Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 19.03.11

Louise Brooks

 

... uma das maiores qualidade do maradona é dizer na cara da pessoa que aquilo que lhe está a contar não lhe serve para nada. As más histórias devem ser apontadas como sendo inúteis, os momentos constrangedores simplesmente apagados, e as histórias fracas devem ser consideradas fracas em voz alta: «Podias ter contado isso melhor» ou «Isso não é assim tão bom como pensas». Quando o maradona diz que a história contada não lhe serve, não acrescenta nada ao mundo, e que, enfim, mais valia termos optado pelo silêncio, os interlocutores são chamados a pensar sobre a sua incompetência. É que o maradona é um editor das conversas em tempo real: uma profissão que poucos podem ter. A outra qualidade tem que ver com a sua persistência em encontrar a melhor explicação para um problema aparentemente insolúvel ou, enfim, bastante misterioso. «Peço desculpa», mas só me lembro de uma palavra em inglês que caracteriza esta qualidade: relentless. Esta impiedade persistente (não é bem isto) é, no entanto, dos ânimos que interessam na vida. A terceira qualidade consiste em não prestar demasiada atenção ao que acabo de escrever. O maradona sabe que falar sobre o próximo é um acto de liberdade, e que quem o pratica deve ser deixado em paz com as suas descrições. Qualquer tentativa de esclarecimento pelo visado é pura manipulação. Como se a personagem se queixasse ao autor de não ter sido compreendida. A terceira qualidade não colide com a primeira. E esta é a quarta qualidade do maradona.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:48

Rádio Blogue: Japão

por Carla Hilário Quevedo, em 18.03.11

(A Grande Onda de Kanagawa, de Katsushika Hokusai, 1830-3) «Espero, do fundo do meu coração, que as pessoas dêem as mãos e se tratem com compaixão e que consigam ultrapassar estes tempos difíceis.» As palavras são do Imperador Akihito, que numa mensagem televisiva ao seu povo se mostrou muito preocupado com o número de vítimas que aumenta de dia para dia. O sismo e o tsunami que assolaram o Japão nos últimos dias terão feito até agora dez mil mortos e ainda milhares de desaparecidos. Uma catástrofe nuclear parece estar próxima, após as explosões e os incêndios na central de Fukushima. Perante este terrível acontecimento de consequências devastadoras para o país, a população tem um comportamento que nos espanta e que, de alguma maneira, consideramos admirável. As imagens que nos chegaram do sismo em Tóquio, filmadas com câmaras de telemóveis, mostravam pessoas estáticas perante a terra a abanar violentamente. Num supermercado, algumas tentavam segurar nos produtos que caíam das prateleiras. Num escritório, os funcionários estavam parados, à espera que aquilo passasse. Apesar do abalo muito forte, pareciam estar habituados a imprevistos. Depois do sismo, não se viu pânico pelas ruas. Uns estavam aliviados por terem sobrevivido. Outros procuravam os nomes dos familiares nas listas de pessoas resgatadas e protegidas em abrigos. Outros agradeciam por ainda terem a lua e as estrelas que brilhavam para ver à noite. Ninguém pilhou a propriedade de ninguém. Em vez do saque, os japoneses optaram pela ajuda mútua num momento difícil e de dor. Se este comportamento é uma questão cultural, isto significa que mais ninguém pode ser assim? A conduta do povo japonês é exemplar ou esquisita?

 

Publicado hoje, no Metro. Deixe a sua opinião através do 21 351 05 90 ou no Jazza-me Muito. Os comentários que chegarem até quinta-feira, dia 24 de Março, às 15h, vão para o ar, na Rádio Europa, na sexta, dia 25, às 10h35.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:25

Must be a reason

por Carla Hilário Quevedo, em 18.03.11

Why I'm making examples of you

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:20

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 17.03.11

Uma Thurman

 

... um cérebro comentadeiro disse há dias na televisão que a gravidade da crise em Portugal não se compara à gravidade dos acontecimentos no Japão. Olha, duh!, é a minha reacção a estas palavras. A mania de comparar o incomparável dá nisto. O que se pretende ao minimizar a situação portuguesa face à desgraça do fim do mundo a Oriente? A comparação é insultosa para o Japão, e também não nos coloca numa posição adequada. Cada país tem os problemas que tem. Não deixam de ser menos graves para quem os sofre. Claro que podíamos viver nos arredores de Fukushima. Ou podíamos estar todos mortos. Mas parece que ainda não chegou a hora, por isso mais vale ir trabalhar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:01

Saudades das más

por Carla Hilário Quevedo, em 15.03.11

Provavelmente a última femme fatale: Kathleen Turner, em Body Heat

 

Na revista Obit, Kevin Nance queixa-se da extinção da femme fatale no cinema americano. Com amarga ironia, insinua que o mais parecido com uma mulher vingativa e manipuladora que tivemos nos filmes candidatos aos Óscares foi Matie Ross, a menina de 14 anos, de True Grit, interpretada por Hailee Steinfeld. É certo que já não vemos mulheres belas e amorais como dantes. A misoginia foi canalizada de outra maneira, assim como a maldade deixou, a pouco e pouco, de ter um nome de mulher, talvez por receio de retaliações feministas. No entanto, Nance lembra que o modelo da mulher independente, que resistia a ser uma vítima, era representado pela femme fatale de policiais extraordinários. Belas, insolentes e, acima de tudo, determinadas a conseguir o que queriam, eram irresistíveis, não só para os homens, que eram ludibriados por elas, mas também para o público, que torcia por elas e ansiava por que a história acabasse bem. Ou melhor, mal para todos os outros. Talvez seja tarde para repetir estes demónios de olhos angelicais e pernas que não acabavam. Agora, as raparigas só choram e sofrem e sofrem e choram. Ou matam com golpes de karaté. Uma seca.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 11-3-11

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:51

You know I know how

por Carla Hilário Quevedo, em 15.03.11

To make 'em stop and stare as I zone out

The club can't even handle me right now

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:46

Os novos doadores

por Carla Hilário Quevedo, em 15.03.11

Li um artigo perturbador no New York Times, de Christian Longo, um prisioneiro no corredor da morte da prisão estatal do Oregon. Longo matou a mulher e os três filhos. Tem 37 anos e está há oito à espera de ser executado. O tempo serviu para negar o que fizera, tentar enganar os outros sobre o que fizera, reconhecer o seu crime hediondo e cancelar os pedidos de perdão da pena. Longo aceita que tem de morrer pelo crime que cometeu e pede que seja cumprido um último pedido: quer doar os seus órgãos. O pedido foi recusado pelas autoridades prisionais, apesar de não haver nenhuma lei que o proíba. As três drogas nas injecções letais danificam permanentemente os órgãos. Mas não acontece assim em todos os estados. No Ohio ou em Washington, é usada uma quantidade maior de um barbitúrico forte, que não tem esta acção destruidora. É desconcertante que um condenado à morte sugira uma maneira menos intoxicante de morrer, com a intenção de salvar vidas anónimas. Outros condenados à morte acompanham Longo no seu pedido e nenhum pede alterações à pena. Visto que uma boa acção não compensa outra má, por que não aceitar a doação? Não os vai salvar do inferno.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 11-3-11

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:42

...

por Carla Hilário Quevedo, em 12.03.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:51

Os virginianos não acreditam na Astrologia

por Carla Hilário Quevedo, em 12.03.11

- ¿Y cuando alguien se justifica "es que los Capricornio somos así..."?
- Tengo la suerte de que rara vez me topo con creyentes en la astrología. Supongo que ésta es una de las ventajas de los que nacimos bajo el signo de Virgo.

 

Mario Bunge, filósofo argentino, numa bela entrevista ao El Cultural.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:39

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 12.03.11

Uma Thurman 

 

... não sei se percebo bem as exigências da geração à rasca, mas admito que o mercado de trabalho está mais fechado agora que antes, sobretudo para os recém-licenciados nos variadíssimos cursos que entretanto brotaram em Portugal na última década. Mas as suas expectativas não estarão um pouco desajustadas? O 'emprego para a vida' já nem na minha geração (a dos rabos à mostra, aqui bem descrita pela Inês) existia, excepto, talvez, para a função pública. A estabilidade não é uma garantia nem um direito: é algo que se conquista à custa de trabalho, produção e esforço. Pensemos, por exemplo, no mal que se trabalha em Portugal. A produtividade é baixa. Como podia ser alta no país que reúne durante três horas e demora quatro a almoçar? Já para não falar do pouco saudável que é misturar o trabalho com o convívio social, uma prática bem portuguesa e bastante detestável. Já não acontece tanto, mas ainda é uma realidade. Os relacionamentos de trabalho devem ser estritamente profissionais, o que não implica frieza nem distância. A delicadeza, a boa educação e a alegria fazem parte do profissionalismo. E não é delicado, nem bem-educado, nem alegre demorar uma pessoa durante horas. Soube no outro dia que o último grito em reuniões é tê-las de pé. Duram dez minutos. Vem do Japão. Em Portugal, só em empresas alemãs. A propósito, trabalhei numa empresa alemã e fui algumas vezes à Alemanha. O horário de trabalho era das oito da manhã às quatro da tarde, com duas pausas de dez minutos e meia-hora para almoço. As reuniões eram breves e ficar no escritório além da hora de saída era mal visto. Significava que o trabalhador não tinha sido capaz de dar conta do recado naquele espaço mais que suficiente de tempo. Alguém me explica como é que em Portugal se trabalha tantas horas e, mesmo assim, temos as dificuldades que temos? E se há falta de pessoal, como se justificam as queixas de quem se manifesta hoje?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:51

João Miguel Fernandes Jorge sobre "Eu hoje acordei assim..."

por Carla Hilário Quevedo, em 11.03.11

Uma manhã acordei sob estreita mão no meu ombro

Que me queres? Queria conversar.

Que espécie de vida levas? Faço o que tenho a fazer.

 

Do primeiro poema de Turvos Dizeres.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:13

Rádio Blogue: Geração à rasca

por Carla Hilário Quevedo, em 11.03.11

É possível que o protesto geração à rasca tenha surgido no Facebook, de modo espontâneo, pois parece ser o seguimento do «debate» suscitado pelo tema dos Deolinda. O protesto surge porque os jovens em Portugal assumem ter qualificações a mais para os trabalhos precários e mal pagos que os esperam, quando esperam. Podemos ler no manifesto da geração à rasca: «Somos a geração com o maior nível de formação na história do país». Não estando certa da veracidade da afirmação, é a questão do estudo que motiva a indignação. Criou-se, no meu entender, uma enorme expectativa de que a licenciatura, o mestrado, etc. garantiam o trabalho seguro e bem remunerado. Como se tivesse sido feita uma promessa que não podia ser cumprida. A expectativa também foi alimentada por uma geração que investiu na educação dos filhos. Esta geração estava certa. Não tenhamos dúvidas de que o conhecimento é a solução dos problemas do país. O problema está em perceber como o aplicamos numa sociedade que ainda não viu que Portugal tem de mudar a sua maneira de pensar e funcionar se quiser sobreviver. O mercado de trabalho não está preparado para receber, por exemplo, alunos de História ou Filosofia. Mas estas pessoas têm um conhecimento que pode ser útil às empresas. O aluno universitário deve, então, perceber o que pretende fazer com o seu curso. A dificuldade de encontrar um trabalho na respectiva área de estudo não deve impedir ninguém de ter a possibilidade de criar o seu próprio emprego. Também não deve impedir ninguém de aplicar os seus conhecimentos num trabalho que nada tem que ver com o seu curso. As queixas da geração à rasca são justas? Como se soluciona esta insatisfação generalizada? O que pensa deste protesto?

 

Publicado hoje, no Metro. Deixe a sua opinião através do 21 351 05 90 ou no Jazza-me Muito. Os comentários que chegarem até quinta-feira, dia 17 de Março, às 15h, vão para o ar, na Rádio Europa, na sexta, dia 18, às 10h35.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:04

Dos Antigos

por Carla Hilário Quevedo, em 08.03.11

Sir Joshua Reynolds, Cupid Undoing Venus's Belt, 1788

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:11

Gordos no paraíso

por Carla Hilário Quevedo, em 08.03.11

Um estudo publicado na revista The Lancet mostra que a taxa de obesidade no mundo tem aumentado nas últimas três décadas, sobretudo nas ilhas tropicais. O país mais gordo do mundo é a República de Nauru. As ilhas Cook, Tonga, Samoa, a Polinésia Francesa e a República de Palau seguem de perto. Várias ilhas do Caribe, incluindo as Bermudas, Porto Rico e São Cristóvão e Nevis também se incluem na categoria de obesos. A explicação não é complicada. São ilhas pequenas, há pouco  descobertas como paraísos turísticos. Primeiro importaram a comida dos países colonizadores e depois a que os turistas pediam: a fast-food. Habituado a trabalhar muito e a comer pouco embora bem – peixe, fruta, etc. – o metabolismo dos autóctones enlouqueceu. Ainda por cima, exibir um corpo bem nutrido nestas regiões é sinal de riqueza e poder. Os queques eram gordos, os betinhos queriam engordar e os pobres enchiam a barriga para serem aceites pelas boas famílias. O mais interessante é a solução proposta pelos investigadores ser a educação alimentar e a promoção da vida saudável. Digo interessante porque, se não funciona na América nem na Europa, por que carga de água haveria de funcionar no paraíso?

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 4-3-11

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:06

Rancor e estupidez

por Carla Hilário Quevedo, em 08.03.11

Quando apareceram as caricaturas de Maomé, que tantos distúrbios provocaram, Trey Parker e Matt Stone incluíram no South Park um urso a representar o profeta. Era uma maneira humorística de evitar uma jihad. Zachary Adam Chesser, um americano da Virgínia convertido na adolescência ao islamismo, sentiu-se ofendido. Fez uma campanha a incitar ao homicídio dos autores da paródia. Divulgou as moradas de ambos e sugeriu a distribuição aleatória de pacotes suspeitos para desorientar a Polícia na busca de uma bomba de verdade. Tinha contactos com a al-Qaeda no Iémen e tentou ir para esse país encantador. Chesser foi condenado a 25 anos de prisão. Nas alegações finais, o procurador acrescentou que o delito não se resumiu às ameaças de morte, mas em ter provocado o medo no exercício da liberdade de expressão. O que me leva à pergunta de difícil resposta: como é que um rapaz que cresce numa sociedade livre é seduzido pela versão monstruosa de uma religião ancestralmente civilizada? Não pode ser fé, e uma explicação psiquiátrica é compreender demais. Só o ressentimento e a frustração, com muita estupidez à mistura, explicam a aberração. E mesmo assim não chega.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 4-3-11

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:56