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A sorte de ser feliz

por Carla Hilário Quevedo, em 16.08.11

Talvez por não terem mais nada que fazer no mês de Julho, as Nações Unidas acharam por bem declarar que «os seres humanos têm direito à felicidade». Não explicaram o que significa este «direito» num mundo onde um pedaço de pão pode dar uma imensa alegria. Apesar da silly season, a declaração foi muito pouco ou nada comentada. A frivolidade da afirmação da ONU só pode ser comparada à sua aplicação prática, que é nenhuma. Mas porque estamos a meio de Agosto, gostava de acrescentar mais uma coisinha sobre este enunciado extraordinário. A palavra felicidade vem, como quase tudo, do grego. A palavra original é eutuxía, que à letra significa «boa sorte». Desejar muitas felicidades a alguém faz sentido sem discussão. Ter direito à felicidade faz tanto sentido como dizer que temos direito a ganhar o Euromilhões. À terça e à sexta… Por qualquer estranha coincidência, o happy inglês tem uma origem parecida. O étimo está relacionado com a boa fortuna. Talvez por isso, e por mais que respeite Thomas Jefferson e os restantes autores da constituição americana, pense que foram imprudentes em estabelecer a felicidade como um direito. É possível que seja uma gralha.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 12-8-11

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publicado às 17:02

Vida real (23)

por Carla Hilário Quevedo, em 14.08.11

O mar mais tranquilo que nunca, numa das praias mais perigosas do País. 

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publicado às 13:04

Dulce otium com pessoas

por Carla Hilário Quevedo, em 09.08.11

Eric Zener, Group Therapy, 2010

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publicado às 18:18

Tango em São Mamede

por Carla Hilário Quevedo, em 09.08.11

Conheci o músico de tango Ramón Maschio no passado fim-de-semana no Bar Bartelby, em Lisboa, onde encantou um grupo reduzido de espectadores. Pouco foi também o tempo de duração do espectáculo: cerca de meia hora. É sempre assim. É quando queremos ouvir mais, que o outro se cala. Mas os minutos de puro virtuosismo na guitarra que Ramón Maschio nos ofereceu ficarão na memória dos presentes. Começou com uma interpretação de «Volver», de Gardel. Não ter cantado não impediu os sabedores da letra de reconhecerem cada sílaba do tango tocado na guitarra. Seguiu para um tema que me pareceu meio brasileiro e amilongado, vagamente fadisteiro, mas que afinal era um tango de 1926, chamado El abrojito. Anibal Troilo, Roberto Grela, Piazolla... Tocou Niebla del Riachuelo, que conhecia na voz intensa de Edmundo Rivero. Tocou depois um tema de folclore argentino, cujo título não fixei, mas do qual gostei tanto como dos anteriores. Terminou com um tema da sua autoria, em que mostrou as suas referências e foi original. Ramón Maschio toca com a fadista Mafalda Arnauth. Estou por isso confiante de que voltará a Portugal para nos oferecer pelo menos mais meia hora do seu talento.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 5-8-11

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publicado às 18:13

Eterno masculino

por Carla Hilário Quevedo, em 09.08.11

O fenómeno português nascido no YouTube, que consiste num vídeo com um rapaz a cair do skate, merece uma brevíssima reflexão. Dei por mim a rir com as perninhas do Hélio a dar a dar no meio da erva seca junto à estrada. Não são todas as quedas que têm piada: Talvez só as que acontecem na sequência de um acto de temeridade. É por isso que Jackass, uma série da MTV em que um grupo de rapazes arrisca a vida em actos parvos, tem tanto sucesso. O público quer ver o risco escusado a ser devidamente punido pelas boas e velhas leis da gravidade. Isto partindo do princípio de que o público não é sádico nem quer assistir à morte de ninguém. Nem de Johnny Knoxville, o rei dos parvalhões. O riso também é de alívio por Hélio se ter levantado com as perninhas intactas e por Knoxville, contra todas as expectativas, continuar vivo e mais ou menos inteiro. Penso que haverá apreciadoras do género masculino tonto. É a atracção pelo oposto em todo o seu esplendor, pois a imprudência é uma característica muito mais masculina que feminina. Há mulheres que acham graça ao disparate. Outras preferem homens prudentes. São mais raros, mais inteligentes, mais perigosos. Mais femininos.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 5-8-11

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publicado às 18:02

Já não há homens

por Carla Hilário Quevedo, em 09.08.11

Li no New York Times um artigo sobre os arquétipos masculinos no cinema americano e concluí que os homens já não são sexy. Segundo A. O. Scott e Manohla Dargis, as personagens masculinas na tela variam entre o bebé grande, o bravo adolescente, o solteiro, o marido, o herói e o totó. Todos são apresentados como figuras assexuadas e distantes das mulheres. O bebé grande, como Zach Galifianakis, em A Ressaca 2, é um gorducho com uma sexualidade fofa. O bravo adolescente é o Harry Potter, que está mais interessado nos amigos e na tralha mágica do que na rapariga. O solteiro é invejado pelos amigos casados por causa das mulheres que vai tendo. Mas o destino do solteiro nas comédias românticas é passar a marido. Uma vez transformado em marido, a actividade sexual do ex-solteiro (pouca, nada de loucuras) é subjugado pela mulher, que o torna um ser doméstico e protegido das malandras que andam por aí de patins em biquíni. Dir-se-ia que o herói seria arrebatado e apaixonado, mas não. Só salva ou vinga meninas. Por fim, temos o totó de quem nunca podemos esperar nada. Nem na Rede Social o mago do Facebook fica com a rapariga. Ah, meu querido Marlon Brando…

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 5-8-11

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publicado às 17:57

...

por Carla Hilário Quevedo, em 04.08.11

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publicado às 17:34

Do Exibicionismo

por Carla Hilário Quevedo, em 03.08.11

Luigi Benedicenti, Il Gelato di Carlotta, 2011. Sim, sim: óleo sobre tela.

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publicado às 19:16

Expósito cantado por Sosa*

por Carla Hilário Quevedo, em 02.08.11

Por eeeeeeso,
me están sobrando los consejos,
que en las cosas del amor
aunque tenga que aprender
nadie sabe más que yo...

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publicado às 14:40

Coisas que levam a outras

por Carla Hilário Quevedo, em 02.08.11

Rechiflado en mi tristeza, te evoco y veo que has sido
en mi pobre vida paria sólo una buena mujer.

 

Os versos iniciais de Mano a Mano, verdadeiro tangaço de 1923.

 

There are none whom she openly hates, for if once she suffers, or believes herself to suffer, any contempt or insult, she never dismisses it from her mind, but takes all opportunities to tell how easily she can forgive. There are none whom she loves much better than others; for when any of her acquaintance decline in the opinion of the world, she always finds it inconvenient to visit them; her affection continues unaltered, but it is impossible to be intimate with the whole town.

 

Samuel Johnson, The Good Sort of Woman, publicado a 15-3-1760 

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publicado às 14:32

Por falar em lágrimas...

por Carla Hilário Quevedo, em 02.08.11

... e porque fiquei a pensar que cada um é para o que chora, gostaria de mostrar qualquer coisa que me faz chorar. Não tenho nenhuma história a contar: é a própria escolha que é biográfica. É a letra, a voz de Gardel, numa gravação que deve ser da década de trinta. Espero que chorem tanto quanto eu a ouvir Volver, con la frente marchita, las nieves del tiempo platearon mi sien. Sentir, que es un soplo la vida, que veinte años no es nada, que febril la mirada errante en las sombras te busca y te nombra. Vivir, con el alma aferrada a un dulce recuerdo, que lloro otra vez...

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publicado às 14:15

Pela cara abaixo

por Carla Hilário Quevedo, em 02.08.11

Na contabilidade dos portugueses com sucesso no estrangeiro vamos ter de passar a incluir o escritor Valter Hugo Mãe, que foi ao Brasil e deixou uma série de senhoras a chorar. O relato de Isabel Coutinho no Público, a descrição na revista Veja, e reacções apanhadas sem querer pela internet sublinharam o facto de Valter Hugo Mãe ter convencido pela comoção o público que estava presente na Festa Literária do Paraty. Perante o frisson transatlântico, resolvi ir ver ao YouTube o que motivara a onda lacrimejante. Valter Hugo Mãe leu uma espécie de redacção emotiva sobre a sua relação com o Brasil numa terra portuguesa. Foi humilde e falou de um passado de pobrezinho. Chorou e foi aplaudido de pé. Estava grato por estar ali e quis retribuir com lágrimas. Expôs um episódio da sua infância, falou das irmãs e conquistou o público porque é assim que se conquista a multidão que está para ali virada. Teve sucesso porque tudo o que é autobiográfico e puxa à lágrima é bem recebido. Assim é nesta era de solidão. Para uma sensibilidade austera, os abusos de autobiografia e choro são repugnantes. Só toleráveis em escritores velhos e de enorme talento. O tsunami Mãe não me convenceu.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 29-7-11

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publicado às 14:07

Surpresa

por Carla Hilário Quevedo, em 02.08.11

Não é preciso dizer que não tenho simpatia pelo Presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Mas antipatia à parte, ninguém lhe pode negar o direito de se expressar como entende nos meios de comunicação que a tecnologia nos oferece. Na campanha presidencial que levou Barack Obama ao poder, as opiniões foram favoravelmente unânimes quanto à eficácia da utilização das redes sociais conseguida pelo actual Presidente dos Estados Unidos da América. Mas Chávez não é tão amado como Obama. No entanto, não estará neste caso a fazer nada de muito diferente. Como sabemos, o Presidente da Venezuela tem um cancro e está a ser tratado em Cuba. Mantém informados os seus seguidores no Twitter (um milhão e oitocentos mil) sobre decisões recentes, a sua indignação com a arbitragem nos jogos da Venezuela na Copa América e outros temas, sem se referir à doença. Tudo isto é normal. Mas, pelos vistos, não chega para o Guardian. Na notícia do jornal sobre o uso de Chávez do Twitter a partir do hospital cubano, a sua actividade twitteira só é descrita como um modo de exercer o poder. Para mim, é mais simpático que isso. É uma surpresa elegante da parte dele.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 29-7-11

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publicado às 14:04

Mascarado de ideias

por Carla Hilário Quevedo, em 02.08.11

Anders Behring Breivik é um assassino. Não me interessa que se declare cristão, conservador, patriota ou o raio que o parta. Não só não há explicação que lhe valha, como não devemos perder tempo a analisar o delírio psicótico a que chama convicções. Só nos deve preocupar que o medo se instale na nossa cultura, nas nossas crenças e nas nossas vidas. Este é, aliás, o objectivo de qualquer acto terrorista. A Noruega é um país tão civilizado que nem sequer tem leis para punir com dureza estes casos excepcionais. Os noruegueses aboliram a pena de morte e também a prisão perpétua. O máximo legal possível que Breivik poderá cumprir é 21 anitos de prisão. O sacana pode estar cá fora outra vez com 53 anos de idade. Não sou pessimista, mas tenho a certeza de que há e sempre haverá muitos Breiviks por aí. Estes assassinos iluminados por uma missão fazem parte do nosso mundo. No nosso mundo, fazemos questão de sermos livres de acreditar no que queremos. E estou grata aos nossos antepassados por terem lutado por isso. Mas já que não podemos prever o horror produzido por quem perverte os nossos ideais, é nosso dever castigar sem piedade quem nos tenta intimidar.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 29-7-11

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publicado às 14:01

Com cão

por Carla Hilário Quevedo, em 01.08.11

Com cão

Nesta fotografia, tirada antes (ou depois, não sei) da publicada em baixo, há um galgo afegão do Picasso a mais, um Brassaï a menos e um Lacan desfocado. São ambas de 16 de Junho de 1944, quando o grupo se reuniu no atelier de Picasso para fazer a primeira leitura da sua peça de teatro, Le désir attrapé par la queue.

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publicado às 21:44