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Vivre sa vie

por Carla Hilário Quevedo, em 18.09.11

"- A lei diz que o que há de mais belo é conservar a calma o mais possível nas desgraças e não se indignar, uma vez que não se sabe o mal e o bem que há em tais acontecimentos, nem se adianta nada, positivamente, em os suportar com dificuldade; nem tudo o que é humano merece que se lhe dê muita importância; e o que poderá acudir-nos o mais depressa possível é entravado pelo desgosto.

- A que te referes?

- À reflexão sobre o que nos aconteceu; e tal como quando se lançam os dados, assim devemos endireitar as nossas posições, pelo caminho que a razão escolher como melhor, e, se nos baterem, não devemos fazer como as crianças, que levam a mão ao sítio da pancada e perdem o tempo a gritar, mas acostumar a alma a ser o mais rápida possível a curar e a endireitar o que caiu e adoeceu, eliminando as lamentações com remédios." 

 

Platão, A República, 604c, tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Título de Jean-Luc Godard.

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publicado às 11:01

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 18.09.11

Marilyn Monroe

 

... não posso dizer que nasci ontem.

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publicado às 10:53

Dor de Cabeça: Usar com moderação

por Carla Hilário Quevedo, em 16.09.11
Descoberto no Mind Map Art, via @philosophybites.

 

Tenho assistido a duas discussões paralelas sobre a importância da internet nas nossas vidas. Numa temos os viciados no meio que revolucionou as nossas vidas. Noutra estão os desconfiados, que acusam a internet de ser uma distracção na vida das pessoas. Faz falta um terceiro grupo, de entusiastas moderados. No início, pensávamos que estar horas a fio «na internet» era um substituto mais ensimesmado de passar horas em frente ao televisor. Era só um ecrã novo para um problema velho. Percebemos rapidamente que não era a mesma coisa. A televisão não exigia nada de nós, enquanto surfar na web requeria a nossa participação. No trabalho ou no ócio, a internet não nos dava nada: tínhamos de procurar. Assim percebemos que se não tivermos capacidade para distinguir informação credível ou mentirosa, por exemplo, a tarefa de procurar dados simples demora mais e é menos útil. A eficácia das pesquisas no Google encontrou um inimigo nos blogues, porque eram muitos e a maioria tinha informações falsas ou tratadas superficialmente. Os blogues eram aquelas páginas na internet em que as pessoas «perdiam tempo» juntas. Não eram viciantes só por causa da partilha de descobertas da pólvora e convicções inabaláveis. O contacto urgente com leitores, comentadores em caixas de comentários ou outros bloggers era (e continua a ser) uma parte essencial à maravilhosa actividade de blogar. As redes sociais são a expressão abreviada deste modo de relacionamento virtual, que começou por existir nos blogues, e que está reduzido a cada vez menos caracteres, até chegar ao polegar virado para cima. Talvez a facilidade no contacto contribua para manter o novo vício. Seja como for, Facebook, Twitter, etc. são mais distracções. Há uma minoria de cépticos em relação às redes sociais, que vêem os vários perigos de cair no vício da facilidade comunicativa. Repito que faz falta um terceiro grupo na conversa sobre «estar à frente do ecrã»: de entusiastas moderados. São os que percebem os riscos e hão-de saber usar com moderação as distracções que a internet nos deu.

 

Publicado hoje no Metro.

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publicado às 19:12

Dos Antigos

por Carla Hilário Quevedo, em 15.09.11
John Leech, Debtor and Creditor, The Comic History of Rome, 1850

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publicado às 19:02

Os filhos de suas mães

por Carla Hilário Quevedo, em 13.09.11

Numa entrevista publicada na edição de Setembro da Vogue, Christine Lagarde, actual presidente do FMI, repetiu uma ideia antiga sobre a educação dos rapazes. Diz Lagarde que «os homens são os filhos das suas mães», por isso «mais mães devem educar os filhos a respeitar as mulheres e a gostar delas». Falando de como educou os seus dois rapazes, Lagarde explicou que os ensinou a ser autónomos e a não contar com nenhuma mulher para «lhes» fazer a cama ou o jantar. Christine Lagarde, a mais feminina e elegante do quarteto das mulheres mais poderosas no mundo (Merkel, Clinton e Roussef são as restantes), não cultivou nos filhos o espírito de dependência tão apreciado pelos povos do sul da Europa. É provável que a elevada percentagem de songamongas neste mundo tenha sido educada por mães que os protegeu das agruras do trabalho doméstico. Mas nenhum adulto é apenas o fruto do que lhe foi ensinado em pequenino. Se assim fosse, não havia fracassos, nem problemas. Nem pessoas; só fórmulas exactas. Imagino que estes dois rapazes são chiques e úteis como a mãe. Na verdade, a presidente do FMI defendeu na Vogue que a culpa é das mulheres. E, neste caso, tem uma certa razão.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 9-9-11

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publicado às 19:46

A ficção da realidade

por Carla Hilário Quevedo, em 13.09.11

Li, com entusiasmo, um artigo na New Yorker sobre a operação que resultou na morte de Osama Bin Laden, em Maio, no Paquistão. O autor, Nicholas Schmidle, fez uma narração digna de Hollywood, descrevendo os pormenores da missão, ao ponto do que o chefe operativo tinha nos bolsos. O artigo faz lembrar um guião de um filme com Bruce Willis, mas melhor. O momento alto sucede quando um dos SEALs dispara e mata Osama: um tiro no peito e outro na cabeça. Imediatamente depois comunica com a base e diz: «Por Deus e pela pátria». Grande final! Mais tarde, li que a credibilidade do autor foi posta em causa por muito boa e especializada gente. Tudo o que contou foi contestado, desde o conhecimento da operação e de pormenores sobre os participantes na acção, sem ter falado directamente com os SEALs, à veracidade desta frase final. Carol Christine Fair, professora em Georgetown e especialista de anti-terrorismo, denuncia a brutalidade da exclamação. É correcto repetir uma frase em que Deus é a razão principal para assassinar uma pessoa? A frase foi dita? Não estamos a combater extremistas que deturpam a mensagem divina? Tem razão. Mas que estava bem escrito, lá isso estava.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 9-9-11

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publicado às 19:40

O fotógrafo

por Carla Hilário Quevedo, em 13.09.11

Thomas Hoepker tirou uma fotografia no dia 11 de Setembro de 2001. Nela podemos ver um grupo de cinco pessoas sentadas num paredão em Brooklyn, com as nuvens de fumo das Torres Gémeas do lado oposto. Há dez anos, naquele dia comum de sol e céu azul, três mil pessoas eram assassinadas em Nova Iorque. Jonathan Jones conta no Guardian que a fotografia não foi incluída num livro sobre o 11 de Setembro porque Thomas Hoepker não o permitiu. A imagem era incómoda. Por que pareciam as cinco pessoas tão descontraídas perante o horror? Em 2006, o fotógrafo mostrou a imagem ao mundo. As críticas não se fizeram esperar. Ao grupo sentado em Brooklyn a olhar para Manhattan, bem entendido. Segundo Frank Rich, num artigo no New York Times na altura, eram indiferentes ou simplesmente americanos. A análise dura à falta de empatia dos presentes também não se fez esperar e várias pessoas saíram em defesa daqueles que afinal nada podiam fazer. Mas ninguém questionou a intenção do próprio Thomas Hoepker, importante fotógrafo da Magnum. Talvez Jonathan Jones tenha razão. A vida é feita de momentos por vezes hediondos. Alguns partem. Para outros, a vida continua.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 9-9-11

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publicado às 19:26

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 13.09.11

Catherine Deneuve

 

... deixar cair a Grécia significa que a Europa repudia o seu berço, a sua origem, traindo aquela a quem tudo deve. Vamos pagar por esta ingratidão repulsiva. Neste caso, literalmente. E com juros.

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publicado às 11:11

...

por Carla Hilário Quevedo, em 11.09.11
 

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publicado às 12:08

Dos Modernos

por Carla Hilário Quevedo, em 09.09.11

Albert Ecker, Different Girl, Different Story, 2008

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publicado às 18:32

Dor de Cabeça: Liberdade individual

por Carla Hilário Quevedo, em 09.09.11

Foi uma surpresa quando a Ana entregou a carta de demissão no supermercado onde trabalhava. O chefe não queria acreditar. O grupo de raparigas que geria ficou desorientado. «Viam-me como um ídolo e eu não queria ser ídolo nenhum. Queria que pensassem por elas próprias», disse-me quando lhe pedi que me contasse o que a tinha levado a abrir um lugar de fruta. O lugar é concorrido sobretudo por causa da qualidade excelente dos produtos. Quando os clientes têm braços fracos para levar as compras e moram perto, a Ana arranja maneira de entregar a encomenda em casa. Tem multibanco, porque sabe que as pessoas gostam de pagar com cartão. Sabe que o cliente está primeiro, porque desde os dezoito anos que trabalha nesta área. Não foi só a experiência que lhe deu segurança para mudar aos 28 anos. «Estava cansada da minha vida», admitiu. Andava sobrecarregada de trabalho, o seu esforço não era reconhecido, e ainda aturava os mexericos das raparigas, aborrecidamente mais interessadas em falar da vida alheia do que em cuidar da vida própria. «Tenho de gostar de mim e fazer aquilo de que gosto», concluiu há quatro anos. A aventura de abrir o lugar compensou porque tem o dia-a-dia que sonhou para si. Tem tempo para estar sozinha e com os outros, para gostar de si própria, dar dois dedos de conversa com as pessoas que ali vão, «observar os passarinhos nas árvores» se lhe apetecer. Aos 32 anos, a Ana tem o quotidiano doce que escolheu e pelo qual lutou. Não foi um mar de rosas até chegar à paz desejada, mas sabia que valia a pena, porque o seu objectivo era o mais nobre: ser feliz. Confesso que quando lhe pedi para me contar a sua história, não estava à espera de um diamante destes. Imaginara que tinha aberto o negócio por uma urgência prática da vida, o que seria admirável. A Ana, porém, deu um passo que poucos dão: entre a infelicidade da certeza pequena e o desconhecido, decidiu apostar nas suas capacidades para viver a sua vida. Mesmo que não queira, a Ana é inspiradora. Feliz, sem colegas nem chefes ingratos. Mas não sozinha.

 

Publicado hoje no Metro.

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publicado às 18:29

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 09.09.11

Brigitte Bardot  

 

... não estou certa da justificação dada para a redução da comparticipação aos medicamentos para asmáticos intelectuais, passo a redundância. Dizem que vão cortar nos combinados com corticóides, porque não são tão eficazes como os outros. Ora, segundo a minha vasta experiência neste campo, são precisamente esses remédios os melhores no tratamento da doença. Mas ainda não percebi bem a lógica do corte, nem se se estarão a referir a broncodilatadores de última geração. Vou investigar. Entretanto, procuro avidamente notícias sobre a extinção de fundações. Ainda nada. Também estou à procura de títulos sobre o fim imediato da acumulação de reformas. Não vejo. À falta destas notícias, procuro notas sobre o estabelecimento de um tecto máximo para as reformas. Zero palavras. Já aborrecida de tanto procurar, faço uma última tentativa e viro as páginas à procura de novidades sobre o limite à taxação do rendimento do trabalho. Sim, à taxação; não à dívida. Niente. É claro que Roma não se fez num dia (e também tinham um problema com a dívida: os pobres deviam aos ricos), mas não era nada má ideia falarem sobre estes assuntos.

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publicado às 07:47

...

por Carla Hilário Quevedo, em 06.09.11

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publicado às 16:17

Em Tripoli

por Carla Hilário Quevedo, em 06.09.11

Bernard-Henri Lévy foi um dos líderes dos Nouveaux philosophes, um grupo de anti-totalitários de finais de 70. BHL era o alto, giro e o único sem barriga. É filho de um milionário, foi aluno nos melhores colégios e estudou Filosofia na École Normal Supérieure. É cinturão negro de judo. Escreveu muitos livros, uns melhores que outros. Foi considerado de esquerda pela direita e de direita pela esquerda. É amigo de Mitterrand e de Sarkozy. É sionista e abraça todas as causas célebres: de Sarajevo ao Ruanda, de Paris a Nova Iorque. Nos negócios também não vai mal. Deve ser o único filósofo que qualquer mãe consideraria melhor escolha que um médico para marido de uma filha. Aos 63 anos, continua alto, giro e sem barriga. Falo dele porque vi as fotografias da visita que fez a Tripoli, de apoio aos rebeldes. Nada de estranho neste Indiana Jones da Filosofia. O que saltou à vista foi estar impecavelmente vestido com o seu fato preto e camisa branca. Gostei de uma imagem em que passeia, elegante e de cabelo ao vento, acompanhado de dois guerreiros líbios, ambos armados até aos dentes. Dada a ocasião histórica, talvez não estivesse tão demasiado bem vestido como isso.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 2-9-11

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publicado às 16:11

Onde estava em 1940?

por Carla Hilário Quevedo, em 06.09.11

PG Wodehouse é reconhecidamente um dos maiores humoristas de língua inglesa. Criador do inútil Bertie Wooster e do seu sábio mordomo, Jeeves, o escritor foi acusado de traição por ter realizado cinco programas de rádio para os nazis, transmitidos em inglês, para os americanos, antes de entrarem na guerra. Os programas falavam do seu quotidiano de prisioneiro privilegiado. Os textos não elogiavam as virtudes do regime. O escritor foi, aliás, ilibado da acusação pelo próprio MI5, mas nunca chegou a ser informado disso em vida. Morreu em 1975. Robert McCrum, o seu biógrafo, indignado por o nome de Wodehouse volta e meia aparecer associado aos nazis, faz uma defesa amargurada no Guardian. Além de descrever Wodehouse como um homem desligado da realidade, formado no seio de uma classe social e de uma geração que perante as piores vicissitudes faziam humor ou tentavam ver o lado positivo do infortúnio, questiona a importância do episódio da vida do escritor. Como deve reagir um ser humano quando é confrontado com uma situação terrível da História e não a entende? Será que todas as nossas decisões seriam correctas? Espero nunca passar por uma situação parecida.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 2-9-11

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publicado às 15:58