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Rancor e estupidez

por Carla Hilário Quevedo, em 08.03.11

Quando apareceram as caricaturas de Maomé, que tantos distúrbios provocaram, Trey Parker e Matt Stone incluíram no South Park um urso a representar o profeta. Era uma maneira humorística de evitar uma jihad. Zachary Adam Chesser, um americano da Virgínia convertido na adolescência ao islamismo, sentiu-se ofendido. Fez uma campanha a incitar ao homicídio dos autores da paródia. Divulgou as moradas de ambos e sugeriu a distribuição aleatória de pacotes suspeitos para desorientar a Polícia na busca de uma bomba de verdade. Tinha contactos com a al-Qaeda no Iémen e tentou ir para esse país encantador. Chesser foi condenado a 25 anos de prisão. Nas alegações finais, o procurador acrescentou que o delito não se resumiu às ameaças de morte, mas em ter provocado o medo no exercício da liberdade de expressão. O que me leva à pergunta de difícil resposta: como é que um rapaz que cresce numa sociedade livre é seduzido pela versão monstruosa de uma religião ancestralmente civilizada? Não pode ser fé, e uma explicação psiquiátrica é compreender demais. Só o ressentimento e a frustração, com muita estupidez à mistura, explicam a aberração. E mesmo assim não chega.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 4-3-11

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publicado às 18:56