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Pela cara abaixo

por Carla Hilário Quevedo, em 02.08.11

Na contabilidade dos portugueses com sucesso no estrangeiro vamos ter de passar a incluir o escritor Valter Hugo Mãe, que foi ao Brasil e deixou uma série de senhoras a chorar. O relato de Isabel Coutinho no Público, a descrição na revista Veja, e reacções apanhadas sem querer pela internet sublinharam o facto de Valter Hugo Mãe ter convencido pela comoção o público que estava presente na Festa Literária do Paraty. Perante o frisson transatlântico, resolvi ir ver ao YouTube o que motivara a onda lacrimejante. Valter Hugo Mãe leu uma espécie de redacção emotiva sobre a sua relação com o Brasil numa terra portuguesa. Foi humilde e falou de um passado de pobrezinho. Chorou e foi aplaudido de pé. Estava grato por estar ali e quis retribuir com lágrimas. Expôs um episódio da sua infância, falou das irmãs e conquistou o público porque é assim que se conquista a multidão que está para ali virada. Teve sucesso porque tudo o que é autobiográfico e puxa à lágrima é bem recebido. Assim é nesta era de solidão. Para uma sensibilidade austera, os abusos de autobiografia e choro são repugnantes. Só toleráveis em escritores velhos e de enorme talento. O tsunami Mãe não me convenceu.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 29-7-11

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publicado às 14:07