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por Carla Hilário Quevedo, em 25.02.08
Tivesse destruído ele

Antes de morrer, Vladimir Nabokov deixou um pedido à mulher que destruísse o seu último manuscrito. Não, não é pedido que se faça a ninguém e talvez por saber isto a mulher do escritor, Vera, fez aquilo que tipicamente se faz em casos bicudos como este: deixou o tempo passar. Quando a própria faleceu, a batata quente passou para o filho, Dmitri Nabokov, alegadamente a única pessoa neste planeta que leu The Original of Laura, título atribuído à obra. Ora, o filho, entretanto com 71 anos, também não sabe o que fazer com aquele legado: destruir conforme o desejo expresso ou não, eis a questão. Mas a questão é perversa e o único culpado da situação é o manipulador Vladimir Nabokov. A obra literária tem um autor, mas será ele o proprietário absoluto da sua criação? Como conjugar a arte com o direito à propriedade exclusiva, neste caso limitando o acesso ao texto e impedindo a sua interpretação? O tema foi amplamente debatido na imprensa, e Ron Rosenbaum, na Slate, chegou a pedir a intervenção dos leitores no sentido de impedir Dmitri de fazer algum disparate (ou seja, cumprir a vontade do pai). Agora que a publicidade está toda feita, publique-se e depressa.

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 23-02-08.

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publicado às 12:05