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Há uns dias um rapaz descontraído ia sendo atropelado à minha frente. Ia na sua calma a subir o Chiado quando um automóvel parou já quase colado a uma das suas pernas. Gritei um «cuidado!» acho que trémulo e assustado. Não foi um guincho, mas não saiu aquele «cuidado!» possante e bem projectado que devia ter saído. Ou então fiquei com uma ideia errada do som que eu própria emitira. Fiquei um bocadinho envergonhada, porque acredito que um grito bem dado com o tom de voz certo pode salvar a vida de uma pessoa. No caso do rapaz descontraído, literalmente. O carro, apesar de circular estupidamente depressa para aquele sítio da cidade, também conseguiu parar a tempo. Eu gelei com o meu gritinho fraco. Mas o rapaz descontraído continuou a andar como se não fosse nada com ele. Quem seria esta alma indiferente a carros, gritos, pessoas; enfim, alheio ao mundo caótico que o rodeava? Apesar de o considerar imprudente e muito arriscado, estava prestes a perguntar-lhe se aquela capacidade de distanciamento era um produto da leitura dos Estóicos, quando me apercebi de que estava de auscultadores nos ouvidos. A música soava em altos berros. O meu grito afinal…
Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 7-5-10