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Diário invernoso (3)

por Carla Hilário Quevedo, em 07.01.18

- Este ano decidi não revelar as minhas resoluções a ninguém. Não sou muito de falar sobre o que vou fazer (mesmo a lista do ano passado dizia tão pouco para o que era), mas ao longo do tempo tenho adquirido uma espécie de superstição relativamente à partilha (online ou ao vivo). Partilhar pode trazer felicidade a quem se sente na obrigação de pertencer a um grupo. Não há nada de errado nisto, mas também não há nada de errado em simplesmente viver sem estar sempre a relatar o que se faz (um hábito que se tornou sinistro dos dias de hoje). A ideia de não haver vida porque não há registos dessa vida (o caso clássico da pessoa que "não está nas redes sociais") faz-me pensar em várias coisas que me interessam e que, por isso mesmo, não quero partilhar. 

- Durante o Verão, a PSP costuma alertar as pessoas para não publicarem fotos de férias para depois não terem a surpresa desagradável de regressar a uma casa que foi assaltada, mas mesmo assim continua a haver demasiada informação a circular nas redes sociais que é dada pelos próprios. 

- Não fico aborrecida quando não acertam numa descrição sobre mim. Fico aliviada porque percebo que quem me descreveu não sabe nem percebeu nada. Quem sabe o que é ser livre percebe o que quero dizer com isto.

- As consequências desta imensa vontade de partilhar, ser visto, ser amado, ser falado, até de ser descrito por desconhecidos com a maior precisão e justiça possíveis estão bem expressas na última temporada de Black Mirror. Há dois episódios em que está prevista a possiblidade de salvação, dirigindo uma nave espacial num jogo em direcção a um wormhole no exacto momento da actualização ou arriscando a fuga de um sistema de pesadelo de Tinder, que interpreta precipitações como erros merecedores de castigo, impedindo a união de casais apaixonados. Em ambos os casos, fugir é a solução. Fugir da tecnologia, escapar da cabeça dos outros, dos sistemas dos outros.

- O primeiro e o quarto episódios são optimistas. Mas o melhor da temporada é o terceiro. Sufocante, delirante e com um final imprevisível, mas acertado. Quando houver um mecanismo capaz de extrair as nossas memórias, a humanidade saberá que os animais não são assim tão diferentes de nós.

 

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publicado às 11:25

Diário invernoso (2)

por Carla Hilário Quevedo, em 29.12.17

- O Guardian informa-me desta estranhíssima coincidência de Donald Trump ser do signo Cão. A astrologia convencional dá-me alegrias porque me dá a sensação de partilhar alguma coisa com Jorge Luis Borges e Sophia Loren, mas quando é preciso ler as previsões para o novo ano, tenho mais curiosidade pela astrologia chinesa ou pela numerologia. Chamem-me snobe. Mas agora estou um pouco perdida com esta informação. Donald Trump, um nobre Cão como Winston Churchill, Elvis Presley, Madre Teresa de Calcutá, Madonna e Michael Jackson? Não quero este homem no meu grupo. Feliz 2018 a todos!

 

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Escultura à porta de um centro comercial em Taiyuan, na província de Shanxi.

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publicado às 08:13

Diário invernoso (1)

por Carla Hilário Quevedo, em 23.12.17

- Chegou aquela altura do ano em que uma encomenda não chega e amanhã é 24 de Dezembro. Há uns anos pensaria: "Felizmente, era um presente para mim". Hoje em dia, penso: "E foi logo o meu que ficou para trás!" É curioso como as pessoas insistem em elogiar a juventude e fazem segredo das maravilhas de ser adulto, como a liberdade de não mentir. Nunca percebi regressos à infância (excepto em circunstâncias pontuais), muito menos saudades da adolescência. Que nostalgia enjoativa. Ainda vou descobrir que ter 75 anos é o melhor que pode acontecer a uma pessoa. Feliz Natal a todos! 

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Cartoon de Christopher Weyant para a New Yorker. 

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publicado às 12:33

Diário outonal (9)

por Carla Hilário Quevedo, em 03.12.17

- Blogger de sempre, emigrado no Twitter, Ivan Nunes partilhou esta maravilha na timeline, através da magia do retweet, provando deste modo que a internet não é só dos trolls em geral e em particular. Há muito espaço para nerds criativos e originais. Muito bem!

 

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publicado às 09:07

Diário outonal (8)

por Carla Hilário Quevedo, em 25.11.17

- Vai fazer 20 anos que vi um anúncio no Público em que uma empresa não identificada pedia um assistente editorial. Enviei uma carta manuscrita a acompanhar o currículo. "Mas isto é coisa que se apresente, uma cartinha assim escrita à mão?', reclamou, sorridente, o Pedro Rolo Duarte. Trabalhei no DNa durante uns meses, e o que me impressionou no Pedro foi o seu profissionalismo. Além de criativo, era um excelente editor, uma profissão que faz tanta falta nos jornais de hoje. Sabia do seu ofício, que incluía perceber o potencial das pessoas. A dada altura, depois de várias traduções e revisões, o Pedro perguntou-me se tinha "alguma coisa escrita minha" e mostrei-lhe dois contos curtos. Publicou ambos no DNa. Acho que era generoso com as pessoas de quem gostava. Ver os dois, enfim, "contos" (ambos para lá de maus) impressos no papel deu-me a perfeita noção dos meus limites. Tenho a agradecer-lhe várias coisas, entre as quais esta. Obrigada, Pedro. 

- Ontem foi um dia muito triste. A noite trouxe a graça desta frase do Miguel: "E agora? Com quem é que eu não vou almoçar todas as quartas-feiras?" Ouviu-se uma gargalhada do céu.

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publicado às 10:45

Diário outonal (7)

por Carla Hilário Quevedo, em 17.11.17

- Ainda a propósito da Web Summit, ficámos a saber que o Panteão tem estado muito animado. Quem diria... Gostava de saber se o génio geek que inventou este teste definitivo esteve presente no evento em Lisboa. Ora aí está uma criatura a quem gostaria de fazer umas perguntas (a terminar em "duh!").

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- Quanto ao deslumbrante quadro de Leonardo Da Vinci, arrematado por uns meros 400 milhões de dólares (os restantes 50 milhões e trocos correspondem a variadas taxas), Salvator Mundi, só lamento não ter a quantia disponível para poder fazer o telefonema da licitação. É tão injusto.

- Li duas boas piadas sobre a venda deste quadro, uma no Inimigo Público e outra no The Onion. No Guardian foi publicado um artigo sério sobre como se chegou a um valor tão elevado. É pôr um grupinho de bilionários a competir. Os homens são mais tansos, isso é certo, mas divertem-se mais.

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publicado às 08:08

Diário outonal (6)

por Carla Hilário Quevedo, em 11.11.17

- Ontem, no Irritações (o programa foi gravado na quinta-feira), irritei-me com a Web Summit, mais precisamente com o endeusamento das figuras que nos visitam para falar sobre aplicações. Para mim, uma startup é uma empresa que começa para cima, por isso, naturalmente que não fui à cimeira dos techies e dos nerds empreendedores. Atenção que me parece excelente que a Web Summit se realize em Lisboa. Acho perfeito que se reúnam aqui, que gastem aqui e que fiquem por cá a viver. Portugal precisa de investimento e precisa sobretudo de pessoas para crescer. O que me irrita na Web Summit é o estado de fascínio pueril pelos semideuses que dominam algoritmos e inventam aplicações para encontros, restaurantes, viagens ou seja o que for. Irrita-me que a imprensa e os governantes glorifiquem pessoas como o inventor do Tinder, ou um advogado "que chegou a presidente da Microsoft", pronto, ou uma senhora que inventou o booking.com (que dá imenso jeito, claro) ou outro que "lidera" o Messenger. Já para não falar do robô Sophia, que, segundo uma amiga, "não dá uma para a caixa". São de certeza "excelentes profissionais", com o quociente emocional certo e as características adequadas para trabalhar em equipa e liderar ao mesmo tempo. Mas é preciso pôr as coisas nos seus devidos lugares. Estas pessoas tiveram boas ideias e enriqueceram por causa delas, o que é excelente e não passa disso. Alguém alguma vez quis ouvir o inventor do limpa pára-brisas? E o que devemos fazer ao inventor da roda? Bem vistas as coisas, já merecia uma estátua.

- Quanto aos visitantes nervosos da Web Summit que esperam ter uma ideia milionária a partir de uma conversa com estes semideuses devo dizer que estas coisas não acontecem por osmose. 

- Imaginem que tínhamos uma Book Summit e que vinham cá os escritores que mais livros vendem em todo o mundo. Estou a imaginar uma reunião de pesadelo com Paulo Coelho, Nicholas Sparks, Dan Brown, tudo organizado pelo esperto do Alain de Botton. O que teriam essas pessoas para dizer? “Tive uma ideia, escrevi um romance e vendi cem mil exemplares”? E?

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publicado às 09:54

Diário outonal (5)

por Carla Hilário Quevedo, em 09.11.17

- É a brilhantíssima Mindhunter, série tão bem escrita e interpretada, a excelente segunda temporada de Stranger Things (sétimo episódio incluído), Alias Grace, de que gostei por ser curta e por não demonizar a religião, e um cartoon de Maddie Dai. 

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publicado às 07:53

Diário outonal (4)

por Carla Hilário Quevedo, em 29.10.17

- Passados estes dias de exaltação mais que justificada acerca de um acórdão judicial sobre mais um caso sórdido de violência doméstica, fica a ideia de que, em Portugal, mal por mal antes ir parar ao hospital do que ao tribunal. Ainda sou do tempo em que era ao contrário. As pessoas normais viviam na ilusão de que um homem que desse um soco numa mulher, com ou sem bebé ao colo, receberia a devida punição (a meu ver, sempre insuficiente, mas sou uma pessoa antiga). A realidade das sentenças sobre violência doméstica que vieram agora a público ajuda a esclarecer aqueles que, do seu sofá moral, aparecem a acusar as vítimas de não terem dito nada "mais cedo". Como se fosse pouco, ficámos também a saber que há quem leia processos judiciais na diagonal e assine sem saber ao certo o que lá está escrito. Há de tudo neste mundo.

- É possível pagar e não ver o espectáculo do Ricardo Araújo Pereira? Os bilhetes estão esgotados e gostava de contribuir.

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publicado às 08:35

Diário outonal (3)

por Carla Hilário Quevedo, em 28.10.17

- Há dias ouvi miar alto perto da janela da cozinha. Era um gato preto bem tratado que parecia perdido. Convidei-o a entrar em casa e reconheci-o. Dei-lhe leite, fiz-lhe umas festinhas e peguei no telefone para sossegar a dona, uma vizinha, que não tinha dado pela falta do bicho. Enquanto esteve aqui, o gato esteve manso e andou à vontade. Não lhe peguei ao colo porque não conhecia intimamente, miou como quem fala muito, ouvi e respondi como pude. Depois veio a dona, agarrou nele com uma toalha e disse que a criatura era um demónio. Mais tarde falámos. "O que fizeste ao bicho que está um anjinho?" Só o tratei como uma pessoa.

- Uma gata da rua teve dois gatinhos pretos. Têm ambos manchas brancas na zona do peito que se alongam até ao focinho. Dizer que são "muito queridos" é pouco. Decidi, no entanto, não intervir no Grande Esquema das coisas. Não posso agora dar atenção a um bicho, mas um ano e meio depois da morte do Varandas, voltei a achar graça à ideia de ter um gatinho pequenino. Os sofás que entretanto comprei também já não são assim tão novos. Talvez em 2018.

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publicado às 08:32