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por Carla Hilário Quevedo, em 02.09.05
O menino da mamã e da avó (17)

Tentando explicar um pouco melhor o que digo aqui acerca das personagens secundaríssimas, que julgo terem como único propósito a descrição de um determinado ambiente, não sendo muito diferentes das paisagens maravilhosas de Combray - belas e imóveis (artísticas) - começo por voltar um pouco à reacção de Marcel quando vê a duquesa de Guermantes: "Era grande a minha decepção. Provinha ela do facto de que eu nunca me acautelara quando pensara na senhora de Guermantes, e a imaginava com as cores de uma tapeçaria ou de um vitral, noutro século, de outra maneira diferente do resto das pessoas vivas." (185) É isto mesmo que diferencia personagens como Swann, cuja descrição física se encontra na página 208 ou como a senhora Verdurin, descrita na página 218, de outras como a moça grávida da cozinha, ou o amigo Bloch, com quem o pai de Marcel não simpatizava: há personagens que são obras de arte, que fazem parte da mobília. Swann ama Odette porque a associa a uma frase musical de Vinteuil (que padeceria de alienação mental, 228): "A pequena frase continuava a associar-se para Swann ao amor que tinha por Odette." (251) Por sua vez, Odette é assim descrita: "[Swann] colocou em cima da sua mesa de trabalho, como uma fotografia de Odette, uma reprodução da filha de Jetro. Admirava-lhe os grandes olhos, o delicado rosto que deixava adivinhar a pele imperfeita, os maravilhosos anéis de de cabelo ao longo das faces fatigadas; e adaptando o que até então julgava belo de uma forma estética à ideia de uma mulher viva, transformava-o em méritos físicos que se regozijava de encontrar reunidos num ser que poderia possuir. (...) Quando contemplara longamente aquele Botticelli, que achava ainda mais belo e, aproximando de si a fotografia de Zéfora, julgava apertar Odette contra o peito." (239) Quando Odette e Swann se beijam (a passagem é de leitura obrigatória, 252-3), a imagem volta a ser mencionada: "(...) ele tornava a ver um rosto digno de figurar na Vida de Moisés de Botticelli, situava-o lá, dava ao pescoço de Odette a inclinação necessária..." (252) Desta maneira:


Botticelli, Provações de Moisés, Capela Sistina, (1481-82), Roma

Odette pertence a uma frase musical e a um fresco da Capela Sistina. Podia ser pior.

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publicado às 16:50