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por Carla Hilário Quevedo, em 28.05.03
Há uns dias, no meio de um post sobre umbigos, lancei uma provocação que de provocatório e inovador tem pouquíssimo: "Homero não existiu." Sobre esta frasezita recebi duas mensagens que passo a transcrever. A primeira é da Ana Albergaria e a segunda, do Cruzes Canhoto. A resposta segue depois.



Querida Charlotte



Podia estar aqui com rodriguinhos, mas tu e eu temos mais que fazer e portanto vou já ao busílis: Homero não existiu? Por favor, não me digas isso outra vez que eu juro que me mudo já para Felgueiras e desato a esbofetear políticos! E olha que falo sério! Não existiu??? Snif... isso não se faz; despedaçar assim o imaginário de uma rapariga homérica como moi même. Agora aceita um grande beijinho desta tua amiga Ana.




Cara Charlotte



Ia escrever para dizer que, mesmo não me chamando menino Jesus, gosto das tuas explicações etimológicas. Mas aquela do Homero não existir fez-me pensar duas vezes. A teoria mais aceite sobre o Homero actualmente é de que teria existido, mas seria apenas compilador de várias tradições orais? Porque achas que não existiu?




A presunção da omnisciência dá-nos muito jeito para falarmos sobre os vultos da Antiguidade (e sobre autores modernos, for that matter). Permite-nos falar sobre eles como se tivessem existido e os tivessemos conhecido. Acerca da existência de Homero sempre tive grande desconfiança (como se isso fosse alguma coisa de extraordinário) e essa dúvida surgiu por causa do significado do nome do autor: 'Omiros significa "uma promessa de união".



Além disso, persistem dúvidas sobre os dialectos utilizados na narrativa (são quatro), discordâncias entre estratos linguísticos e arqueológicos e incertezas quanto à fixação da data de concepção dos Poemas. Quem tenha lido a Ilíada (bocejo profundo) ou a Odisseia, lembrar-se-á das repetições constantes do discurso e das qualificações também repetidas até à exaustão das personagens. Lembram-se do Ulisses, o dos mil artífcios? As repetições (que tornam o texto muito maçador, os classicistas que me perdoem) provam que os Poemas eram um conjunto de histórias da tradição oral e que a necessidade de classificação das personagens estava relacionada com o processo de memorização; assim toda a gente sabia quem era o Ulisses, por exemplo.



Homero não existiu porque quem conta um conto acrescenta um ponto e quem o anda a contar há quase três mil anos já se perdeu há muito. Agora, penso que é preferível dizer: Homero não interessa. Ou melhor, Homero não é para aqui chamado.

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publicado às 00:48