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Não posso fazer nada

por Carla Hilário Quevedo, em 12.04.11

Fumar está outra vez na moda. E as produções das revistas femininas têm ajudado à festa. Ao contrário de Euan Ferguson, no Guardian, não sou, nunca fui, nem serei fumadora, e por isso espero que esteja enganado. Temo, no entanto, que as restrições cada vez mais rígidas aos fumadores estejam a torná-los em heróis trágicos da liberdade. Digo trágicos por razões de saúde mais que provadas e comprovadas. Mas um herói que não morra pela causa – ou um herói com final feliz – não é bem um herói, pois não? A questão é que apesar do vício desagradável, do cheiro incómodo, da fumarada que irrita todos os sentidos de uma pessoa, e do perigo de incêndio involuntário, fumar tem uma certa pinta. Uma femme fatale, um detective dos de antigamente, um escritor revoltado, um pintor alucinado, um poeta implacável só podem, além de beber, fumar. Sei que são clichés, mas não tenho culpa de quase dois séculos de imaginário cultural não poderem ser apagados por vinte anos de União Europeia ou seis de ASAE. Repito que não fumo, nem fumarei, mas percebo que estou de fora quando vejo a Moss a desfilar envolta em fumo ou apanho a Bacall no ecrã da televisão de cigarro na boca.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 8-4-11

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publicado às 16:49