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por Carla Hilário Quevedo, em 24.08.07
Não me toques

Ao contrário de povos que rejeitam mesmo a mais irreflectida encostadela de braço, os Portugueses tocam bastante uns nos outros. Embora se tenha verificado um aumento de não-me toques nos últimos anos - certamente por influências externas - a verdade é que nós levamos a vida a invadir o espaço uns dos outros e raramente respeitamos uma distância cortês. Basta que pensemos naqueles que têm por hábito bater-nos no bracinho enquanto falam, obrigando-nos a mudar de posição durante a conversa, não vá a insistência em prender-nos a atenção moer-nos o músculo ou causar-nos uma bela nódoa negra. A melhor defesa com a ansiedade táctil desses interlocutores é pormo-nos de frente e nunca, jamais, em tempo algum, de lado. Perante casos agudos, convém que as mãos fiquem escondidas atrás das costas, ficando os braços quase fora do alcance, mas melhor será deixar a conversa para o telefone. Se bem que falar com esta espécie de «tocadores» profissionais pode tornar-se um pesadelo mesmo à distância. Impossibilitado de bater no bracito do próximo milhares de vezes seguidas, algumas das quais com o cotovelo, o chato de galochas utilizará outras formar de prender a atenção. Talvez utilize expressões como «percebes?» até à exaustão do desgraçado que ouve. Tentará sempre tocar, seja de que maneira for.

De Cinco Sentidos, publicado na Tabu, 18-08-2007.

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publicado às 17:51