Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



...

por Carla Hilário Quevedo, em 21.01.04
Problemas técnicos



Sei que o post em baixo tem gralhas, mas não me é possível editá-lo. Sempre que o tento fazer, os caracteres gregos transformam-se em números e os linques desaparecem. As gralhas terão de lá ficar.



Entretanto no arquivo de Kavafis está a palavra mavís como azul em todas as línguas que possam imaginar. O único problema é que no dicionário da Oxford de grego-inglês a cor indicada para mavís (infelizmente, não consigo escrever com caracteres gregos no blogue) é malva, que é precisamente um tom púrpura. Azul, roxo ou púrpura, parece-me interessante saber o que é mas não me parece que altere o sentido da frase. Também no mesmo arquivo está a explicação para pos, que será uma conjunção e não uma preposição. Aqui tem toda a razão e o erro é meu. Pos é de facto a conjunção "que". No entanto, "e que me engane que vejo isto" parece-me mais próximo do original, embora possa perder um pouco o ritmo. Agora precisa de ficar na gaveta para daqui a uns meses ver no que deu. Daqui a uns meses, a tradução será provavelmente outra.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:13

...

por Carla Hilário Quevedo, em 21.01.04
Pesadelo De Post (ou As Minhas Desculpas Pelo Aborrecimento) - como se não fosse pouco, revisto e aumentado.



O Abrupto publicou há dias um poema de Konstandinos Kavafis, intitulado Mar da Manhã. Com o original em grego postou também uma tradução do Roger Sulis. Eu disse que não gostei da tradução e como entrei numa fase irreversível (um contrasenso?) de acreditar que os gostos se discutem, passo então a dissecar o poeminha (sugnómi, Kavafi, agapi mou) e a mostrar que gosto mais da tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis porque me parece mais próxima do original e, para mim, melhor.



ΘΑΛΑΣΣΑ ΤΟΥ ΠΡΩΙΟΥ

[Aqui não há nada que enganar: thalassa está no caso nominativo e significa mar (pensem em talassoterapia) e tou proiou está no genitivo, um caso que existe em grego e noutras línguas como o alemão e que indica posse. Os casos em que se encontram as palavras definem a sua posição na frase (que neste caso é o mesmo) e assim temos mar da manhã. Mas não temos mar pela manhã, como já li algures. Aqui não há nenhuma preposição.]



Εδώ ας σταθώ. Κι ας δω κ' εγώ την φύσι λίγο.

[Εδώ significa aqui e ας σταθώ está num tempo estranho que se chama protreptikó (porque é que disseste optativo, Roger? Será um arcaismo em Kavafis? Talvez, mas a tradução do optativo é então mesmo pelo conjuntivo independente) e que é um tempo que exprime desejo e exortação, daí me parecer mais interessante traduzi-lo pelo conjuntivo independente, uma vez que este exprime um anelo; um desejo ardente por algo. Que eu me detenha aqui parece-me então uma opção melhor do que hei-de deter-me aqui, precisamente pelo grau de certeza que implica. "Que eu faça" não é a mesma coisa que "hei-de fazer". Na segunda frase, há uma intenção forte de fazer, na primeira um desejo grande de fazer. O tom também me parece importante: que eu me detenha é pacífico, quase pede um "Deus queira" atrás porque não depende de mim. Pelo contrário no "hei-de deter-me" vejo um dedo em riste e quase pede um "contra tudo e contra todos". É diferente. Se optamos pelo conjuntivo independente como tradução, então teremos de continuar assim e traduzir as thó por "que eu veja". Aqui prefiro também o verbo ver (δω de vlépo) ao contemplar utilizado por Sulis. A tradução a Κι ας δω κ' εγώ την φύσι λίγο é literal em JMM e NP: "E que também eu veja um pouco a natureza".]



Θάλασσας του πρωιού κι ανέφελου ουρανού

[Esta frase está toda no genitivo o que leva à tradução "de um mar da manhã e de um cáu sem nuvens". Compreendo a tradução de Sulis porque realmente o artigo indefinido não está lá. Mas será sempre o mar o da manhã e veremos sempre o céu sem nuvens? Além de o título do poema não ser "o mar da manhã". Não é sempre o mesmo mar; é aquele daquela manhã - um mar qualquer de uma manhã qualquer - que interessa.]



λαμπρά μαβιά, και κίτρινη όχθη, όλα

[Percebo o recurso à muleta da palavra "cores" na tradução de JMM. Parece que falta alguma coisa em λαμπρά μαβιά (roxos brilhantes - mávi pode ser roxo, púrpura ou talvez aquele tom mais acastanhado quase bordeaux, mas não azul. Suponho que seja o resultado da mistura entre a margem amarela e o céu azul sem nuvens. Não podemos esquecer que é de manhã. Ora όλα (neutro, plural - significa tudo) concordará com os adjectivos que se seguem.]



ωραία και μεγάλα φωτισμένα.

[Tudo, dizia, belo (ωραία) e grande (μεγάλα) iluminado (φωτισμένα). Sulis propoe que se trate μεγάλα como advérbio de modo. É possível porque os advérbios de modo e os adjectivos neutros neutros plurais têm a mesma terminação. Mas grandiosamente não me parece bem. Não serão o céu e o mar suficientemente grandes? Na verdade entendo a frase desta maneira: όλα φωτισμένα, ωραία και μεγάλα. Ou seja, tudo iluminado, belo e grande.]



Εδώ ας σταθώ. Κι ας γελασθώ πως βλέπω αυτά

[Já expliquei a tradução da primeira frase em cima. A tradução da frase Κι ας γελασθώ πως βλέπω αυτά parece-me mais bem conseguida por JMM e NP. Mais uma vez, trata-se de uma interpretação à letra: "e que me engane para ver isto". A palavra πως é a preposição para e αυτά significa isto; ou seja, isto tudo belo, iluminado e grande.]



(τα είδ' αλήθεια μια στιγμή σαν πρωτοστάθηκα)

[Aqui prefiro a tradução de JMM e de NP por uma questão que diz respeito aos diferentes usos da língua portuguesa em Portugal e no Brasil. JMM e NP insistem na palavra isto porque τα é o artigo definido neutro plural que concorda com o όλα (tudo) que vem lá de trás e o belo e o grande e o iluminado; isto que aqui vejo.]



κι όχι κ' εδώ τες φαντασίες μου,

[A frase anterior estava entre parêntesis, o que significa que teremos de voltar um nadinha atrás. Tínhamos "e que me engane para ver isto" (isto do céu e do mar e da natureza etc.) "e não aqui também os meus devaneios". Aqui percebo a tradução "fantasias" de Sulis, embora me pareça que "devaneios" seja mais neutro. As fantasias estão muitas vezes ligadas à sexualidade e não me parece que seja esse, aqui, o caso.]



τες αναμνήσεις μου, τα ινδάλματα της ηδονής.

[A frase continua com o acusativo τες (complemento directo), como em cima e parece-me pacífico: "as minhas recordações". Mas o que se segue já não. Prefiro como traduço, "as ilusões do prazer", que não está nem numa nem na outra tradção. Se bem que volúpia não é mal pensado. A palavra ηδονή é uma daquelas que mete respeito. Estão a ver "hedonismo"? Pois lá está. Prazer, em grego que os gregos saibam é euxarístisis. Esta palavra entra numa competição mais avançada. Volúpia tem o significado de "prazer dos sentidos"; um significado mais "físico" e que, aqui sim, faz sentido.]



E pronto. Que me desculpe o Roger Sulis (desejo ardente, conjuntivo e coisa e tal) por ter sido um pouco seca e infantil. É que é sempre mais fácil recusar alguma coisa que não nos parece boa ou certa (ou ambas que talvez sejam a mesma) sem explicarmos porque achamos isso. Quanto ao Jorge de Sena e à Marguerite Yourcenar e... olhem, tenham pena de mim.



[O Absorto e o Quartzo, Feldspato e Mica também se referem a este poema de Kavafis.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:06

...

por Carla Hilário Quevedo, em 20.01.04
Ainda em conversa com a minha querida Ana, do Modus Vivendi, e sobre a misoginia, lembrei-me do que disse a esse respeito a pitonisa da contemporaneidade, Madonna: "I hate men who hate women... I hate people who hate... I... oh, well." Uma vez católica sempre católica.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:34

...

por Carla Hilário Quevedo, em 20.01.04
A minha querida Ana, autora do sempre belo Modus Vivendi (mesmo com o nome Justin Timberlake lá escrito... olha também já está aqui, pronto), dedica-me um post que não mereço (hoje acordei assim... tipo pobre criatura humilde). Sinto-me como se tivesse um tapete púrpura estendido à minha frente, consciente de que se o pisar estarei a cometer o pecado da hybris. And we know what that means. Obrigada, Ana. Mandei que se recolhesse o tapete.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:30

...

por Carla Hilário Quevedo, em 19.01.04
Prometeu, na peça Prometeu Agrilhoado, de Ésquilo diz: "O tempo, envelhecendo, tudo ensina". É preciso não esquecer que Prometeu (o semideus que roubou o fogo dos deuses a Hefesto e o deu aos homens, fazendo com que estes conhecessem as artes) está no momento em que diz isto, agrilhoado num desfiladeiro com o figado a ser comido por uma águia e que sabe que aí ficará durante trinta milénios, altura em que Hércules chegará para matar a cabra da águia. Mas voltando à frase. Alguém acredita nisso? Sim, em princípio, a frase é sábia. O problema é que naquela altura, e dadas as circunstâncias, não me é possível acreditar naquelas palavras.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:32

...

por Carla Hilário Quevedo, em 19.01.04
Enviei à correspondente do bomba em Pequim um exemplar do livro do Pipi. Recebo agora notícias de que o pacote chegou intacto e que o exemplar está neste momento escondido por trás de um tijolo solto na parede da casa. É que as autoridades chinesas proibiram a série Friends por ter demasiadas cenas de sexo. One cannot be too careful.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:17

...

por Carla Hilário Quevedo, em 19.01.04
Fica desde já prometida ao Roger Miguel Sulis, coordenador do arquivo de Kavafis, e ao José Pacheco Pereira uma justificação para o meu desagrado quanto à tradução do poema de Kavafis publicada no arquivo e no Abrupto. Preciso de tempo para escrever esse post. Até já.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:14

...

por Carla Hilário Quevedo, em 18.01.04
Etimologia hebdomadária



A partir de hoje, aos domingos, passarei a escolher uma palavrinha e a dissecá-la convenientemente aqui à vista de todos. Assim, organizo a minha pobre cabeça e também vou aprendendo umas coisas, porque, como diz o povo, "o saber não ocupa lugar".



A palavra de hoje é misoginia. Mísos significa ódio (favor não confundir com misós, meio) em grego e esse ginia é tiradinho de yúnis (o "y" lê-se guê, mas mais gutural), que significa mulher em grego antigo. A palavra misoyúnis, ou misógino, vem registada no dicionário como tendo sido inicialmente utilizada (escrita) por Estrabão, que, muito sinceramente, era um grande chato (para confirmar, é favor passarem os olhos por qualquer um dos volumes da Geografia). Curioso é vermos que a palavra se mantém praticamente igual na sua grafia (à excepção de um acento no "i" inicial que cai em grego moderno). Já há odiadores de mulheres há muitos séculos, ah pois há. E não se prevê que desapareçam tão cedo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:58

...

por Carla Hilário Quevedo, em 18.01.04
Na Cicciolina



A Toscana (mais conhecida cá em casa por Cicciolina), em Alcântara, é um dos meus restaurantes favoritos. Sempre que lá vou, como muito e muito bem e, sobretudo, divirto-me. Tudo por causa do Sr. Carlos, o empregado da tasca.



O Sr. Carlos refez a ementa do restaurante. Trata-se de uma ementa só dele, que corresponde àquela lida por nós, mas que na cabeça dele está traduzida de outra maneira. Assim, quando chegam quatro pessoas para almoçar naquele cubículo, o Sr. Carlos anuncia uma "mesa para quarenta pessoas". Quem não conhece a peça, estranha mas não deixa de sorrir. E o delírio continua, chegam duas, ou, segundo o Sr. Carlos, chegam vinte; chegam três que se tornam trinta e chega uma que depressa se vê transformada em dez. O mesmo se aplica às bicas que se pedem ou às águas. "Saem dez Sousa Cintra" ou "é uma carga de vinho da casa" é a quantidade habitual quando falamos de um almoço para duas pessoas... para vinte, diz o Sr. Carlos.



Mas o Sr. Carlos não fica por aqui. As frases "dá aí um bocadinho de grelo para o senhor doutor" e "calma, que o rabo do senhor doutor já está a cozer", sendo esta logo seguida de "calma, o rabo do peixe que o senhor doutor vai comer" (porque há quem não ache graça nenhuma à brincadeira) podem ser ditas vinte vezes que rio-me sempre que as ouço. "Já vai de avião" quer dizer que a comida está a chegar, mas a variante "está a vestir-se" para a comida que tarda a chegar parece-me deliciosa.



Mas as regras do jogo são para serem cumpridas. Nada de pedir uma cicciolina em vez de uma bica curta, mesmo que conheçamos a linguagem do Sr. Carlos. Ele é que traduz; nós damos o original.



Na fila esperamos pela nossa vez, atrás está uma senhora de uns 70 anos e mais atrás uma rapariga grávida. Para o Sr. Carlos na fila, no que diz respeito às mulheres, estão "ora, um borrachinho [eu], um borrachão [a senhora de 70 anos] e um borrachinho e meio [a rapariga grávida]". O Sr. Carlos é imparável.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:09

...

por Carla Hilário Quevedo, em 17.01.04
Quando Orestes nas Euménides diz, "(...) o tempo, envelhecendo, tudo apaga", não é credível. Orestes será julgado pelo crime de matar a mãe, Clitemnestra, como vingança por esta ter morto o pai, Agamémnon, que, por sua vez foi assassinado pela mulher por ter sacrificado a filha de ambos, Ifigénia and so on, and so on. Oráculos à mistura, o destino que não se contradiz e muitos equívocos depois, Orestes diz aquela frase e eu não acredito nele. E é curioso que uma frase agora considerada como feita, naquele momento dita por aquela personagem, não tenha peso nenhum.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:33

...

por Carla Hilário Quevedo, em 17.01.04
Não vou ao cinema. O último filme que vi no cinema foi... não me lembro. Mas tenho a rotina semanal de alugar DVDs. Ontem vi A Secretária com James Spader (excelente) e Maggie Gyllenhaal (genial). Trata-se de uma versão romântica, inteligente e bem-humorada do sadomasoquismo. Atrevo-me a aconselhá-lo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:14

...

por Carla Hilário Quevedo, em 17.01.04
Are you talkin' to me?



O caríssimo José Pacheco Pereira citou um poema de Konstandinos Kavafis e teve a gentileza de o postar em grego. A tradução é má. Joaquim Manuel Magalhães fez muito melhor com a ajuda do grego Nikos Pratsinis. Segue a tradução de JMM e de NP e um comentário meu.



MAR DA MANHÃ



Que eu me detenha aqui. E que também eu veja um pouco a natureza.

De um mar da manhã e de um céu sem nuvens

roxas cores brilhantes e margem amarela; tudo

belo e grande iluminado.



Que eu me detenha aqui. E que me engane para ver isto

(vi de verdade isto por um instante quando primeiro me detive);

e não aqui também os meus devaneios,

as minhas recordações, os modelos da volúpia.



O "hei-de deter-me" além de feio não está certo porque, mais do que um desejo (expresso em as stathó), implica uma quase certeza do que se passará. Neste poema, há um desejo por algo que não depende de nós e não uma vontade de algo que depende de nós. Peço-vos que acreditem que esta tradução é impecável. Não tem uma única falha.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:33

...

por Carla Hilário Quevedo, em 13.01.04
My own private Molly Bloom



e a maluca doida varrida que vem a correr a correr até sempre às cinco da tarde às cinco em ponto e nem sequer é para dar um passeio e desata aos saltos na cozinha todos os dias é sempre mais para o fim da tarde o mesmo precisa de ser amada é como a angústia da mulher da frente que mais para o fim da tarde começa numa choraminguice e que quer o filho e ali fica até só conseguir soluçar porque a tristeza também precisa de esforço e de força física como a daquela que me encheu a varanda de ovos uma vez é forte comó caraças toda ela grande como a solidão em que vive e aquilo foi ao fim da tarde para ver se era amada porque o fim da tarde é tremendo para as pessoas é tremendo é a hora em que nos apercebemos do que somos é a hora dos meios valiuns para conseguir aguentar o resto seja ele qual for é a hora em que começa a berraria a correria a choradeira sempre quando o dia de repente muda e não devia

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:10

...

por Carla Hilário Quevedo, em 12.01.04
A blogosfera voltou a ser o que era: posts insultuosos, ressabiados despudorados em posição de ataque aos teclados, ódios de olhos semicerrados, invejas ao rubro, inimizades por quem nunca se viu mais magro e ainda bem. Enfim, o lamaçal do costume. Maldito Natal que até a blogosfera apazigua. Já tinha saudades, diacho.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:37

...

por Carla Hilário Quevedo, em 12.01.04
Leio por aqui e por ali recomendações de livros. Parece-me sempre uma actividade perigosa, um bocadinho como receitar aspirinas a asmáticos: uns são muito alérgicos, outros já foram, outros nem por isso. A única vez em que aconselhei um livro, a Oresteia, deixaram de me falar. Nunca mais me meti nisso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:31