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Sentimentalismo machista

por Carla Hilário Quevedo, em 22.11.11

As declarações emotivas do Bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, sobre a Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz não devem ser remetidas ao esquecimento como se fossem um fait-divers igual a outros. Ficámos a saber que o bastonário crê que a ministra «não gosta» dele, o que, segundo o próprio, não tem mal nenhum, porque ele «também não gosta dela». A escolha do vocabulário é curiosa e reveladora de um certo modo de lidar com o sexo feminino. Sabemos que não diria o mesmo se fosse um homem a ocupar o cargo. «O Alberto Martins não gosta de mim, mas eu também não gosto dele» não dá, pois não? Lembremos que no dia anterior, Marinho Pinto tinha sido deixado a barafustar no final de uma cerimónia de onde Paula Teixeira da Cruz saiu sem avisar. A quebra de protocolo foi interpretada pelo homem que preside à Ordem como uma afronta da parte de uma mulher que assumiu a pasta da Justiça. Há nas posteriores queixas e chamadas de atenção para os erros terríveis que «ela» terá cometido ecos ruidosos de milhares de anos de homens a mandar e mulheres a obedecer. Há machismo e ego magoado nas declarações do bastonário. O amor já se exprimiu de maneiras mais estranhas.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 18-11-11

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publicado às 16:57