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Os homens que lêem

por Carla Hilário Quevedo, em 13.08.14

Li um artigo na revista feminina online Elite Daily em que se recomenda fervorosamente as mulheres a saírem com homens que lêem. A autora chama-se Lauren Martin e deve viver na Disneylândia. Não vou ser eu a frustrar uma tão nobre cruzada, mas com todo o gosto atacarei a estupidez das suas conclusões. Martin diz que «os homens que lêem não são espertos; são sábios». Não há garantias de essa qualidade existir nos mais leitores e é até frequente que não sejam nem uma coisa nem a outra. «Eles não só te percebem como te compreendem, porque ao lerem aprendem a perceber as inúmeras experiências de vida das personagens e desenvolvem a empatia». Pelo sim pelo não, nunca contem tudo. «Encontrar um homem que lê é como sair com mil almas e viver mil vidas», diz certamente para assustar as mulheres. Sair com ‘mil almas e mil vidas’ seria um caos e uma canseira. Felizmente que o homem que lê (e o que não lê) é só uma pessoa e, com alguma sorte, só uma vida.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 8-8-14

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publicado às 18:53

My idea of fun

por Carla Hilário Quevedo, em 13.08.14

Ancient Statues Pose for Selfies, uma maravilha do Hyperallergic

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publicado às 18:50

Selfie com todos

por Carla Hilário Quevedo, em 10.08.14

Liniers, no La Nación.

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publicado às 17:20

A culpa é do macaco

por Carla Hilário Quevedo, em 10.08.14
App PictureShow com filtro Retro

 

David Slater tira fotografias desde os catorze anos. Começou por fotografar o que estava próximo da cidade de Blackburn, no Lancashire, onde nasceu: a paisagem deslumbrante do Lake District, no noroeste de Inglaterra. Foi-se afastando para zonas cada vez mais longínquas e ganha a vida a fotografar quotidianos selvagens e desconhecidos para os habitantes das cidades.

 

Conhecemos o seu nome porque desde 2011 trava uma batalha difícil pelos direitos de autor de duas fotografias tiradas numa viagem à ilha de Sulawesi, na Indonésia. Slater passou algum tempo na floresta com uma espécie de macacos em vias de extinção. A dada altura um dos macacos tirou-lhe a máquina fotográfica das mãos e começou a brincar com elas. A brincadeira resultou em centenas de fotografias desenquadradas, tremidas e cortadas e em duas imagens fantásticas que são o motivo da disputa.  

 

A Wikipédia terá entretanto retirado as imagens do site de David Slater (http://www.djsphotography.co.uk) e publicado na página em que se descreve a espécie dos Macaca nigra. São duas imagens em que um macaco parece ter virado a máquina na sua direcção e disparado, como acontece agora quando a espécie humana se quer tontamente fotografar. Em 2011, quando tudo começou, ainda ninguém falava em selfies, mas agora não há jornal que não fale da “selfie do macaco”. A batalha pelos direitos de autoria das fotografias está num ponto que me parece ser delirante, embora o motivo seja óbvio: a Wikimedia Commons, onde estão alojadas as imagens da Wikipédia, não quer pagar direitos a Slater por estas fotografias. Como fazer? Argumentar que se foi o macaco que as tirou, então os direitos de autor lhe pertencem. Gostava de ver o que aconteceria na hora de o macaco reclamar em tribunal... A Wikipédia só está a dizer que as fotografias não são de ninguém, por isso não há nada a pagar.

 

Como defensora dos direitos dos animais gostava de perceber o que move aqueles que dizem estar “do lado do macaco” nesta questão. Será que acreditam que macacos “fazem selfies”? Se assim for, certamente defendem que o macaco tem um “self”, e, o mais estranho de tudo, que teve uma intenção quando carregou no botão. Conhecemos melhor hoje os animais e as suas capacidades, que nos surpreendem e encantam, mas não me parece saudável que se defenda que um macaco, ou uma doninha ou o meu gato “fazem selfies”. Há excelentes fotografias que são resultado do acaso de ter carregado no botão “sem pensar”, mas ao menos sabemos que estamos a tirá-las. Os defensores do macaco acreditam que sabia que era uma máquina fotográfica?

 

A introdução do termo “selfie” nesta discussão que se prolonga há três anos pode, no entanto, ser usada pela defesa de Slater. Se não for partilhada nas redes sociais, não é uma “selfie”. E se for partilhada, como aconteceu, então a imagem pertence ao proprietário da máquina. Além do mais, sem a viagem aos confins da Indonésia, sem um ambiente a favorecer um “roubo” da máquina e sem a liberdade dada pelo fotógrafo ao animal não humano para mexer nos botões, não haveria imagens. Neste caso, defendo o humano. Publico uma imagem em troca deste argumento, que pode utilizar livremente em tribunal. 

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 9/10-8-14

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publicado às 17:10

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 07.08.14

Brigitte Bardot

 

... Eu te disse que eu estava descontente “brother”/ E não tinha o rendimento que queria ter/ Mas a tua dica no meu ouvido pôs satisfação...

- Banco mau, anteriormente conhecido por BES, actual empresa de cobrança, bom dia. Em que posso ser útil?

- Não é uma descrição uma bocado longa, Pilar?

- Charlotte! Não acha boa ideia dizer logo tudo? Não imagina as centenas de vezes que já tive de explicar que não é do banco bom...

- Imagino, Pilar. E também associa o banco mau ao banco velho e o bom ao novo? Não gosto nada disso.

- Então, Charlotte?

- Não me parece que o problema tenha que ver com tempo ou idade, mas com tamanho. Vejo "mau" e penso logo em pequeno e fico com... pena. "É mau, coitado." Percebe isto, Pilar?

- Percebo, Charlotte. Mas olhe que isto aqui é mais parecido com uma daquelas crateras... Só um instante, por favor.

- Eu te disse que gostava disso meu irmão/ Tu disseste vamos lá fazer essa opção/ Eu confiei e fomos logo pra um balcão...

- Voltei, Charlotte. Desculpe, mas tive de atender outra chamada do Crédit Agricole. Aqueles franceses só sabem insultar as pessoas. Quer dizer, acho que estão a insultar. Não percebo nada do que dizem.

- Mas não há aí ninguém que fale francês? Voltando ao problema.

- E a Natureza?

- Bem lembrado, Pilar. A Natureza é grande e má. E é má porque não é suficiente, não chega. Por isso penso no que é mau como qualquer coisa pequena, insuficiente. Mas não devo ter razão.

- Como lhe digo, Charlotte, isto mais parece uma daquelas crateras da Sibéria... Ai, que chatos! Desculpe, Charlotte.

- Meu telefone e e-mails tu tinhas o pin/ Dei te mil motivos pra confiares em mim/ Mas nada disso foi suficiente para ti...

- Outra vez os franceses, Charlotte! Não largam!

- Mudou a música, Pilar? 

- Ai, enganei-me outra vez, que maçada isto... 

. "O amor que eu te dei agora vejo que foi em vão, tudo foi em vão"?

- "Ão?"

Me deixa ir, me deixa ir, me deixa ir/ Me deixa ir, me deixa ir, me deixa ir/ Me deixa ir, me deixa ir, me deixa ir...

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publicado às 08:41

Caso prático

por Carla Hilário Quevedo, em 06.08.14

A mulher vai de férias com o resto da família e o marido fica em casa sozinho. Nos primeiros dias está delirante com o silêncio e a liberdade, mas ao terceiro dia resolve ligar à mulher. ‘Olha lá, preciso de companhia, porque as noites são um bocado longas e aborreço-me a ver televisão sozinho’, queixa-se o marido. ‘Ó homem, lê um livro’, resolve a mulher. ‘Tu sabes que só leio à tarde, meu doce, mas depois à noite apetece-me ver televisão e fazes-me falta para interromperes as melhores cenas...’. O silêncio surge como resposta até que o marido sugere: ‘E se ligasse para uma rapariga que diz que vem a casa ver televisão com as pessoas?’. ‘Tu sabes o que penso sobre a prostituição, amor’. ‘Querida, não é uma prostituta! A Samantha só vem ver televisão comigo e pago-lhe à hora’. ‘Hmmm...’, responde a mulher, ponderada. ‘Se me prometeres que não vês Breaking Bad com a rapariga, nem Masters of Sex, nem The Wire... Tudo depende da programação’.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 1-8-14

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publicado às 18:45

Profissão: enroscadora

por Carla Hilário Quevedo, em 06.08.14

Através de um artigo no Business Insider, cheguei ao website de Samantha Hess, cuddleuptome.com. Sam tem 30 anos, uma licenciatura em Desporto e teve uma ideia genial para um negócio. Por 60 dólares por hora, Sam vai a casa, fica a ver televisão consigo de mão dada no sofá, deita-se e enrosca-se consigo na cama, abraça-o e sorri. Sam é toda ela positiva e optimista, diz que adora pessoas e só quer ajudar. A ajuda vem na forma de um serviço que não inclui sexo, só companhia, e custa, bem, os tais 60 dólares à hora. Almas modernas estão neste momento a agitar a cabeça em sinal de aprovação, ao contrário das antigas, que olham para este ‘serviço’’ como mais uma poção mágica para fazer crescer o cabelo. Não há diferença entre o vendedor da banha da cobra ou a enroscadora profissional, que ganha a vida a fingir intimidade, a vender uma tranquilidade doméstica que não é um serviço. É mais do que dama de companhia e menos do que prostituta. Será o quê?

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 1-8-14

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publicado às 18:45

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 05.08.14
Brigitte Bardot

 

... bom dia, é do banco mau ou do banco bom?

- Charlotte!

- Err, Pilar?

- Há tanto tempo!

- Pilar! Como está? Agora está a trabalhar no... banco mau ou no banco bom?

- No banco mau, Charlotte. Como sabe, sou a telefonista especializada em fechamentos de sítios e situações problemáticas em geral.

- E o banco mau portou-se bem durante a noite?

- Sabe que o mau nunca se porta bem. É da sua natureza portar-se mal. 

- Mas o banco é mesmo mau? É que acho injusto condenar logo o desgraçado ao inferno só porque tem problemas. Não estará doente?

- Para já, é um cheiro a enxofre que não se pode.

- Mesmo assim, temos de ser compreensivos com o que cheira mal. Ou não temos?

- Mas porque é que ligou, Charlotte? Tem cá conta?

- Parece o Gomes Ferreira a perguntar à Ministra das Finanças se tem conta no BES! Já da outra vez quis saber não sei o quê das poupanças. Deve achar que por ser mulher tem um dever qualquer de lhe responder. 

- Mas tem?

- Não, Pilar! Alguma vez percebo alguma coisa de acções? Só de acções humanas e mesmo assim com dificuldade. Liguei só para perguntar se era do banco mau ou do banco bom. E para saber se podem emitir um glossário de termos usados nos últimos dias, como tier não sei das quantas que baixou - o escândalo!-, até aos cinco por cento...

- Vou no cê, de cartas de conforto.

- É que Tier é animal em alemão. 

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publicado às 08:28

Cabeça de turco

por Carla Hilário Quevedo, em 03.08.14
App PictureShow com filtro Vivid

O mundo, na sua profunda sabedoria, não fazia a mínima ideia de quem era Bülent Arinç até o próprio aparecer há dias a dar instruções sobre como as mulheres se devem ou não comportar em público. A custo, pesquisei pelo nome e fiquei a saber que se trata do vice-primeiro ministro da Turquia. Uma pesquisa mais divertida no Google Images mostrou-me um homem de bigode que aparece com frequência nas fotografias de dedo espetado no ar.

 

Num discurso por ocasião do fim do Ramadão, o Eid al-Fitr, Arinç aproveitou para revelar os seus pensamentos acerca do que está mal no mundo, fazendo um diagnóstico duríssimo quanto à gargalhada feminina em público, aos mulherengos, e ao excesso de utilização do automóvel e do telemóvel. Mostrou, portanto, ser um daqueles homens a quem tudo faz imensa confusão, mas que depois aponta o dedo ao mundo, culpado, claro, pelo seu mal-estar. Arinç sublinhou a decadência moral no seu país, sobretudo da juventude turca, e chegou mesmo a perguntar, com saudade e uma lágrima não visível ao canto do olho, onde estavam afinal as jovens turcas que baixavam o olhar, que se comportavam com recato e protegiam a sua castidade, defendiam a sua honra, certamente dos tais mulherengos que andam por aí à caça de mulheres disponíveis que riem à gargalhada. Porque quem diz riso, diz sexo, e aí estará o incómodo do vice-primeiro ministro turco, muito aflito perante a mera ideia de uma mulher ser capaz de ter prazer. E pior, mostrá-lo em público.

 

Arinç não quer ser confrontado com esses assuntos incómodos e prefere o risinho discreto, hihihi, ou o sorriso esfíngico, que, atenção, não devemos subestimar, que o faz duvidar do que irá pela cabeça feminina, sempre misteriosa, eternamente maléfica, como se sabe desde antes de Juvenal, e sobretudo capaz das maiores atrocidades, como a História bem nos tem demonstrado. Se não fosse a gargalhada de Eva nas barbas de Adão, ah!, se Helena não se tivesse rido à gargalhada mesmo na cara de Páris, nenhuma desgraça no mundo teria acontecido. Seríamos uma espécie dócil e subserviente se as mulheres não se rissem e os homens não andassem atrás das mulheres. Já agora, segundo os mandamentos de Arinç, se as pessoas andassem mais a pé e se falassem menos ao telemóvel. Ainda não consegui perceber a relação entre isto tudo, mas imagino que a ideia de decadência do vice primeiro-ministro turco lhe apareça sob a forma de qualquer sinal exterior de entusiasmo ou de mera actividade quotidiana. Também não sou fã de excessos, como é o caso do número de mulheres vítimas de violência doméstica e violação ou de meninas forçadas ao casamento na Turquia. Mas para Bülent Arinç, estas não são questões morais que mereçam o seu tempo.

 

Entretanto, várias mulheres turcas reagiram às declarações de guerra de Arinç com milhares de fotografias espalhadas pelas redes sociais com risos rasgados. Foi muito bonito ver as mulheres a rir de quem não gosta delas. Arinç exigiu contenção, quando a virtude está na moderação, que não teve quando falou, mas que, apesar disso, recebeu na resposta adequada: uma resposta de paz.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 2/3-8-14.

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publicado às 19:11

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 02.08.14

 

Brigitte Bardot

 

... confesso que me parecia impossível que o Estado servisse de novo como salvação a um banco em ruínas, por sua vez causadas pela família que durante anos a fio o geriu, mas lá está: estava enganada. Nos próximos dias seremos bombardeados com poeira para os olhos do desgraçado e permanentemente defraudado contribuinte, que paga isto tudo e ainda tem de ouvir que "o BES não é o BANIF", say what?, ou "o BES não é o BPN: é pior", ou ainda, "o Passos não podia fazer outra coisa". Saudades da silly season

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publicado às 09:24

Blockbomba

por Carla Hilário Quevedo, em 01.08.14

La Grande Bellezza (pretensioso e completamente desinteressante).

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publicado às 21:20

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 01.08.14
Brigitte Bardot

 

... os últimos dias têm sido muito difíceis para quem não faz a mais pequena ideia do que são 3.577.000.000. Se não fosse o João Miranda, até agora achava que estávamos a falar de 3.577.000, o que deve ser grave, embora na verdade vá dar exactamente ao mesmo. Não faço ideia do que falam e fico triste com isto, porque gosto de perceber ao menos alguma coisa do que se passa. Só uma ideia para os caros jornalistas: expliquem melhor o que está em causa, como se chega a um prejuízo destes, etc. Façam tutorials no YouTube, glossários - o que anseio por um bom glossário! Ah, e quando chegarem ao ponto irresistível de escreverem livros sobre o tema, não se esqueçam de descrever os envolvidos com sofisticação e simplicidade. Não quero ser acusada pelo Pacheco Pereira de pertencer à pequena-burguesia (cf. Quadratura de ontem), mas há uma burrice muito específica das classes altas, novas e velhas, que ganha em ser descrita por alguém que compreenda certas características e possibilidades, e que possa falar com uma pessoa ou outra. Ao trabalho, filhos!

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publicado às 09:11

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