam compaixão. É uma grande série e pouco falada. 

- É triste assistir ao desaparecimento de títulos na imprensa a que nos habituámos desde sempre, mas a verdade pura e dura é que a imprensa escrita e em formato de papel tem cavado a sua própria sepultura aos poucos. Com excepções de sucesso, e havendo obviamente bons profissionais em todo o lado, as decisões tomadas não têm sido eficazes para sustentar a existência de jornais e revistas em papel. Primeiro houve quem tivesse a brilhante ideia de disponibilizar conteúdos na net de graça. Ora, por que diabo hei-de eu comprar o que me oferecem de graça? Também a qualidade caiu a pique e ninguém está interessado em comprar um jornal ou uma revista que insiste em temas idiotas que acabámos de ver no Facebook ou que analisa crises nacionais e internacionais a partir de timelines. É uma espécie de elitismo em pobre. Peço desculpa pela sinceridade, mas só me surpreende que tenham durado tanto.

- Deve haver muita gente no meio deslumbrada com números de visualizações e viciada em likes. Porém, na maior parte dos casos, trata-se de uma ilusão de interesse da parte dos "leitores". É grátis pôr um like e não significa nada. Se dedicar o meu tempo ao Facebook, com posts e comentários, terei muitos likes. Ganha popularidade quem investe mais. Achar que há consequências financeiras desta atenção é uma ilusão. Na maior parte dos casos, não há.

- Muitos utilizadores das redes sociais e "leitores" estão viciados em caixas de comentários. Ainda não percebi bem o que querem estas pessoas e de que doença exactamente padecem. Recomendo pragmatismo. Compram jornais? Assinam as edições online? Aposto que não. Até porque passam o dia a trocar insultos, vá-se lá saber sobre o quê. Gostei de ler este artigo de António Guerreiro sobre as caixas de comentários nas edições dos jornais online.

- Concluindo por agora, pois obviamente há muito mais a dizer, a imprensa escrita cometeu erros graves e arriscaria dizer que muito por vaidade. Quis competir pela atenção com meios "gratuitos", como blogues e redes sociais, e perdeu o foco do negócio. O que esperavam que acontecesse? 

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publicado às 10:04