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Não pode abrir a boca

por Carla Hilário Quevedo, em 18.11.08

Talvez tenha chegado a altura de confessar publicamente que não percebo três coisas: o conceito de narrador heterodiegético, algoritmos em geral e o racismo. Não quer dizer que não saiba o que são. Mas a verdade é que perante estas três coisas da vida fico sem saber se devo chorar ou telefonar a pedir ajuda. Isto porque o primeiro-ministro italiano disse sobre Barack Obama que era «jovem, bem-parecido e bronzeado» e o mundo logo desabou. Até Carla Bruni ficou histérica, haja paciência. Silvio Berlusconi é uma criatura mundana habituada a fazer piadas para ajudar à diplomacia e animar a festa. Foi neste contexto, aliás, que a graça foi dita. Esta capacidade de entreter é bem capaz de ser a sua única qualidade. Mas já se sabe que uma piada à cor de Obama é muito mal vista num mundo desconfortável com as respectivas cores de cada um. Que a cor da pele de uma pessoa signifique que ela é algo menos ou mais do que outras é uma ideia abjecta. Isso é como dizerem que não tenho bom ar lá porque sou asmática. Voltando a Berlusconi. Ficámos a saber que as virgens brancas e ofendidas com a piada só prestam atenção à cor de Obama. Tempos negros os que se aproximam.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 15-11-08.

 

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publicado às 16:54