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Diário estival (12)

por Carla Hilário Quevedo, em 21.08.17

- Bom obituário de Jerry Lewis, que foi mais amado em França do que nos Estados Unidos.

- A propósito de um tweet de Obama há dias, na sequência dos acontecimentos em Charlottesville, citando Nelson Mandela, lembrei-me de uma canção de South Pacific, de Rodgers e Hammerstein, que já tinha passado por aqui há uns anos. Entretanto descarregaram este vídeo no YouTube, com Oscar Hammerstein a apresentar o tema. Há quem acredite que nascemos a odiar quem é diferente de nós. É uma ideia que não dá hipótese a ninguém de nada.

 

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publicado às 09:47

Diário estival (11)

por Carla Hilário Quevedo, em 20.08.17

- O melhor conselho de todos os tempos não nos chega de um passado longínquo, não foi Séneca que inventou, nem Emerson que recuperou nem existe, creio eu, em nenhum livro de auto-ajuda. O melhor conselho apareceu na internet. Já existia na época áurea dos blogues, sobretudo por causa das caixas de comentários, e continua mais vivo que nunca nas redes sociais. O conselho é "don't feed the trolls". Nunca o fiz, mas apenas por uma questão de temperamento. Não penso que tenha mérito neste caso.

- Também gosto muito da velhinha advertência no portão do jardim: "cuidado com o cão". É prima de "don't feed the trolls". Edward Steed, o cartoonista mais punk da New Yorker, uniu os dois apotegmas num desenho. 

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publicado às 11:35

Diário estival (10)

por Carla Hilário Quevedo, em 19.08.17

- A Nike bem tenta vender as suas sapatilhas para ioga, barra de chão ou pilates, mas não me convencem. Os comentários não são nada favoráveis. Os australianos percebem melhor do assunto: este modelo é comprovadamente excelente e este é lindo de morrer. Interessante a nota biográfica do fundador, Jacob Bloch.

- Gostei muito deste vídeo da New Yorker com a despedida de Diana Vishneva do American Ballet Theatre. Mais do que das performances espectaculares, gosto de ver os vídeos dos treinos, onde percebemos o processo, as tentativas e os erros. É neste processo que existe novidade e frescura. A conclusão, o dia de estreia, aquele momento em que tudo sai bem ou mal à frente de toda a gente, nada mais é do que uma coisa experimentada mil vezes. 

 

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publicado às 11:14

Diário estival (9)

por Carla Hilário Quevedo, em 18.08.17

Pauline Hanson, líder do partido de extrema-direita australiano, usou uma burka no parlamento para defender a proibição desta vestimenta no país. Estou completamente de acordo com a intenção e com a forma de combate. Pensava que experimentar o incómodo de conviver com uma pessoa que não se dá a ver falaria mais alto. Mas a reacção foi uma espécie de reprimenda do procurador-geral George Brandis: "To ridicule that community, to drive it into a corner, to mock its religious garments, is an appalling thing to do and I would ask you reflect on what you have done". Trata-se de um puxão de orelhas ignorante, porque a burka não é um símbolo religioso, mas uma vestimenta tribal, usada e tolerada por facções muçulmanas extremadas e radicalizadas. Tolerada também por ignorantes e indiferentes em geral.

- Descendentes directos de Robert E. Lee, Jefferson Davis e Stonewall Jackson vieram a público apoiar a retirada das estátuas dos generais confederados. Numa primeira leitura desta controvérsia tão interessante, parece pacífico que devam passar a estar em museus. Não se trata de negar a história, mas basta pensarmos na famosa queda da estátua de Saddam para percebermos que os símbolos têm importância. Pormenor relevante: por enquanto, não há uma guerra civil nos Estados Unidos. Um modo de a evitar pode ser fazer com que a lei seja cumprida, reprimindo a violência da multidão: "The issue is whether the decision to remove municipal property is done with due process and certainly not via the actions of a violent mob." Gostei de ler este artigo

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publicado às 10:42

Diário estival (8)

por Carla Hilário Quevedo, em 17.08.17

- Acho saudável que nesta conversa interminável sobre o memo do funcionário astrólogo despedido da Google (lembro que a "tese" é a de que as mulheres têm uma disposição biológica para a engenharia informática como os nativos de Carneiro têm para a moderação) me tenham irritado sobretudo os artigos escritos por homens "em defesa" das mulheres, já se sabe que biologicamente indefesas e necessitadas de protecção constante, como se, mais uma vez, lhes coubesse ditar regras numa conversa que não lhes pertence. Já viam este vídeo no mais absoluto silêncio. Adivinhem quem é o drone.

 

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publicado às 08:02

Diário estival (7)

por Carla Hilário Quevedo, em 16.08.17

- Denial é um bom filme sobre o negacionismo baseado numa história real. A Professora Deborah Esther Lipstadt, que foi acusada de difamação pelo revisionista David Irving, tem uma história de vida mais interessante do que aquilo que nos é apresentado no filme. Julgo que é propositado, porque os advogados de defesa não querem que fale, para que tudo se concentre na exposição da mentira de Irving. Fiquei a saber várias coisas que não sabia a respeito do sistema jurídico inglês, tais como que o ónus da prova recai (será "recair" o verbo?) sobre o acusado. Ou seja, quem é acusado é que tem de se defender. Há um momento alto no filme, quando o juiz pede para a defesa esclarecer a relação que fez entre o antisemitismo de Irving e a sua defesa do negacionismo. A pergunta é delicada e toca numa questão importante: se Irving acredita naquilo que está a dizer, então trata-se "apenas" de estar enganado e não de mentir deliberadamente. Felizmente, a defesa argumenta com convicção. Irving já tinha sido condenado na Áustria em 1989 por causa de um discurso revisionista e Lipstadt, por defender a liberdade de expressão, tinha sido na altura contra a pena de prisão de três anos. Fez o que tinha a fazer: desmascarou uma fraude e não deixou passar uma mentira abjecta. 

- Por falar em nazis, o que se passa nos Estados Unidos é mau demais. É caso para fumar um cigarro.

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publicado às 09:32

Diário estival (6)

por Carla Hilário Quevedo, em 15.08.17

- Numa entrevista a António Araújo, a dada altura é feita esta pergunta a propósito de uma resposta em que é invocada uma certa atitude de ligeireza da imprensa, semelhante à dos blogues: "Aliás, vemos um historiador como Rui Ramos a escrever verdadeiros panfletos. É correta a sua atitude?". Há uma grande animosidade relativamente a Rui Ramos da parte de sectores mais à esquerda. A irritação na pergunta é evidente. Há ainda hoje quem acredite que os intelectuais de direita não podem existir. A ideia é, naturalmente, de uma esquerda que se reclama dona da cultura, da educação, da literatura e da história. Mas a pergunta fez-me pensar na derrocada da imprensa em Portugal, com vendas que assustam qualquer pessoa que gosta de jornais, que os lê e que entende serem vitais numa sociedade democrática. Os jornais em Portugal há muito que deixaram de ser dirigidos por intelectuais. A grande força do Observador, a sua diferença, é precisamente ter um intelectual como Rui Ramos na direcção. A minha crítica ao Observador é a crítica que faço a todos os jornais: faltam mulheres (nos conselhos de administração, nas direcções, na opinião). Só com homens, e ainda por cima todos tão parecidos, com poucas excepções, ninguém vai a lado nenhum. (E eu agora não posso.)

- A sétima temporada de Game of Thrones é puro prazer. É uma festa de ἀναγνώρισις em todos os episódios e em tantos momentos nos episódios. Ontem simpatizei com Samwell Tarly: "I'm tired of reading about the achievements of better men." O cansaço leva a que actue. 

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publicado às 12:01

Diário estival (5)

por Carla Hilário Quevedo, em 14.08.17

- Herman José é um génio e a sua conta de instagram, com as instastories, fotografias e vídeos, só mostra aquilo que sempre soubemos. O verdadeiro génio não deixa de o ser com o passar do tempo. E pelo que podemos ver diariamente, está melhor que nunca.

- Cindy Sherman tem uma conta de instagram em que também utiliza o grotesco. Não gosto. Falta verdade à caricatura que não tem humor. 

- Dei por mim a gostar de um polo, o que é estranho porque nunca gostei deste tipo de blusa. Deve ser da cor argentina.

- Tenho ideia de há tempos ter eleito Mano a Mano como o meu tango preferido, mas este ano disse-o em voz alta, sem hesitações. Houve anos de dúvida: Naranjo en Flor, Cambalache, Mano a Mano. Depois o Carlos descobriu o extraordinário Ninguna. Para mim, é Mano a Mano, de 1923. Música de Carlos Gardel e José Razzano e letra de Celedonio Flores

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publicado às 09:46

Diário estival (4)

por Carla Hilário Quevedo, em 13.08.17

- É engraçado, mas na luta terrível entre o funcionário que "diz o que pensa" - o caso de Damore - e que mostra ao mundo "a verdade" - os casos de Assange ou Snowden - e as grandes corporações, entidades poderosas e, para todos os efeitos, anónimas, fico do lado do "opressor capitalista" e ganho um desprezo à "vítima rebelde" à medida que o tempo vai passando. Também tenho o meu lado reaccionário. Damore é um triste injustiçado por ter escrito em dez páginas (com tanto que há para dizer em dez páginas) que a biologia determinava a falta de interesse das mulheres pela engenharia informática. É uma conversa que dura há séculos, com variantes. Em 2017, a única resposta possível é esta, com um agradecimento a este candidato à autarquia de Montemor-o-Novo pela sua eloquência.

 

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publicado às 10:40

Diário estival (3)

por Carla Hilário Quevedo, em 12.08.17

- James Damore, o funcionário da Google que foi despedido por ter escrito um memo de dez páginas sobre "diferenças biológicas" entre homens e mulheres, as quais, segundo Damore, justificam a ausência de mulheres em empresas como a Google, escreveu uma carta de queixinhas no Wall Street Journal. Trata-se claramente de uma pessoa que se julga no direito a dar a sua opinião - uma opinião errada, que ajuda a perpetuar preconceitos que, by the way, são péssimos para os negócios - num contexto de trabalho com regras específicas. Há muita gente hoje em dia que acha que as empresas são democracias. Não sei como seria há umas décadas, mas aposto que este é um problema novo. Confundem tudo, porque até têm uma conta de Facebook onde dizem toda a espécie de disparates. O problema não é a liberdade de expressão. O problema é haver cada vez mais pessoas que pensam que o mundo lhes deve atenção, respeito, paciência, sem terem de fazer nada para o merecer. Viva a Google!

- Gosto desta t-shirt e não vou comprar, porque o S me fica grande.

- Gertrude Mokotoff, de 98 anos, e Alvin Mann, de 94, conheceram-se no ginásio há oito anos. Casaram há dias. “People always ask what it is that keeps us young,” Mr. Mann said. “Of course, one part of it is medical science, but the bigger part is that we live worry-free lives; we do not let anything we cannot control bother us in the least.” 

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publicado às 09:56