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Dor de Cabeça: A favor da proibição

por Carla Hilário Quevedo, em 21.10.11

Vi há dias na zona do Campo Pequeno, em Lisboa, um grupo de rapazes e raparigas de caras pintadas, uns vestidos à civil, outros com trajes académicos. Pensei que, curiosamente, estavam no sítio adequado, ali perto da praça de touros, e, por instantes, a temperatura invulgar para a época até me levou ao engano de pensar que o ano começara agora. Mas o início das aulas foi há quase um mês. No entanto, tenho a ideia de que as praxes se estendem no tempo como nunca antes aconteceu. O caso mais flagrante parece ser o da Universidade do Minho, que consegue cometer a proeza de ter praxados durante o ano lectivo inteiro. Este ano, nas primeiras semanas de praxe, os abusos cometidos levaram o reitor da Universidade, António Cunha, a intervir através de uma circular em que «exorta os estudantes da Universidade a que pugnem pelos valores da liberdade, do respeito e da dignidade humana, pelo que se deverão opor activamente a práticas que os ponham em causa, seja nos espaços da Universidade seja no seu exterior». Segundo o Público, na mesma circular, a Universidade do Minho «condena veementemente todas as situações de violência física ou psicológica, coação, abusos e humilhações». Condena mas não proíbe. E se não proíbe, não há nenhuma razão para não continuar com práticas que vão do simples ridículo de sujar a cara de pessoas com tinta ou batom ao abuso de práticas ofensivas e humilhantes, psicológicas e físicas. Ao contrário do que se pensa, as praxes não incluem ninguém na escola. São só uma tradição estúpida e violenta disfarçada de companheirismo estudantil. Agora que temos indignados por tudo e por nada, era giro assistirmos a uma revolta dos caloiros contra os tolos do segundo ano. Não tendo sido sujeita a uma praxe violenta (umas pinturas na cara e pronto), vi bem na altura a boçalidade dos mais velhos e o pavor dos novos. No ano seguinte, não quis participar em nenhuma actividade relacionada com caloiros. Mas houve quem quisesse perder tempo a atormentar o próximo. Porque há sempre. E é por isso que as praxes devem ser proibidas já.

 

Publicado hoje no Metro.

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publicado às 19:51