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The perfect woman. - The perfect woman is a higher type of human being than the perfect man: also something much rarer. - The natural science of the animals offers a means of demonstrating the truth of this proposition.
Friedrich Nietzsche, Human, All Too Human: A Book For Free Spirits, translated by R. J. Hollingdale, Cambridge University Press, 1996, p. 150.
A partir de uma reportagem de Clara Viana no Público ficámos a saber que, no mundo ocidental civilizado, são os rapazes os que hoje em dia mais abandonam a escola. De acordo com investigadores portugueses, ingleses e norte-americanos, o fenómeno acontece por causa da intolerância do sistema educativo em relação ao mau comportamento. Os rapazes, por norma irrequietos e estroinas, estarão assim a ser penalizados pela escola, que perdeu a paciência para os problemas disciplinares e passou a privilegiar a dedicação e a tranquilidade femininas. O mau comportamento reflecte-se nas notas e o bom comportamento ajuda à concentração. O mal não está, portanto, nas raparigas. Resta saber se haverá um mal nos rapazes, ou se não fará parte da natureza hormonal masculina uma certa parvoeira. Descrever as diferenças entre os sexos também passa por estas generalizações. Os rapazes a correr e as meninas a saltar. É diferente. As diferenças biológicas, que fazem parte integrante da espécie humana, em vez de serem encaradas com naturalidade, continuam a ser lembradas como pontos negativos em discussões infrutíferas sobre quem é melhor e em quê. Um presente em que tantas mulheres são discriminadas por serem mulheres é um mau presente. Um futuro em que os rapazes ficam para trás por serem rapazes não é um bom futuro. Nem para os homens nem para as mulheres. Um mundo de mulheres, só com mulheres, feito só para mulheres é um pesadelo para qualquer mulher. Por isso quem vai salvar os homens deste descalabro vão ser as mulheres, que não vão correr o risco de perder o que tanto custou a conquistar. Uma geração de homens sem qualificações é o pior que pode acontecer às melhores alunas. No limite, a convivência entre os sexos não será possível. As raparigas subiram a fasquia e fizeram muito bem. Agora há que estimular a competitividade nos rapazes e não deixar que cedam à preguiça ou ao medo. Existe uma inteligência feminina e uma inteligência masculina? As mulheres são mais competentes que os homens?
Publicado hoje no Metro. Deixe a sua opinião através do

William Hogarth, Characters and Caricaturas, April 1743, etching and engraving on paper, 261 x 205 mm. Tate Britain.
The worst it got was near the end. A lot of people died right at the end, and I didn't know if I could make it another day. A farmer, a Russian, God bless him, he saw my condition, and he went into his house and came out with a piece of meat for me.
- He saved your life.
- I didn't eat it.
- You didn't eat it?
- It was pork. I wouldn't eat pork.
- Why?
- What do you mean why?
- What, because it wasn't kosher?
- Of course.
- But not even to save your life?
- If nothing matters, there's nothing to save.
Jonathan Safran Foer, Eating Animals, Penguin Books, 2009, pp. 16-17.
Tenho andado a pensar no filme de Haneke. Não sei se a capacidade de discernimento do Pastor o redime da sua crueldade. Mas há qualquer coisa nesta figura que não me parece tão demoníaca quanto, por exemplo, a do médico. Mas depois há aquele bilhete... Vou ver o filme outra vez.
Em Maio do ano passado, O laço branco (no original, Das weisse Band), do realizador alemão Michael Haneke, fora premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Agora venceu o Globo de Ouro para o Melhor Filme Estrangeiro. Está em exibição nas salas de cinema portuguesas e recomendo-o, mesmo a almas sensíveis. Numa aldeia do Norte da Alemanha, pouco antes do início da Primeira Guerra Mundial, algumas pessoas inocentes e bondosas tentam sobreviver num meio de inveja e maldade. Entre as figuras meigas temos o Professor, a ama de Sigi, a Baronesa e as crianças mais pequenas, alvos preferenciais dos mais velhos. O pastor luterano, que educa os filhos com autoritarismo, acaba por ser uma figura ambígua, pois, apesar da rispidez, é capaz de se comover com o filho mais novo, além de se aperceber da maldade da filha mais velha. Muito curiosa neste filme de Haneke é a atribuição de virtudes à aristocracia (a baronesa) e de vícios a profissões incontestáveis e às crianças, sempre tidas como inocentes (o médico, a própria parteira e os filhos mais velhos das famílias dos criados). Que pena Michael Haneke não ter contado um bocadinho mais.
Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 22-1-10

Allison Harvard
... e a décima segunda temporada do meu programa favorito, America's Next Top Model, chegou ao fim. A vencedora não surpreendeu, e esteve bem, mas quem podia ter ganho era a freak dos olhões grandes com ar de lémur, que aqui apresento numa das boas fotografias do concurso. Ficou em segundo lugar, e a final foi bastante renhida. Não havia nada de especial a distinguir as duas candidatas. Eram, alías, estranhamente parecidas, apesar de tão diferentes. Parecia até que se complementavam. Mas Teyona Anderson, a vencedora, queria mais ganhar. Nas palavras imortais do júri: "She wanted it more". Queria, de facto. A insegurança de Allison paralisou qualquer ambição que pudesse ter a partir de um certo momento do programa. Como se acreditasse que não merecia ganhar. Esta falta de confiança (que se confunde com medo) foi penalizada no final. E bem. A falta de confiança em si próprio, quando se é bom, não deve ser elogiada, muito menos premiada. Na América é simples: tens um ar diferente e doce, tiras boas fotografias, és uma boa modelo, mas não ganhas o concurso porque te escondeste e não lutaste por isto. A decisão foi justa.
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Motive of attack. - One attacks someone not only so as to harm him or to overpower him but perhaps only so as to learn how strong he is.
Friedrich Nietzsche, Human, All Too Human: A Book For Free Spirits, translated by R. J. Hollingdale, Cambridge University Press, 1996, p. 138.
O tremor de terra no Haiti e a situação calamitosa em que o país se encontra têm ocupado os noticiários e as páginas dos jornais. A tragédia que aconteceu neste país miserável, sem meios para reagir à calamidade, sem hospitais nem medicamentos, nem conhecimento para resolver situações médicas graves, comoveu o mundo. É natural e é bom que assim seja. Histórias de famílias inteiras desaparecidas, relatos de crianças que se vêem de repente sozinhas no mundo, crónicas de médicos portugueses que pedem dispensa das aulas para poder ir ajudar as vítimas do sismo, notícias de bebés que entretanto nascem alheias ao desastre, tudo isto tem interesse jornalístico. Não se pretende do jornalismo que seja mecânico. É natural e positivo que os jornalistas presentes no Haiti se comovam perante aquilo que vêem. Cada um terá a sua maneira de relatar o que vê, mas não é possível – e ainda menos aconselhável – que neste caso extremo haja uma preocupação em conter lágrimas e medir muito as palavras. O que se passa neste momento naquele sítio do planeta só será indiferente a uma minoria. Desde a mera perplexidade sobre a má sorte daquele país desgraçado até aos donativos das estrelas de Hollywood para ajudar na fatalidade, nos últimos dias as vítimas do Haiti ficaram mais próximas de um mundo globalizado e habitualmente indiferente à má sorte alheia. Esta proximidade acontece sobretudo por causa das reportagens televisivas. Vivemos num mundo cada vez mais feito de imagens, que substituíram os relatos outrora feitos apenas por escrito. Se por um lado há um efeito perverso, que faz com que as pessoas achem que se um acontecimento não for transmitido pela televisão, então não existiu, também o facto de podermos ver as tragédias em directo, quer sejam guerras ou desastres naturais, impede que fechemos os olhos e dificulta a indiferença. É ou não correcto mostrar imagens chocantes das calamidades? Precisamos de imagens para compreender o sofrimento?
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Jennifer Garner adora Versace e já viu Das weisse Band.