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Diário primaveril (5)

por Carla Hilário Quevedo, em 03.06.18

- Este tempo está a impedir muita gente de estar nesta altura do mês de Junho num regime avançado de praia. Por outro lado, tudo indica que teremos Verão até Novembro, which is both dangerous and nice.

- Por falar em Verão, todos os anos penso em comprar um fato de banho, porque "pode dar jeito". Nunca dei por mim numa situação em que "desse jeito" usar fato de banho em vez do habitual biquíni, e nem sei bem o que quer dizer tal coisa. É provável que seja uma desculpa, porque acho bonito, e  este ano acho que não vou querer resistir a este

- Uma das melhores secções do Guardian é da autoria de Sally Hughes, que escreve exclusivamente sobre maquilhagem. Não há nada semelhante em nenhum jornal português, talvez porque a questão do Lifestyle, ou lá o que é, esteja compartimentado em revistas femininas. É pena. 

- Nisto, estamos quase no Mundial e o meu querido amigo Nuno Miguel Guedes enviou-me o vídeo mais engraçado do mundo. Grata!

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publicado às 12:48

Diário primaveril (4)

por Carla Hilário Quevedo, em 02.06.18

- Vi o filme Three Bilboards Outside Ebbing, Missouri, entusiasticamente elogiado quando esteve nas salas de cinema. Não o fui ver na altura, porque, como sabem, não ponho os pés numa sala de cinema há anos (minto: no outro dia fui ver o extraordinário Isle of Dogs numa sessão à hora do almoço e, embora fôssemos cinco na sala, entre os quais duas crianças que não se calaram com perguntas à avó, jurei para nunca mais). Muitos falaram da interpretação magistral da sempre excelente Frances McDormand. Não teria mais nada a acrescentar a não ser mais elogios. Mas depois é a história sobre um crime sem solução e a maneira como está contada. A partir do suicídio de Willoughby, tudo descarrila, o que está certo. Pouco antes, há uma cena extraordinária, quando Willoughby interroga Mildred na esquadra. Há ameaças de parte a parte, numa discussão muito tensa. Mildred culpa a polícia por nada fazer e Willoughby está furioso com os cartazes. E, de repente, Willoughby tosse sangue na cara de Mildred, pede desculpa, diz que não foi de propósito, e insiste: "I didn't mean to. It was an accident", e Mildred diz com piedade: "I know, baby". E, de repente, tudo se mistura e revela ao mesmo tempo, como se a discussão fosse afinal uma representação neurótica daquela verdade que nenhum podia dizer ao outro. Mildred não podia admitir a impossibilidade de encontrar o assassino da filha e Willoughby não podia pedir desculpa por não conseguir encontrá-lo. Mas em todos os momentos, Mildred tratou-o como uma pessoa: quando pôs os cartazes sabendo que estava doente e nesta cena, em que lhe põe a mão na cara num gesto de compaixão. É tão bom ver a total ausência de paternalismo em acção.

- E depois há esta personagem gloriosa, numa cena que mostra na perfeição o que é a ira. Sam Rockwell é um grande actor e mereceu o Óscar de Melhor Actor Secundário. 

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publicado às 09:59

Diário primaveril (3)

por Carla Hilário Quevedo, em 29.05.18

- Tenho recomendado o documentário Wild Wild Country às pessoas de quem gosto e que respeito (às vezes respeito, mas até nem gosto por aí além). Fiquei fã da secretária do Osho, Ma Anand Sheela, que de espiritualidade tinha tanto como o Charles Manson, que percebeu como poderia ganhar muito dinheiro de uma forma legal, mantendo autonomia e exercendo poder e influência. Gostei da independência, da lealdade, da esperteza, da persistência e, sobretudo, da maneira como desaparece de cena na sequência de uma traição. Devia ser sempre assim. Chorou durante dois dias, apanhou um avião e nunca mais dirigiu a palavra ao velho. Assim, o ressentimento ficou do lado do traidor e não da traída. O velho nunca mais se calou (ele que era conhecido pelo seu silêncio), acusou-a de tudo, ficou a remoer. Ela continuou. E depois é uma história sobre as maravilhas que as pessoas podem fazer de uma terra sem nada. Podem construir casas, sistemas de canalização e electricidade, lagos. 

- Escrevi sobre um momento muito importante da minha ida a Roma para o Ponto SJ

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publicado às 08:52

Diário primaveril (2)

por Carla Hilário Quevedo, em 22.04.18

- Uma mistura de falta de tempo e preguiça é a justificação verdadeira, embora insuficiente, para não ter referido no blogue que o bomba inteligente completou 15 anos no passado dia 2 de Abril. É caso para dizer: OMG!

- Escrevi para o Ponto SJ sobre o Facebook e a venda de dados ficcionais à Cambridge Analytica.   

- Entretanto, fui a Roma e voltei. Foram seis dias maravilhosos sobre os quais escreverei a seu tempo. Por enquanto, deixo aqui uma fotografia do último dia, tão inspirador, em que percebi que estar mais perto (de pé numa cadeira com saltos altos) nem sempre muda a impressão que se tinha. Viva o Papa! 

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publicado às 11:04

Diário primaveril (1)

por Carla Hilário Quevedo, em 30.03.18

- Fiquei triste com a morte do Manel Reis. Teria uns 17-18 anos quando o conheci. O que me diverti no Frágil não tem explicação. Obrigada, Manel, por teres inventado um espaço único, onde aconteceram tantas coisas boas.

- Por causa deste texto do António Rolo Duarte, percebi que a geração que tem hoje vinte e tal anos não sabe quem foi o Manel Reis nem faz a mínima ideia de como era a noite lisboeta em finais da década de 80. Havia poucos bares e menos discotecas (Frágil, Três Pastorinhos, Trumps, Plateau, Kremlin e depois veio o Alcântara-Mar, além do Tóquio e do Jamaica no Cais do Sodré) e os clientes conheciam-se todos. A expressão "Lisboa é um bidé" deve ter sido inventada naquela altura.

- Não tenho nostalgia da juventude. Como, se ainda a estou a viver? Ô-e-ôô! 

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publicado às 11:48

Diário invernoso (8)

por Carla Hilário Quevedo, em 11.03.18

- Já muito se escreveu sobre a ânsia portuguesa de mostrar títulos académicos que não se tem, mas é um impulso que continua por explicar. Também não tenho explicação para aquelas pessoas que se apresentam como "doutorando" ou "doutoranda". É um termo vazio (embora nunca um gerúndio fosse tão adequado a uma actividade) e que se presta a ser mal lido. Há duas coisas que interessam na vida: o modo de proceder (jesuítas) e o fim (Aristóteles). O resto é entretenimento.

- Por falar em jesuítas, escrevi sobre responsabilidade política aqui

- Por falar, de novo, em terapias alternativas, gostei de ler este artigo de Luís Carvalho. Cientistas a serem espertos, muito bem!

- Entretanto, na Noruega, fizeram uma experiência que mostra bem como a normalização da injustiça, de resto como o medo (basta ver vídeos de bebés com gatos e cães à volta), são conceitos que se adquirem.

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publicado às 09:00

Diário invernoso (7)

por Carla Hilário Quevedo, em 04.03.18

- A minha rede social preferida continua a ser o YouTube, mas confesso que não sei nada de YouTubers, nem quero saber. Dá para imaginar durante dois minutos, para esquecer logo a seguir. O que vou encontrando pelo YouTube são coisas que o algoritmo "sabe" que me interessam. 

- Attenborough's Paradise Birds é um documentário de 2017 que a RTP tem de comprar para eu ver. O excerto com Sir David Attenborough e uma ave-do-paraíso faladora e exibicionista a interromper as filmagens (feitas em 2015) é das coisas mais extraordinárias que vi nos últmos tempos. Mostra bem aquilo a que deveríamos aspirar e o que é ser uma pessoa maravilhosa, não há outro termo para descrever este homem. A maravilha que é ter uma curiosidade ilimitada pelo que existe e que se revela sem constrangimentos! E depois o respeito de Attenborough perante a ave, que atitude inspiradora e comovente e, ao mesmo tempo, tão divertida. As boas maneiras ditam que não se interfira no modo de expressão dos outros e que fiquemos calados quando os outros falam, sobretudo quando nos estão a fazer uma grande festa. Tão bom!

 

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publicado às 11:50

Diário invernoso (6)

por Carla Hilário Quevedo, em 03.03.18

- Tinha imensas perguntas para fazer aos intervenientes na conversa sobre o livro João Villalobos, Terapias, energias e algumas fantasias, mas há debates que simplesmente não toleram a moderação, nem em tom. Sobre o livro do João, tenho a dizer que está muito bem escrito, fala de charlatães com humor e regista os testemunhos das pessoas que acreditam nas terapias alternativas de um modo sério e respeitoso. Como diria Francisco, quem somos nós para julgar? Ouvi com atenção o Pedro Teixeira da Mota e o David Marçal e, apesar do confronto mais que evidente entre duas maneiras muito distintas de pensar, não identifiquei problemas insanáveis.

- A crítica mais que válida da ciência no que respeita às terapias alternativas centra-se no facto de as segundas estarem a reclamar um território que não lhes pertence e que, por muito que queiram, não merecem: o da prova. Uma experiência pessoal com Reiki ou acreditar na "má onda" (não sei como ninguém invocou esta sábia expressão!) de pessoas que temos o dever de evitar não são prova científica de nada. Indo directamente ao assunto: como é que os defensores das terapias alternativas podem resolver isto? Abandonando a necessidade de prova e assumindo que não são "alternativas", mas "complementares". Esta simples mudança nos termos pode ajudar a abrir o espaço à crença - porque, na verdade, é esse o campo deste tipo de terapias - e a deixar à ciência as provas, a refutação e, sobretudo, o progresso.

- Não podemos é negar que há cada vez mais pessoas a recorrer a métodos não convencionais de terapia. Uma médica presente contou que num estudo feito em 2003 na sua unidade hospitalar de tratamento da dor (uma questão altamente subjectiva) as conclusões foram que cerca de 30% dos pacientes usavam alguma forma de terapia não convencional. "Hoje em dia, a percentagem seria, talvez, de 70%", referiu. A explicação que deu foi também muito interessante: a relação entre médico e paciente mudou imenso. Há menos tempo para dedicar a cada pessoa, o que tem como consequência dar menos atenção a quem está vulnerável pela doença e, sobretudo, ser menos vigilante no que respeita à toma devida dos medicamentos. Concluindo, penso que o termo "alternativas" é altamente prejudicial para todos, porque induz as pessoas em erro. Não se trata de fazer Reiki em vez de tomar o antibiótico quando este é necessário, sendo certo que nem tudo na vida se resolve com comprimidos. Ora, se até a leitura dos diálogos de Platão tem efeitos terapêuticos tão modestos...

- Por falar em Platão, isto está bem feito. 

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publicado às 11:41

Diário invernoso (5)

por Carla Hilário Quevedo, em 24.02.18

- O Francisco Mota convidou-me pouco antes da campanha eleitoral para escrever sobre Política no site dos Jesuítas em Portugal, que foi inaugurado ontem. Divertida com a coincidência, aceitei o convite. Longa vida ao Ponto SJ!

- A propósito da publicação do seu novo livro, o João Villalobos convidou-me para moderar um debate entre um cientista e um investigador de terapias alternativas. Estou preparada para ser árbitra e não juiza. Venham todos!

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publicado às 10:13

Diário invernoso (4)

por Carla Hilário Quevedo, em 21.01.18

- Cada vez vejo menos televisão e menos filmes. Vejo séries e, mesmo assim, com um critério de exigência elevadíssimo. A má ficção irrita-me, por isso se nos primeiros 10-15 minutos houver alguma coisa que não me agrade (e em 95% dos casos vê-se logo que a série é má), abandono sem piedade. O tempo é escasso, a oferta é abundante e há muita coisa excelente para ver. Uma série com dez episódios representa pelo menos nove horas de vida. É imenso!

- Com os filmes, sou ainda mais impaciente. Para mim, ver um filme é um hábito caído em desuso. Por isso, não estou atenta ao que está em cartaz. De vez em quando dou uma volta pelo videoclube ou sigo um conselho mais entusiasmado de alguém que partilha da minha impaciência.

- Foi o que aconteceu com Turist, de 2014. A partir daqui vou spoilar um bocadinho, por isso recomendo a quem não viu o filme que mude de canal. Há tantos aspectos interessantes nesta história que nem sei por onde começar. Compreendi a mulher, que não perdoa a cobardia do marido, fala abertamente sobre a sua desilusão, e que sofre com a descoberta de uma falha tão profunda e relevante. Não fui compreensiva com a solução que deu ao problema, inventando um desaparecimento, para "confirmar" se o marido teria tido um momento mau ou se arriscaria deixar os filhos sozinhos no meio do nevoeiro para ir em seu socorro. O problema é complexo e fascinante. A mulher inventa um teste para o marido ser aprovado com distinção. Provavelmente, ela precisa daquela história para criar a dúvida depois de saber a verdade. Curiosamente, ele também.   

-  The Good Fight é o spin-off prometido de The Good Wife. Muito boa primeira temporada, bem escrita e bem interpretada. Como se fosse pouco, tem o genérico mais feminino de sempre. 

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publicado às 09:55