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Dor de Cabeça: Liberdade individual

por Carla Hilário Quevedo, em 09.09.11

Foi uma surpresa quando a Ana entregou a carta de demissão no supermercado onde trabalhava. O chefe não queria acreditar. O grupo de raparigas que geria ficou desorientado. «Viam-me como um ídolo e eu não queria ser ídolo nenhum. Queria que pensassem por elas próprias», disse-me quando lhe pedi que me contasse o que a tinha levado a abrir um lugar de fruta. O lugar é concorrido sobretudo por causa da qualidade excelente dos produtos. Quando os clientes têm braços fracos para levar as compras e moram perto, a Ana arranja maneira de entregar a encomenda em casa. Tem multibanco, porque sabe que as pessoas gostam de pagar com cartão. Sabe que o cliente está primeiro, porque desde os dezoito anos que trabalha nesta área. Não foi só a experiência que lhe deu segurança para mudar aos 28 anos. «Estava cansada da minha vida», admitiu. Andava sobrecarregada de trabalho, o seu esforço não era reconhecido, e ainda aturava os mexericos das raparigas, aborrecidamente mais interessadas em falar da vida alheia do que em cuidar da vida própria. «Tenho de gostar de mim e fazer aquilo de que gosto», concluiu há quatro anos. A aventura de abrir o lugar compensou porque tem o dia-a-dia que sonhou para si. Tem tempo para estar sozinha e com os outros, para gostar de si própria, dar dois dedos de conversa com as pessoas que ali vão, «observar os passarinhos nas árvores» se lhe apetecer. Aos 32 anos, a Ana tem o quotidiano doce que escolheu e pelo qual lutou. Não foi um mar de rosas até chegar à paz desejada, mas sabia que valia a pena, porque o seu objectivo era o mais nobre: ser feliz. Confesso que quando lhe pedi para me contar a sua história, não estava à espera de um diamante destes. Imaginara que tinha aberto o negócio por uma urgência prática da vida, o que seria admirável. A Ana, porém, deu um passo que poucos dão: entre a infelicidade da certeza pequena e o desconhecido, decidiu apostar nas suas capacidades para viver a sua vida. Mesmo que não queira, a Ana é inspiradora. Feliz, sem colegas nem chefes ingratos. Mas não sozinha.

 

Publicado hoje no Metro.

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publicado às 18:29