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Diário outonal (1)

por Carla Hilário Quevedo, em 20.10.18

- Escrevi para a Forma de Vida sobre a patinadora Tonya Harding, de quem me lembrava perfeitamente dos meus vinte e poucos anos, mas sobre quem afinal pouco sabia até o meu amigo Telmo Rodrigues me convidar para escrever sobre ela. Aproveito para recomendar esta edição de luxo dedicada ao desporto. Viva!

- Escrevi para o Ponto SJ sobre a nomeação escandalosa do juiz Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal dos Estados Unidos. 

- Irritei-me ontem com o caso do "beijinho à avó", por razões lógicas e ideológicas. Primeiro, não percebo a relação entre uma criança ser "obrigada" a cumprimentar uma pessoa mais velha da família e mais tarde ser vítima de namorados que vão bisbilhotar telemóveis. Somos um povo beijoqueiro, em que o cumprimento habitual é o beijinho (ou dois). Não dar o beijinho significa não cumprimentar e isso é falta de educação. Tão simples como isto. Segundo, defendo que a universidade não serve para "ensinar" comportamentos, muito menos para "ensinar" como os pais educam os filhos. O Estado, através do financiamento de bolsas de doutoramento em certos temas socio-psicológicos ou whatever, cria especialistas que se afirmam "independentes" e que se arrogam de uma autoridade do que deve e não deve ser aceite nos comportamentos de cada um. Isto não é educar, nem é, repito, a função da universidade. É o Estado mais uma vez na meter-se na nossa vida e a dizer como devemos agir. Há quem viva bem com isto. #eunão

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publicado às 09:44

Diário estival (4)

por Carla Hilário Quevedo, em 09.09.18

- Escrevi para o Ponto SJ sobre Who is America?, de Sacha Baron Cohen. A tolerância com os estúpidos é um sinal de fraqueza e preguiça. Sou fã da falta de piedade de Sacha Cohen com gente que clicaria numa tecla para matar uma pessoa só porque não concorda com ela (aconteceu no último episódio, seguido, é certo, de um espasmo de arrependimento) ou que comeria carne humana para fazer uma crítica num site sobre restaurantes. O recurso ao engano para expor estas pessoas incomoda muita gente. A mim, não. Mas não sou admiradora do rigor kantiano exigido para estas questões. O que "salva" Sacha Cohen é não ter "motivos benevolentes" para mentir: é um programa de televisão. No espectro maléfico, é mais honesto.

- Vi The Staircase, lembrei-me do Górgias e chorei em três dos episódios. 

- Acho que tenho um fraco platónico por Hector DeJean, personagem complexa e fascinante da série Berlin Station.   

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publicado às 10:21

Diário estival (3)

por Carla Hilário Quevedo, em 16.08.18

- Este blogue está cheio de Madonna. São 14 páginas de referências, entre as quais haverá um texto longo onde está tudo o que ainda penso sobre a deusa que escolheu Lisboa para morar numa espécie de pré-reforma urbana. Revi por estes dias alguns vídeos de Madonna e concluí também o mesmo que terei dito num desses posts. Madonna está sozinha à frente da câmara na maior parte da sua carreira. Faz-se acompanhar a partir da Blond Ambition Tour por duas cantoras, Donna De Lory e Niki Harris, e um grupo de bailarinos, que nem sempre estão em palco, pelo menos não o tempo todo. Porém, numa das minhas performances favoritas tem bastante gente à volta. E faz um gesto antes de descer as escadas (que repete) que me lembro ter escandalizado a minha Mãe: "Não achas ordinário?", perguntou retoricamente. "Não, acho que está bem", respondi. Parabéns, muitos parabéns.

 

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publicado às 09:09

Diário estival (2)

por Carla Hilário Quevedo, em 15.07.18

- O Verão é como a chuva: tem de chegar. Chegará tarde, sim, mas com toda a sua força.

- Escrevi para o Ponto SJ sobre a mania inútil de "estar em todo o lado". Porém, não é só o nosso Presidente da República que padece deste mal. Também cada um de nós, à sua maneira, nas redes sociais, online a toda a hora, vive desta forma absurda e a evitar. 

- A segunda temporada de The Good Fight é ainda melhor do que a primeira. Assumidamente anti-Trump, está muito bem escrita e o genérico é o mesmo. 

- Vi algumas pessoas mal dispostas com o estupendo balão Trump Baby, uma obra de arte que a Joana Vasconcelos nunca se atreveria a fazer. Há imensa gente, mais do que o costume, a insistir que se tem de falar de assuntos sérios, logo no momento mais absurdo, vazio e tonto da política (nacional e) internacional. O balão é a resposta adequada a essas pessoas e a este tempo. Viva a Inglaterra!

- Por falar em arte, nunca prestei a atenção devida a Columbano Bordalo Pinheiro. Isto até ver alguns retratos lindos, indefinidos e escuros, expostos no Museu Nacional de Arte Antiga. Este, por exemplo, está mal exposto, num canto em baixo e sem luz. Pronto, basta de dizer mal.

columbano.jpg

Columbano Bordalo Pinheiro, O Pai do Artista Pintando, ca. 1878

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publicado às 12:42

Diário estival (1)

por Carla Hilário Quevedo, em 23.06.18

- Convidaram-me há uns meses para escrever um texto e aceitei. Conhecia a história e pareceu-me, como se costuma dizer, um bom desafio. Ontem, no entanto, apercebi-me de que a história é sórdida, algo que ignorava, e agora não sei bem o que fazer. É provável que escreva à mesma, porque não quero voltar atrás no prometido. Na verdade, o que é importante no meio disto tudo é perceber com clareza que há certas realidades que não me interessam.

- Renovei a minha subscrição da extraordinária Digital Loeb Classical Library. Now we're talking!

- As queixas sobre os tempos modernos são recorrentes desde que isto começou. Nada é novo, nem isso. Apesar de tudo, por vezes tenho uma sensação muito forte de que vivemos tempos extraordinários, de liberdade, criatividade, descoberta e conquista. Talvez seja por causa deste vídeo magnífico do casal Beyoncé- Jay Z. Ou, então, é de mim. 

 

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publicado às 10:50

Diário primaveril (5)

por Carla Hilário Quevedo, em 03.06.18

- Este tempo está a impedir muita gente de estar nesta altura do mês de Junho num regime avançado de praia. Por outro lado, tudo indica que teremos Verão até Novembro, which is both dangerous and nice.

- Por falar em Verão, todos os anos penso em comprar um fato de banho, porque "pode dar jeito". Nunca dei por mim numa situação em que "desse jeito" usar fato de banho em vez do habitual biquíni, e nem sei bem o que quer dizer tal coisa. É provável que seja uma desculpa, porque acho bonito, e  este ano acho que não vou querer resistir a este

- Uma das melhores secções do Guardian é da autoria de Sally Hughes, que escreve exclusivamente sobre maquilhagem. Não há nada semelhante em nenhum jornal português, talvez porque a questão do Lifestyle, ou lá o que é, esteja compartimentado em revistas femininas. É pena. 

- Nisto, estamos quase no Mundial e o meu querido amigo Nuno Miguel Guedes enviou-me o vídeo mais engraçado do mundo. Grata!

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publicado às 12:48

Diário primaveril (4)

por Carla Hilário Quevedo, em 02.06.18

- Vi o filme Three Bilboards Outside Ebbing, Missouri, entusiasticamente elogiado quando esteve nas salas de cinema. Não o fui ver na altura, porque, como sabem, não ponho os pés numa sala de cinema há anos (minto: no outro dia fui ver o extraordinário Isle of Dogs numa sessão à hora do almoço e, embora fôssemos cinco na sala, entre os quais duas crianças que não se calaram com perguntas à avó, jurei para nunca mais). Muitos falaram da interpretação magistral da sempre excelente Frances McDormand. Não teria mais nada a acrescentar a não ser mais elogios. Mas depois é a história sobre um crime sem solução e a maneira como está contada. A partir do suicídio de Willoughby, tudo descarrila, o que está certo. Pouco antes, há uma cena extraordinária, quando Willoughby interroga Mildred na esquadra. Há ameaças de parte a parte, numa discussão muito tensa. Mildred culpa a polícia por nada fazer e Willoughby está furioso com os cartazes. E, de repente, Willoughby tosse sangue na cara de Mildred, pede desculpa, diz que não foi de propósito, e insiste: "I didn't mean to. It was an accident", e Mildred diz com piedade: "I know, baby". E, de repente, tudo se mistura e revela ao mesmo tempo, como se a discussão fosse afinal uma representação neurótica daquela verdade que nenhum podia dizer ao outro. Mildred não podia admitir a impossibilidade de encontrar o assassino da filha e Willoughby não podia pedir desculpa por não conseguir encontrá-lo. Mas em todos os momentos, Mildred tratou-o como uma pessoa: quando pôs os cartazes sabendo que estava doente e nesta cena, em que lhe põe a mão na cara num gesto de compaixão. É tão bom ver a total ausência de paternalismo em acção.

- E depois há esta personagem gloriosa, numa cena que mostra na perfeição o que é a ira. Sam Rockwell é um grande actor e mereceu o Óscar de Melhor Actor Secundário. 

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publicado às 09:59

Diário primaveril (3)

por Carla Hilário Quevedo, em 29.05.18

- Tenho recomendado o documentário Wild Wild Country às pessoas de quem gosto e que respeito (às vezes respeito, mas até nem gosto por aí além). Fiquei fã da secretária do Osho, Ma Anand Sheela, que de espiritualidade tinha tanto como o Charles Manson, que percebeu como poderia ganhar muito dinheiro de uma forma legal, mantendo autonomia e exercendo poder e influência. Gostei da independência, da lealdade, da esperteza, da persistência e, sobretudo, da maneira como desaparece de cena na sequência de uma traição. Devia ser sempre assim. Chorou durante dois dias, apanhou um avião e nunca mais dirigiu a palavra ao velho. Assim, o ressentimento ficou do lado do traidor e não da traída. O velho nunca mais se calou (ele que era conhecido pelo seu silêncio), acusou-a de tudo, ficou a remoer. Ela continuou. E depois é uma história sobre as maravilhas que as pessoas podem fazer de uma terra sem nada. Podem construir casas, sistemas de canalização e electricidade, lagos. 

- Escrevi sobre um momento muito importante da minha ida a Roma para o Ponto SJ

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publicado às 08:52

Diário primaveril (2)

por Carla Hilário Quevedo, em 22.04.18

- Uma mistura de falta de tempo e preguiça é a justificação verdadeira, embora insuficiente, para não ter referido no blogue que o bomba inteligente completou 15 anos no passado dia 2 de Abril. É caso para dizer: OMG!

- Escrevi para o Ponto SJ sobre o Facebook e a venda de dados ficcionais à Cambridge Analytica.   

- Entretanto, fui a Roma e voltei. Foram seis dias maravilhosos sobre os quais escreverei a seu tempo. Por enquanto, deixo aqui uma fotografia do último dia, tão inspirador, em que percebi que estar mais perto (de pé numa cadeira com saltos altos) nem sempre muda a impressão que se tinha. Viva o Papa! 

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publicado às 11:04

Diário primaveril (1)

por Carla Hilário Quevedo, em 30.03.18

- Fiquei triste com a morte do Manel Reis. Teria uns 17-18 anos quando o conheci. O que me diverti no Frágil não tem explicação. Obrigada, Manel, por teres inventado um espaço único, onde aconteceram tantas coisas boas.

- Por causa deste texto do António Rolo Duarte, percebi que a geração que tem hoje vinte e tal anos não sabe quem foi o Manel Reis nem faz a mínima ideia de como era a noite lisboeta em finais da década de 80. Havia poucos bares e menos discotecas (Frágil, Três Pastorinhos, Trumps, Plateau, Kremlin e depois veio o Alcântara-Mar, além do Tóquio e do Jamaica no Cais do Sodré) e os clientes conheciam-se todos. A expressão "Lisboa é um bidé" deve ter sido inventada naquela altura.

- Não tenho nostalgia da juventude. Como, se ainda a estou a viver? Ô-e-ôô! 

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publicado às 11:48