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Diário outonal

por Carla Hilário Quevedo, em 22.10.17

- Apesar das opiniões praticamente unânimes - que tenha dado por isso, só André Ventura não gostou do discurso do Presidente da República -, fiquei atónita quando li que o discurso de Marcelo tinha sido "brutal". Não quero passar a minha existência diarística intermitente a criticar jornalistas, mas acho sempre tudo um bocado jovem demais, com "descodificações" e "entrelinhas" que não podem deixar de ficar aquém de qualquer expectativa. Qualquer pessoa que leia o Washington Post, o TLS e o NYRB, chega aos jornais portugueses e - com excepções muito dignas, atenção - parece que está a ler o DN jovem, com a agravante de ter sido extinto há séculos. 

- Marcelo fez um discurso magnífico que começa desta forma aparentemente simples e que é a base de toda a sua exposição: "O Presidente da República é, antes de mais, uma pessoa. Uma pessoa que reterá para sempre na sua memória imagens como as de Pedrógão." Está aqui para quem quiser ouvir outra vez. 

- Entretanto, os jornais e as televisões passaram estes dias a insistir que Costa tinha pedido desculpa ao País. Isto porque o Primeiro-ministro respondeu o seguinte ao líder parlamentar do PSD: ""Não vou fazer jogos de palavras, se quer ouvir-me pedir desculpas, eu peço desculpas". As análises e os comentários feitos ao PM foram, apesar de tudo, caridosas, e nenhuma reduziu o Primeiro-ministro àquele tipo de pessoa que adora dar boas notícias e que não sabe lidar com os problemas. É, porém, apenas isto que temos. 

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publicado às 09:17

Diário pós-estival (3)

por Carla Hilário Quevedo, em 09.10.17

- É triste que na sucessão no PSD, o partido não apresente nenhuma mulher como possível líder do partido. Continua a ser tudo demasiado masculino e aborrecido. 

- Gostei deste documentário de Michael Moore, em que vai a vários países roubar as melhores ideias para aplicar nos Estados Unidos. Muito engraçada a visita à Islândia, país onde foi eleita presidente uma mulher solteira com uma filha de sete anos. Depois da crise financeira que levou o país à ruína, mais de 70 banqueiros foram julgados, alguns condenados à prisão, e muitas mulheres estiveram na linha da frente da recuperação económica e financeira. Uma mulher, CEO de uma empresa, disse que nunca viveria nos Estados Unidos, porque é uma sociedade demasiado individualizada, em que o bem comum é desprezado. Não sei se terá razão, pois não conheço tão profundamente nem uma realidade nem a outra. É bom não confundirmos "a comunidade", formada por diferentes indivíduos, com "o colectivo". Ou seja, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Em Itália, por exemplo, vive-se bem. 

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publicado às 11:17

Diário pós-estival (2)

por Carla Hilário Quevedo, em 07.10.17

- Ruirrio é muito mau de dizer. Em Portugal, mesmo em Lisboa onde carregamos nos nossos érres, é uma dificuldade, quanto mais no estrangeiro. Por outro lado, às vezes é preciso um Calígula.

- Entretanto, cheguei à quinta temporada de uma série pouco falada de que gosto muito chamada Ray Donovan. As personagens são complicadas e fascinantes, todas, sem excepção. Dei por mim a pensar que personagem seria (coisa estranhíssima, que só pode ser resultado de testes do género feitos na parvoíce do Facebook) e cheguei à conclusão de que seria o Avi.

- Ray Donovan é o resultado da imaginação de uma mulher, Ann Biderman. Ray é uma criatura extraordinária nas qualidades e nos defeitos, de tal maneira que nos esquecemos que é um assassino. Não é cruel, é justo, não se surpreende com nada porque já viu tudo, resolve problemas, não é arbitrário nas suas decisões e até na infidelidade tem respeito. A única mulher por quem se apaixona, além da mulher com quem casou e teve filhos, é honesta e corajosa. Está tudo certo e bem pensado. Grande série!

- Há muito tempo que não via um filme de desenhos animados para crianças/adultos. Adorei Sing!

 

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publicado às 09:46

Diário pós-estival

por Carla Hilário Quevedo, em 05.10.17

- A última entrada do diário estival é de 7 de Setembro, altura na pré-campanha em que deixou de haver sequer 15 minutos para escrever um post curto de manhã. 

- Foi um Verão atribulado e entusiasmante. Os resultados do PSD em Lisboa não foram bons, mas não é o fim do mundo. Há, obviamente, explicações muito certas sobre o que se passou nesta campanha, onde vi de tudo, desde o muito mau que qualquer pessoa mais ou menos pressente, até ao muito bom, confesso que inesperado. Conheci pessoas com o coração e a cabeça no sítio certo, com as convicções bem definidas e com conhecimento. Essas pessoas estão lá e espero que ainda ouçamos falar muito delas. Nunca fiz parte de nada semelhante, não estou inscrita em nenhum partido, nem vou estar, mas, se me permitem, o líder do PSD deve surgir depois de uma reflexão acerca da ideologia, do pensamento e do discurso que se quer para o futuro. O líder seria uma consequência diria que natural e por isso teria uma legitimidade inequívoca. Provavelmente, não vai ser isto que vai acontecer, mas sou uma pessoa ponderada por natureza. 

- Passei dias muito compridos com pessoas extraordinárias. Nuno, Luís, Joaquim, Rodrigo, João Pedro, José Eduardo, Manuela, Cristina, Marta e Inês, I love you. Teresa, I love you more.

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publicado às 10:39

Diário estival (22)

por Carla Hilário Quevedo, em 07.09.17

- Por vezes, coisas que parecem simples são muitíssimo complicadas, como, por exemplo, saber ao certo a data e a freguesia de nascimento de uma pessoa. Se há dúvidas deste género sobre alguém que nasceu no século XX, o melhor é aceitar de uma vez que há aspectos da vida das pessoas em épocas mais antigas que nunca poderemos saber. E estou a falar de factos, não de reacções ou comportamentos, sempre sujeitos à interpretação de biógrafos e historiadores.

- Gostei da praxe solidária na Golegã. Excelente ideia! 

- Sinestesia é diferente de cinestesia. A primeira pode ser divertida, e até há quem veja palavras às cores. Há vários anos, treinei um pouco a segunda nas aulas de dança. O objectivo era desenvolver a percepção do espaço (ir de um ponto ao outro da sala com os olhos fechados, por exemplo) e a coordenação dos movimentos. Mas nos dias em que não há tempo para nada, só gostava de ter poderes de telecinésia

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publicado às 08:28

Diário estival (21)

por Carla Hilário Quevedo, em 03.09.17

- Clara Ferreira Alves foi ontem a única pessoa no Eixo do Mal a ter uma posição razoável e sensata sobre os blocos de actividades cor-de-rosa e azuis. Por causa da sua opinião moderada, foi atacada com agressividade por dois dos seus colegas de programa, ambos homens. Isto acaba por ser divertido. Eram aqueles que estavam "a defender" a causa feminista que mais se atiravam a uma mulher. CFA lembrou o óbvio: homens e mulheres não são iguais e ainda bem que não são. O problema está em pensar que essas diferenças são de capacidade ou de inteligência ou de potencial. Como não acredito nos poderes mágicos dos livros - se tivessem poderes, líamos todos o mesmo e não havia interpretação, nem opinião - e não desculpo comportamentos "por causa da educação que x ou y teve", tenho muita dificuldade em dar importância a este assunto. Todas as pessoas, sem excepção, têm o dever de sobreviver à sua infância, à sua família, sobretudo aos seus pais. Mas uma coisa ficou clara do programa de ontem: para uma certa esquerda, as causas abstractas são mais importantes do que as pessoas, que, coitadinhas, não sabem nem percebem e têm de ser devidamente orientadas e instruídas até repetirem as palavras certas, as ideias certas. Tudo aos berros, claro.

- Adoro que Madonna venha para Lisboa viver, se é mesmo verdade que tenciona mudar para cá. Parece é que não comprou a tal quinta em Sintra, que mereceu várias notícias que mais pareciam anúncios da Remax. 

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publicado às 09:33

Diário estival (20)

por Carla Hilário Quevedo, em 02.09.17

- A notícia de que o Papa Francisco a dada altura da sua vida procurou respostas a algumas perguntas no consultório do psicanalista fez-me pensar que além do respeito e da admiração que tenho pelo Papa, sinto também amor. Para os argentinos, como de resto para os franceses, a psicanálise não é um drama, nem um sinal de fragilidade. É uma oportunidade de fazer perguntas a si próprio, de dizer a verdade. Nada disto é possível sozinho.

- Ainda sobre Game of Thrones, a figura de Cersei Lannister é a mais fascinante para mim. A Mãe dos Dragões tem qualidades importantes, mas está convencida de que não é uma facínora, como foi o pai. A minha preferência vai para quem se conhece. Cersei é movida pelos seus interesses, pelo nome da família, pelo legado. Carrega um ódio motivador contra aqueles que causaram a morte dos filhos, directa ou indirectamente. Por tudo isto, parece-me absurda a ideia de que possa estar a mentir sobre a gravidez. Seria uma mentira de revista de cabeleireiro. Cersei mentiu a Daenerys sobre enviar ou não tropas para o Norte. Isso, sim, é digno de Cersei. Por fim, um pormenor. Sou fã do Night King e vibrei com a cena avassaladora da destruição da Muralha. Mas do que gostei mesmo foi das asas esburacadas do dragão não-morto. Parece que vamos ter de esperar até 2019 para vermos o final da série televisiva mais espectacular de sempre. Alguns dizem que se situa na Idade Média e tem influências de Tolkien misturadas com a lenda do Rei Artur. Para mim, é Homero e Tácito com Tucídides e dragões. 

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Cartoon de Farley Katz para The New Yorker.

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publicado às 08:06

Diário estival (19)

por Carla Hilário Quevedo, em 01.09.17

- Tive de me ausentar por uns dias e fiquei com acesso limitado à internet, o que me impediu de escrever aqui. Não ter wi-fi e os dados móveis acabarem de repente é uma grande seca! Deixemo-nos de coisas.

- Nesta ausência, fiz descobertas muito interessantes numa escavação arqueológica na garagem de uma casa de família. São documentos soltos, fotografias de pessoas cuja existência desconhecia e palavras escritas de quem conheci pouco. Foram dias de inesperada emoção. 

- Talvez a maneira certa de conseguimos que alguém de quem gostamos fale sobre o que queremos saber (e que, por alguma razão, não nos querem dizer) passe primeiro por revelarmos uma novidade. Depois é pedir factos e mais factos. Quando, onde, etc. As razões hão-de aparecer.

- Vi o último episódio da sétima temporada de Game of Thrones com os meus primos, três deles muito fãs da série e dois que nunca a tinham visto. Os três primos e eu estivemos no estado de transe e excitação que é próprio do fã taradinho da série. A novidade foi a adesão gradual dos dois que nunca tinham visto. No fim, um já estava preocupado com algumas personagens e o outro não tirou os olhos do ecrã. Juro que não houve proselitismo.  

- Já li várias críticas a este último episódio, mas julgo que a maioria revela expectativas caprichosas. (Atenção que a partir de agora, contém spoilers.) Até que ponto poderemos ser surpreendidos? A grande força deste episódio esteve, quanto a mim, em detalhes, como o momento em que o sinistro Qhorin pega no braço decepado, mas que ainda mexe da criatura trazida do terríório a Norte da Muralha. Aquela curiosidade científica às vezes confunde-se com imoralidade. E é certo que Qhorin fabricou um monstro. O Dr. Frankenstein quer ver o que é aquilo, quer tentar perceber como funciona, de que é feito, estudar a coisa. É um momento extraordinário. A cena de sexo entre tia e sobrinho foi muito criticada, de novo a meu ver sem fundamento. A experiência de Daenerys é vasta. Há que não esquecer que esta mulher foi casada com um bárbaro brutamontes que se apaixonou profundamente quando ela se virou. O pobre Jon Snow é um coelhinho assustado e o resultado é uma espécie de primeira aula no Kindergarten. A cena é perfeita. (Tenho mais duas observações para fazer sobre este último episódio. Ficam para amanhã.) 

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publicado às 09:32

Diário estival (18)

por Carla Hilário Quevedo, em 28.08.17

- Corrijo de novo, baseada no que disse o Ricardo Araújo Pereira no Governo Sombra: os blocos de actividades foram mesmo retirados do mercado, após a recomendação da CIG. Não tenho tempo para comentar com pormenor esta entrevista de Teresa Fragoso, mas educar não consiste em impedir que as pessoas pensem de uma determinada forma. E não sejamos inocentes ao ponto de pensar que as pessoas são um produto daquilo a que foram expostas na infância. Não parece, mas é uma ideia optimista. Educar é explicar e repetir; às vezes esperar que passe um interesse que parece pouco saudável e, em geral, é preciso ter paciência. Proibir impede a explicação. Proteger nem sempre é positivo. E, acima de tudo, nunca se escolhe um livro por causa da capa.

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publicado às 08:10

Diário estival (17)

por Carla Hilário Quevedo, em 26.08.17

- Gostei de ler este post de uma pessoa que trabalha na Porto Editora, sobre a polémica dos livros de actividades para rapazes e raparigas. Aproveito para corrigir o que escrevi: a comercialização dos livros foi suspensa (ou seja, não houve livros retirados do mercado).

- Há "palavras pesadas" a circular com uma insistência nunca vista. Há imensa gente nas redes sociais - a viver literalmente no Twitter e no Facebook - que está completamente viciada na indignação e que se considera a mais digna representante dos injustiçados e oprimidos. Só tenho a dizer que se fosse uma causa, não quereria ser defendida por estas pessoas. Não lêem e por isso não sabem ler, não têm conhecimento - por isso se indignam com tudo -, na maior parte das vezes são ignorantes profundas e em muitos casos não passam de analfabetas. Jogam com um sentimento de perda ou de injustiça e manipulam sobre a emoção. O resultado disto é termos problemas graves (racismo, sexismo), com consequências sérias na vida das pessoas, reduzidos ao ridículo. Se tudo é um problema, então nada é importante.

- Divertido este cartoon de Julia Suits.

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publicado às 08:08