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Parentes

por Carla Hilário Quevedo, em 23.08.11

Em Portugal somos todos primos. Basta levar a conversa para a genealogia e depressa encontramos um primo de um primo casado com a prima de um primo do nosso primo. E pronto. A qualidade de primicidade é tão desvalorizada como a de ser tia ou tio. Em geral, os tios são os amigos dos pais que conhecemos de pequeninos. A familiarização portuguesa não tem nada de mal. Mas os que são realmente nossos tios e primos deviam ficar ofendidos com os títulos oferecidos às pessoas que não têm laços de sangue autênticos connosco. Por outro lado, a banalização parental é carinhosa para os intrusos dilectos das famílias. É uma forma de lhes dizermos que deviam ser nossos parentes. Há ainda outro lado preguiçoso deste costume. Porque é que a filha da minha prima é minha prima também? A lógica hierárquica familiar devia condenar a rapariga a ser minha sobrinha e pronto. Outro efeito secundário dos laços de parentesco artificiais é uma tia verdadeira não poder partilhar o seu cargo com uma tia ad honorem e, nalguns casos, pro bono. Há dias uma muito querida tia minha olhou para mim e disse: «Tu és a filha do meu irmão». E não é que fiquei comovida com a revelação?

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 19-8-11

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publicado às 18:54