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por Carla Hilário Quevedo, em 06.05.07
Já estava com saudades

Diz o estimadíssimo Jansenista que ontem acordei ambígua. Talvez. Desde que aprendi a viver com a ambiguidade, descansei e, ao descansar, explorei várias possibilidades de a vida ter ainda mais graça. (Além disso li no Freud que as pessoas que não toleram a ambiguidade são neuróticas, e antes a ambiguidade do que a neurose, que me perdoem os Antigos.) Mas basta de introduções que mais parecem interlúdios e vamos ao que interessa: os direitos dos animais. Uma coisa óbvia para começar: os seres humanos têm autoconsciência ou consciência de si, os animais não. Esta evidência tem servido como a desculpa perfeita para cometermos atrocidades como: 1) experiências em animais que implicam tortura e morte dos mesmos; 2) extinção de espécies; 3) impunidade relativamente ao modo cruel como são tratados os animais não humanos em geral. A espécie humana não é igual à espécie não humana, mas essa diferença não pode implicar o domínio de uma espécie sobre a outra. Penso que "diferença" é aqui (bem como noutros casos) a palavra crucial. Como é podemos pedir contas a um crocodilo? Se não tem autoconsciência, como pode ser responsabilizado por comer a perninha de alguém que o ataca ou mesmo de quem está sentado na margem de um riacho qualquer? A diferença tem também servido para desculpas do género "os animais não sofrem como nós". Como é que podemos ter a certeza disso? Se dou uma palmada ao gato Varandas porque fez um chichi em sítio indevido, ele encolhe-se todo. Isto o que é? Agora imaginemos coelhos e ratos torturados em laboratório. Como é possível que não sofram? O sofrimento será de facto necessário?

Quanto à comida - e tenho pensado no assunto - tenho pena de não conseguir ser vegetariana, mas gostava sinceramente de ser (e ainda hei-de conseguir). Mais uma vez, ao contrário dos animais não humanos, nós temos a capacidade de escolha entre comermos bichinhos ou não; os bichinhos não têm essa capacidade: por exemplo, os peixes alimentam-se de peixes, e no outro dia vi um documentário em que macacos comiam outros macacos seus rivais mas do mesmo grupo. O facto de não nos alimentarmos de carne humana só reforça a diferença entre os bichos e nós. isso significa que nós podemos não fazer o que eles não podem deixar de fazer.

Quando digo que sou 100% pró-bicho, embora a designação seja galhofeira, não estou a brincar. Quando digo que gosto das carteiras da Hermés, também não estou a brincar: sim, são bonitas, mas a parte séria e verdadeira e não popular é que não as quero nem me interessam sequer (só para efeitos de piada). Sou obviamente contra as touradas, não compreendo a caça à raposa por mais que ma queiram explicar, a caça à baleia é outra coisa para mim totalmente incompreensível, enfim. Não se entenda que estou a ser paternalista com os animais, não é isso. Julgo apenas que os animais têm direito a viver em paz.

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publicado às 10:16