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O humor como modo de vida

por Carla Hilário Quevedo, em 11.11.08

Tiago Cavaco diz que o humor está sobrevalorizado (ver post 3.11.08); eu suspiro quem me dera que estivesse e o maradona avança com uma nova ideia: o humor é sobre-utilizado. É capaz de ser isso, é. Ainda há dias vi no noticiário da SIC um sketch dos Gato Fedorento a ilustrar uma reportagem sobre hipocondríacos. Não teve graça absolutamente nenhuma. Não por causa do sketch, que é óptimo, mas pela utilização abusiva do mesmo num contexto puramente informativo. Logo a seguir ao sketch, ouvimos uma senhora a explicar como vivia atormentada pela ideia de que tinha uma doença terminal. Isto se calhar dá vontade de rir aos editores do noticiário da SIC. Hey, everybody is a comedian! Não fiquei triste com a piadola à custa de quem sofre mas lá que me fez pensar, fez. Nomeadamente na falta de cabeça que é precisa para associar o que não é associável e que estraga duas casas: a dos Gato Fedorento e a da reportagem, que acabou por não me interessar.  

 

Mas para responder ao comentário do Tiago, que desde já agradeço, gostaria de começar por dizer que a tristeza (quer a minha quer a dos outros) é antes de mais privada. E uma graça é uma actividade lúdica e, como tal, pública. O humor é, por isso, uma maneira de nos relacionarmos uns com os outros. No meu entender, talvez a forma mais civilizada de o fazermos. Um homem com humor nunca é violento. É evidente que, por vezes, piadas más levam os alarves a abrir as bocarras de riso. Já se sabe que a qualidade não é ilimitada. Mas o que me parece ser impossível de fazer é separar o homem da sua graça. O maradona, por exemplo, é assim. Nunca o maradona menos qualquer outro aspecto do seu carácter. O Tiago imagina a maçada que seria termos um maradona só engraçadinho, sem nenhum fundo de verdade (isto já sou eu a falar). Mas porque não imaginá-lo só a dizer coisas sérias e sem um pingo de graça? Estou certa de que não levaria para casa nem um décimo das Bombas de Ouro.

 

Devo dizer que compreendo o que o Tiago diz quanto à intolerância, embora não estejamos a falar da mesma coisa. (O que é ser intolerante a uma piada?) Contudo, quanto à manipulação estamos em total desacordo. Primeiro, o ponto em que estamos mais ou menos de acordo: a intolerância. Não tolerar nem pessoas nem ideias que defendam a injustiça parece-me saudável, sim. Dando um exemplo pessoal, sou completamente intolerante com fanáticos. Já agora acrescento que não tenho a menor pachorra para gente muito estúpida e má, por acaso (e tenho uma testemunha disto). Mas por rejeitar o que considero abjecto necessariamente não posso ser manipuladora. Em situações limite considero a intolerância saudável mas a manipulação nunca. Rejeitar é bom, naqueles casos em que é uma espécie de vómito e limpa. Mas a tolerância, nas circunstâncias normais ou habituais da vida em que não estamos perante fanáticos, é a maneira fundamentalmente pacífica e cristã de nos relacionarmos, e que vai além do respeito pelo próximo. Já a manipulação é uma forma de actuar sobre os outros em proveito próprio, o que pessoalmente rejeito sempre. E o humor? É, nas palavras sábias da batukada, "aquela coisa maravilhosa das serotoninas". Pois é. E que, além do mais,o Tiago Cavaco, fã de G. K. Chesterton e Evelyn Waugh, e uma pessoa muito inteligente, tem e não é pouco. (Faço minhas as palavras do maradona, mas com uma ligeira diferença: se te apetecer continuar, toda a família é bem-vinda. Beijinhos!) 

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publicado às 10:49