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Valentia vs. audiência

por Carla Hilário Quevedo, em 06.04.11

Quem conhece Pompeia, ou pelo menos quem viu a excelente série da HBO, Roma, sabe que os grafitti não são uma invenção moderna. Existiam em moldes muito parecidos aos que hoje vemos nas ruas de qualquer cidade, desde «fulano ama fulana», «sicrano esteve aqui» a «beltrano é um *****». Chris Wright, no Boston Globe, fala-nos de Ancient Grafitti in Context, um livro que tenta provar a importância histórica deste acto de vandalismo típico dos anos clássicos da nossa civilização. Não querendo pôr em causa os argumentos dos autores da obra, penso que o mais curioso sobre o tema é verificar como somos parecidos ao que éramos há três mil anos. É certo, contudo, que uma declaração de amor escrita numa parede que sobreviveu à erupção do Vesúvio, em 79, tem mais pinta que um «João ama Teresa» rabiscado numa parede de Telheiras, em 2011. E como explicar esta preocupação publicitária do João telheirista ou do Cláudio pompeiense? A explicação de deixar uma marca na vida efémera não me convence. Escrever um grafito de amor ou insulto numa cidade com 25 mil habitantes é mais valente que fazer o mesmo num bairro com um milhão. Agora qualquer um é grafiteiro.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 1-4-11

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publicado às 18:53