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O drama do pijama

por Carla Hilário Quevedo, em 31.08.14
App CameraBag com filtro Helga

 

Simpatizo com a ideia sensata de que não sabemos o que vai acontecer Mas nem sempre é assim. Sabemos, por exemplo, que haverá de certeza pelo menos um drama na imprensa por semana, um caso, uma fonte de indignação, um motivo, enfim, para comentadores e políticos serem “eles próprios”.

 

Esta semana, a indignação apareceu a propósito de um pijama de criança da Zara. O pijama, ou a camisola do dito, tinha riscas azuis e brancas e uma estrela amarela de um dos lados. Talvez por influência de filmes como A Lista de Schindler ou O Rapaz do Pijama às Riscas, a imagem começou a circular no Twitter acompanhada de uma suspeita: a camisola do pijama lembrava o uniforme que os prisioneiros judeus usavam nos campos de concentração. Em poucas horas, a Zara era acusada de estar a vender um produto que lembrava a Shoah. Como era isto possível? A fúria dos utilizadores do Twitter e de prováveis clientes da Zara durou poucas horas e foi o suficiente para a Zara retirar o produto do mercado, não sem antes apresentar um pedido de desculpa. A estrela amarela, que para muitos era parecida com a estrela de David, era de xerife, o que aliás se percebe se a virmos mais de perto. A ideia teria sido fazer um pijama de cowboy com a parte mais divertida das riscas azuis e brancas, em vez do castanho aborrecido de um típico xerife do faroeste. Mas a multidão não concordou com as intenções da Zara.

 

Francisco Louçã, no blogue do Público intitulado Tudo Menos Economia, que partilha com António Bagão Félix e Ricardo Cabral, escreveu um texto inflamado sobre o sucedido. Para Louçã, um pijama está longe de ser apenas um pijama: “As riscas e a estrela amarela não lembram somente a perseguição dos nazis contra os judeus, evocam explicitamente os campos de concentração. (…) É uma provocação e um insulto”. Louçã tem a certeza de que a Zara imaginou um produto ofensivo de propósito. Só não percebe bem as motivações. Terá sido por ignorância? Ou por querer uma polémica que desse publicidade à empresa? Nenhuma das explicações lhe pareceram suficientes: “Ambas as explicações assumem a irresponsabilidade e portanto desvalorizam-na, desculpando-a”. Afinal de contas, ninguém tem culpa de não saber. A menos que seja doutorado em Economia. Por fim, eis que Louçã descobre a explicação: “Multiplicar produtos, numa floresta de sinais, é o modo de chegar a toda a gente, perante a indiferença toda a gente”. De tal maneira “chegou” que o produto foi retirado de imediato. Diria que, infelizmente, faltou indiferença neste episódio absurdo fabricado por gente frívola a que Louçã tenta agradar.

 

O pijama não me interessa nada, mas o texto do ideólogo de extrema-esquerda evoca as suas ideias sobre o Estado de Israel. Quando se fala do Holocausto, aí está Louçã a chorar, alto por sinal. Mas na hora de defender a existência do estado judaico, salta em defesa do Hamas. Quer fazer-nos crer que o anti-sionismo não tem qualquer relação com anti-semitismo. No fundo, no fundo, um judeu respeitável é um judeu perseguido. Às vezes penso no que seria da extrema-esquerda se não houvesse vítimas. Viveríamos num mundo duas vezes melhor. 

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 30/31-8-14

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publicado às 19:41

Para maiores de 21

por Carla Hilário Quevedo, em 31.08.14
What Next
by Frederick Seidel

 

So the sun is shining blindingly but I can sort of see.
It’s like looking at Mandela’s moral beauty.
The dying leaves are sizzling on the trees
In a shirtsleeves summer breeze.

 

But daylight saving is over.
And gaveling the courtroom to order with a four-leaf clover
Is over. And it’s altogether November.
And the Pellegrino bubbles rise to the surface and dismember.

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publicado às 18:16

Tipo assim

por Carla Hilário Quevedo, em 31.08.14

Quando me quiserem descrever como um tipo de pessoa, que sou, como toda a gente, façam-no assim: gosta de almoçar sentada ao balcão e chora quando ouve a Barbara Cook a cantar Losing My Mind.

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publicado às 18:15

Respondi ao Questionário de Proust

por Carla Hilário Quevedo, em 31.08.14

Aqui

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publicado às 18:10

Blockbomba

por Carla Hilário Quevedo, em 31.08.14

Mud (hm, não). The Call (adorei). Closed Circuit (seca total). 

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publicado às 17:37

Bomba de Ouro

por Carla Hilário Quevedo, em 31.08.14

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publicado às 17:31

Só uma girafa-bebé

por Carla Hilário Quevedo, em 28.08.14

Do excelente Edward Steed para a New Yorker.

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publicado às 19:19

Sarah Silverman ganhou um Emmy...

por Carla Hilário Quevedo, em 28.08.14

... por Outstanding Writing For A Variety Special em Sarah Silverman: We Are Miracles. Ainda não vi e adorei. Silverman é um génio, um espírito livre, assustadoramente perspicaz e inteligente e um autêntico diabo. Um exemplo para todos nós. Mil vivas!

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publicado às 19:14

Razões

por Carla Hilário Quevedo, em 27.08.14

O suicídio do comediante Robin Williams deu origem a uma espiral de alegações nunca antes vista. Nas 48 horas a seguir à sua morte, foram publicados centenas de artigos sobre o sucedido. Em quase todos foi desenvolvida a teoria da relação entre humor e depressão. Ficámos a saber que o humorista é um deprimido disfarçado e que o riso é afinal uma maneira de lidar com a dura realidade. Ai sim? Permitam-me que boceje perante uma explicação que depende apenas de uma opinião pouco favorável e nada esclarecida sobre a actividade humorística. Há humoristas deprimidos como há metalúrgicos, mães ou milionários. Robin Williams era um monstro de talento. Essa, sim, é uma diferença importante. A depressão não escolhe profissão. É uma doença grave e será, em parte, responsável pelo fim de um actor amado. Mas nem todas as depressões terminam deste modo, por isso nem mesmo a doença é explicação suficiente. Nunca sabemos por que alguém se suicida. 

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 22-8-14

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publicado às 19:08

A melhor resposta ao Ice Bucket Challenge...

por Carla Hilário Quevedo, em 24.08.14

... foi de Benedict Cumberbatch. Já que o fazem, que o façam com graça. 

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publicado às 19:05

Banhos gelados

por Carla Hilário Quevedo, em 24.08.14
App Instagram com filtro Amaro

 

Tenho sentimentos contraditórios sobre o desafio deste Verão, que consiste em doar dinheiro a associações que se dedicam ao combate à esclerose lateral amiotrófica, uma doença neurodegenerativa e incapacitante, ao mesmo tempo que se experimenta levar com um balde de água fria pela cabeça abaixo. Se chama a atenção para o problema? Chama, mas não me interessa assistir a vídeos sucessivos com “celebridades” paralisadas pelo frio inesperado da água. A repetição é cansativa. Vimos o Jimmy Fallon a despejar um balde de água pela cabeça e achámos agradável, olha que boa ideia chamar assim a atenção para uma doença avassaladora e pouco falada. Depois fomos convidados a ver o Cristiano Ronaldo de cuecas, com pouco risco, a ser “surpreendido” por um alguidar de água fria. Pronto, está bem. Até que por fim sorrimos de cansaço com os gritinhos da Jennifer Lopez. Da óptica do espectador, penso que basta.

 

As doações podem passar a não depender de molhar o próximo. Em Portugal, temos mesmo a vantagem de o nosso contacto com a temperatura fria da água ser diário ou quase. Basta deslocar-nos a uma praia (dizem que este ano até as temperaturas das águas algarvias andam baixas) para experimentarmos a sensação de estarmos a entrar numa arca frigorífica a céu aberto. “Sabes que isto faz muito bem às pernas?”, dizem os que consolam pela ofensa. O bem que faz a água gelada à circulação, ao tecido adiposo formado durante um Inverno de sedentarismo acompanhado dos mais variados sortidos de bolachas caseiras, à pele lisíssima e fria... Li em tempos e concordei: quem vive ao ar livre tem a pele mais quente e é por isso mais mordido por melgas e mosquitos do que quem vive por norma enfiado em sítios. A pele fria não é atractiva. Isto pode significar que a probabilidade de uma criatura com hábitos sedentários ser mordida numa praia portuguesa é reduzida. A água é gelada mas ao menos não se fica com borbulhas.

 

Banhos gelados são aqueles que centenas de pessoas tomam em praias como São Martinho do Porto, Figueira da Foz ou Nazaré. Isso, sim, parece-me um desafio. Em vez de um balde de água fria pela cabeça abaixo, basta um mergulho na praia do Norte na Nazaré, aquela que por estes dias de Verão ilude os distraídos com um mar disfarçado de “flat”, só porque não se manifesta nas ondas de 30 metros surfadas por um homem que os nazarenos tratam por “Má Cara”. Mas uma olhadela de cima para a praia nos dias de mar aparentemente sossegado é suficiente para nos assustarmos com a imensidão selvagem do sítio. Ninguém vai para ali, a não ser turistas inocentes e pessoas desesperadas por escapar à confusão da praia do Sul. A paisagem é agreste, os acessos são difíceis, e o mar, lá está, é gelado como nenhuma água em nenhum balde do mundo.

 

Molhar o pé na praia do Norte podia ser uma variante interessante ao balde de água fria, mas não, não. Até isso pode ser perigoso. E onde já se ouviu falar de campanhas de doações que põem em perigo os doadores? Mas uma coisa é certa. Os banhos gelados estão longe de ser uma novidade em Portugal.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 23/24-8-14

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publicado às 19:01

Defender-se e defendê-los

por Carla Hilário Quevedo, em 20.08.14

Jeff McMahan é um filósofo americano recentemente nomeado para a White’s Chair de Filosofia Moral em Oxford. Escreveu um texto denso e brilhante na Prospect, intitulado Gaza: Is Israel Fighting a Just War?, em que fala do conceito de proporcionalidade, um tema tão caro aos superficialmente indignados com a morte de civis na Faixa de Gaza. Fala da diferença entre “retaliação” e “ataque defensivo”, a designação correcta para a operação bélica israelita e sobre o Hamas ser apoiado por menos de metade da população palestiniana, que usa como escudo humano contra os ataques anunciados pelas forças armadas de Israel, tornando assim inevitável a perda de vidas inocentes. Jeff McMahan conclui que a única maneira de acabar com esta guerra é Israel destruir o Hamas politicamente ao conceder e defender a liberdade e o direito ao povo palestiniano de viver em paz. Por outras palavras, cabe a Israel fazer o que o Hamas não faz: cuidar dos palestinianos. 

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 14-8-14

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publicado às 18:46

Dos Modernos

por Carla Hilário Quevedo, em 20.08.14

Wassily Kandinsky, Dernière aquarelle, 1944

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publicado às 18:43

Morreu há dois mil anos...

por Carla Hilário Quevedo, em 19.08.14

... Caio Júlio César Octaviano Augusto, que prefiro recordar em I, Claudius, série adaptada da obra homónima de Robert Graves, do que com uma imagem de um busto. Ainda bem que ninguém sabe nada, senão ainda se punham a aproveitar as leis de Augusto sobre a natalidade e o casamento. 

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publicado às 19:08

Charles Manson e as mulheres

por Carla Hilário Quevedo, em 17.08.14
App InstaEffects com filtro Cruz e autocolante

 

Charles Manson, nascido no Ohio, baixinho e franzino, olhar esgazeado, fala da prisão de Corcoran, na Califórnia, de um novo interesse: o aquecimento global. A preocupação de Manson com o planeta atraiu uma rapariga chamada Star, de 25 anos, que apareceu há dias na televisão a dizer que é a sua mulher. O casamento ainda não foi oficializado, mas Star diz que está apaixonada.

 

A notícia é perturbadora mas não surpreende. Manson discorre sobre os homens e o planeta com a mesma arrogância iletrada e o mesmo ódio fútil com que nos anos 60 falava sobre a autoridade, a polícia, os negros, que pretendia aniquilar. Ignorante e orgulhoso do seu analfabetismo, Manson reuniu um grupo de seguidores. É possível que tenha desenvolvido uma capacidade de manipular imbecis na prisão, onde passou mais de metade da sua vida.  

 

Em 1967, antes dos homicídios que ficariam conhecidos por Tate-LaBianca, Manson saiu de novo da prisão e foi para Los Angeles. Um ano depois tinha uma “família”, da qual faziam parte várias raparigas parecidas com aquela que agora se apresenta como sua mulher. Star é o tipo de rapariga que convém a Manson. Tinha 16 anos quando lhe escreveu pela primeira vez. É franzina, pálida e alourada, como eram Patricia Krenwinkel, Susan Atkins, Leslie Van Houten e Linda Kasabian, parecidas sobretudo na capacidade de serem vítimas de Manson e carrascos de quem Manson ordenasse que fossem. Há 45 anos, a 8 de Agosto de 1969, talvez Star chegasse a entrar na casa de Terry Melcher, em Cielo Drive, ao contrário de Linda Kasabian, que ficou à porta por medo.

 

Terry Melcher era filho de Doris Day, e Manson, que tinha metido na cabeça que era músico, quis convencê-lo de que tinha talento para gravar um disco. Manson compusera um tema que consistia na repetição de duas palavras, “You know”, e tinha apresentado “a criação” a Gary Hinman, um músico de sucesso, que cometeu o erro de receber Manson e a sua trupe antes de o rejeitar. Foi assassinado, como teria sido Melcher, se não tivesse alugado a casa a um grupo de pessoas às quais Manson se referiu como “movie star types”.

 

Manson instruiu Charles ‘Tex’ Watson, de 23 anos, que se mudara para o Spahn Ranch que Manson tinha ocupado com a “família”, Krenwinkel e Atkins para “matarem com toda a brutalidade”. Cinco pessoas foram executadas, mortas a tiro e à facada, atadas com cordas e aterrorizadas. Susan Atkins esfaqueou Sharon Tate 16 vezes. Os assassinos escreveram “pig” na parede com o sangue. Dois dias depois, o mesmo grupo dirigiu-se à casa do casal LaBianca, escolhida ao acaso por Manson, que torturou e matou como quis.

 

Charles Manson e a “família” foram condenados à morte por gaseamento, mas a abolição da pena de morte na Califórnia transformou as condenações em penas de prisão perpétua. Ao longo dos anos, os pedidos de liberdade condicional têm sido recusados. Mas Manson tem vivido uma vida de razoável felicidade. Recebe 35 cartas de fãs por semana e há dez anos que tem uma namorada que acredita nele. Há razões para defender a pena de morte em certos casos. Uma é a seguinte: os seres humanos adaptam-se a tudo e até o mais brutal assassino pode encontrar uma paz qualquer e ser feliz na prisão. 

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 16/17-8-14

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publicado às 19:15

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