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Iris Murdoch

por Carla Hilário Quevedo, em 18.04.08

Vi uma entrevista em vídeo, datada de 1977, a Iris Murdoch. Não está no YouTube, mas está publicada neste livro. A conversa com Bryan Magee corre bem, é fluída e muito clara. Comoveu-me, aliás, a clareza e a simplicidade com que fala de conceitos tão complexos como literatura e filosofia, introduzindo distinções esclarecedoras; por exemplo, a literatura mistifica e a filosofia desmistifica, entre outras. Depois a noção muito interessante de Murdoch de que, ao contrário da filosofia, a literatura é entretenimento (e "to have fun"), completamente incompreendida nos nossos dias. A literatura é entretenimento, claro, tem toda a razão. Só hoje em dia quase ninguém se diverte a ler, mas isso, paciência. E a coragem de distinguir a boa arte da má arte. A má literatura é aquela que só fala do seu autor, em que a sua personalidade está presente em tudo o que escreve. Bravo, Iris! Também já ninguém fala assim. Como se não houvesse má arte! Como se não houvesse outra coisa... Finalmente, o sossego com que falava, alegre, discreta, e parando de falar para pensar. A certa altura, parece entediar-se com o que diz Bryan Magee (mas isso se calhar sou eu a achar que ele se estava a alongar demasiado, não sei). Quase no fim da entrevista está irrequieta no sofá e, uma vez ou duas, fala com a cara virada para baixo (uma imagem magnífica), como se estivesse a rezar. Mas não estava, claramente não estava, nem o tom de voz era mais baixo sequer. Falava com o tom de voz normal mas com a cara virada para baixo. Gostei muito.

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publicado às 15:56