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Ninho de cucos

por Carla Hilário Quevedo, em 29.06.08

Não deixa de ser uma sorte que os gatos não tenham memória. Se tivessem, nem que fosse um bocadinho muito, muito pequenino, o Varandas nunca me perdoaria a maldade que lhe fiz há umas semanas, quando decidi que o melhor a fazer depois da tosquia era pespegar com ele no veterinário. Tudo porque me dava imenso jeito, banho e tosquia e médico, tudo no mesmo sítio, uma só deslocação, que egoísta! Portou-se como o santo felino que é, quieto, sem nunca miar, nem manifestar sequer uma vaga impaciência. Termómetros, análises, tudo visto, olhos, dentes, bons dentes, e a desparatização? Como disse? Os comprimidos para os parasitas, há quanto tempo não toma? Parasitas o Varandas? Saberá a senhora doutora veterinária de que animal está a falar? Maneiras! Haja maneiras. Errr... Não me lembro de alguma vez lhe ter dado tal coisa, mas se tem de ser. É melhor, quanto pesa, ah, pesadinho, dois comprimidos inteiros e mais três quartos de um terceiro. Mas, mas. Ao primeiro, o Varandas reagiu com alguma surpresa, mas limitou-se a tentar fugir com a cabeça. Já ao segundo, o bicho transformou-se num puma, mudou de olhar, outra pessoa, nada a ver. Revelou por fim a sua natureza, felizmente, pois começava a duvidar da nobre descendência de honoráveis chitas, pumas, linces, tigres e toda a espécie de gatos de grande porte que não apreciam ser aborrecidos por bípedes primitivos. Ao primeiro quarto do terceiro comprimido, o animal ficou duro como uma pedra e, além do olhar de ódio profundo que me lançou, abriu a boca e mostrou os dentes pontiagudos de serpente. É interessante que depois de horas de gente à volta a chatear, uma pessoa se transforme num animal feroz. Não tem mal nenhum. Até me parece normal. Muito parado rosnou quando ingeriu o segundo quarto e ao terceiro e último bocado de comprimido enfiado pela boca abaixo, o gato já não era puma mas uma cobra muito irritada e pronta a atacar. Assisti à transformação sempre a acenar com a cabeça, sim, tem toda a razão e eu nenhuma, isto não devia ter acontecido, estiquei a corda. Se o Varandas me tentar morder, não vou fugir. Não mordeu porque o mantive fechado no saquinho de transporte. O tempo passou e o bicho voltou ao seu estado habitual, doce e calmo. Gatinho lindo. 

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publicado às 16:37