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Repor a ordem

por Carla Hilário Quevedo, em 13.04.08

Nemesis, Alfred Rethel, 1837

 

De todas as deusas gregas, a minha preferida é Nemésis. Responsável por repor o equilíbrio da ordem natural das coisas, muito atenta a desvios de personalidade graves, Nemésis é a deusa que castiga os grandes vaidosos. É aquela rapariga muito enervante que demonstra às criaturas humanas que, por muito belas ou felizes ou inteligentes que sejam, não são deuses. Hesíodo, na Teogonia, apresenta-a: «A Noite deu à luz (…) também Nemésis, flagelo para os homens mortais» (tradução de Ana Elias Pinheiro, p. 48). Talvez por causa da ideia de vingança associada a esta deusa (uma palavra demasiado forte no meu entender porque acaba sempre por sugerir uma desproporção) que se limita a castigar o crime da desmesura, nada mais nem menos que isso, muitas vezes a sua figura aparece associada aos inimigos. Os super-heróis parecem ser muito acompanhados por esta divindade mas não há razão para isso. Nemésis tem mais que fazer do que castigar quem salva gente que cai de arranha-céus. Cada presunçoso traz esta nobre companhia consigo, e ninguém me tira da cabeça que Narciso, apaixonado pela sua imagem reflectida na água, morreu afogado porque Nemésis tratou de lhe dar um empurrãozinho.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 8-03-08.

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publicado às 23:03