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Paleontologia para todos

por Carla Hilário Quevedo, em 30.09.14

Os nomes científicos dos animais pré-históricos informam-nos acerca do género e da espécie, que por sua vez referem alguma característica física, como a carapaça natural que tinham os Anquilossauros. Mas a propósito do maior saurópode encontrado na Patagónia vim a saber que foi um paleontólogo americano, Henry Fairfield Osborne, com mais vocação de empresário do que de cientista, que iniciou a moda de dar nomes mais apelativos para chamar a atenção do público. A ele devemos o Tyrannosaurus Rex (rei dos tiranos) ou o Velociraptor (ladrão, de ‘raptor’, veloz). Mais tarde, os nomes passaram a incluir outras referências como o sítio onde foram encontrados ou os nomes dos mecenas das pesquisas. O nome do maior animal de sempre, de 36 toneladas, é Dreadnoughtus Schrani. Schrani pelo mecenas, Adam Schran. E Dreadnoughtus pelo primeiro barco de guerra a vapor fabricado antes da Grande Guerra, “nada a temer”. Porque além de estar extinto era vegetariano.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 26-9-14

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publicado às 19:06

O antipsicopata

por Carla Hilário Quevedo, em 28.09.14
App CameraBag com filtro Helga
 

Qualquer pessoa perguntará a si própria alguma vez na vida se estará a "ser má". É esta capacidade de nos pormos em causa, de termos dúvidas acerca do nosso comportamento, justificadas ou não, que faz de nós pessoas comuns e não monstros; ou como se costuma dizer, psicopatas.

 

Até há pouco tempo, o psicopata era reconhecido entre a multidão de gente cheia de culpabilidade. Hoje em dia, vários estudos querem fazer-nos crer que os psicopatas fazem parte da nossa vida. Pode ser um membro do conselho de administração, um colega ou o chefe do departamento onde trabalha. Hannibal Lecter, Ted Bundy e outros monstros ficcionados inexistentes ou ficcionados de carne e osso são hoje alguém aparentemente comum, que não mata, só mói. Ou lidera. Há tempos, num programa de televisão, vi com surpresa que um dos maiores investigadores do tema, o neurocientista James Fallon, descobriu que ele próprio tinha as características de um psicopata: obcecado, distante, indiferente aos outros. Só não matava ninguém. Este "pormenor" permitia que vivesse numa espécie de anonimato entre os restantes membros da espécie.

 

A hipótese de estarmos a conviver com psicopatas não gerou alarme na sociedade, mas um artigo de Melissa Dahl na New York Magazine sobre o que pode ser uma nova patologia perturbou o meu sono. No lado oposto ao da psicopatia, mesmo da psicopatia anónima urbana, chamemos-lhe assim, está o monstro desesperado por ajudar o próximo. Abigail A. Marsh, do Departamento de Psicologia da Universidade de Georgetown, publicou os resultados de um estudo sobre "altruístas extraordinários" numa revista científica. O objecto de estudo é o "antipsicopata", como Marsh lhe chamou, alguém ultrapreocupado com o próximo, extraordinariamente empático e sempre pronto a ajudar o outro, ainda que tenha de pagar um custo elevado por isso. O exemplo perfeito é o dador de rins voluntário, disponível para dar um órgão seu a um estranho que dele precise (não a um familiar nem pessoa próxima, note-se).

 

Estas pessoas raras (são cerca de 1400 nos Estados Unidos) e, tal como acontece com a maioria dos psicopatas anónimos, não são imediatamente reconhecíveis a não ser por ressonâncias magnéticas. Uma das diferenças entre o psicopata e o seu (aparentemente) oposto é o tamanho da amígdala. A amígdala faz parte do cérebro e "regula" as emoções. Verificou-se que é maior nos altruístas extraordinários e mais pequena nos presidentes de conselhos de administração. Ambos, no entanto, parecem ter uma disfunção parecida, com fins diferentes. Como observou Fallon, o psicopata está viciado em fazer o mal e o dador espontâneo, que não se importa de passar por uma operação invasiva e por uma possível perda de qualidade de vida, está viciado em fazer o bem.

 

Marsh não aceita a descrição redutora porque o superaltruísta nem sequer se questiona quanto à necessidade de dar um rim a um estranho. Ou seja, o que pratica é um acto de altruísmo, portanto desinteressado. Não tem a percepção da sua generosidade anormal. Dá o rim e acha que é seu dever. Acrescentaria que se trata de uma forma de narcisismo que também consiste em fazer algum mal: a si próprio.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 27/28-9-14

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publicado às 19:52

A propósito

por Carla Hilário Quevedo, em 28.09.14

Epígrafe na biografia de Alexandre, de Robin Lane Fox

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publicado às 19:49

O túmulo perdido

por Carla Hilário Quevedo, em 28.09.14

Há dois anos que decorrem as escavações em Anfípolis, a poucos quilómetros de Salónica, mas só em Agosto deste ano os rumores apontaram para uma possibilidade incrível: será neste túmulo datado de 325-300 a.C. que está sepultado Alexandre Magno? Recebi a probabilidade com cepticismo. Pelo que sabemos, que é pouco, Alexandre terá morrido envenenado ou de doença no seu regresso para a Macedónia. A tese que conheço melhor indica que terá sido sepultado em Alexandria, no Egipto, mas o local nunca foi encontrado. Há dias, duas cariátides, figuras femininas esculpidas em colunas de pedra, foram encontradas em Anfípolis. As figuras de 1,20 m estão na segunda entrada para um túmulo de grandes dimensões, digno de um grande general. Sabemos que o pai de Alexandre, Filipe da Macedónia, não está lá dentro. O seu túmulo foi encontrado na década de 70. Fica em Vergina, no norte da Grécia. Mas pode estar a mãe de Alexandre, Olímpia. Aguardemos com excitação. 

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 12-9-14

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publicado às 19:43

Deborah Devonshire (1920-2014)

por Carla Hilário Quevedo, em 27.09.14
Lucian Freud, Woman in a White Shirt, 1961

 

Née Deborah Vivien Freeman-Mitord, "Debo" escreveu à sua irmã Diana, a 13 de Agosto de 1957, sobre a impressão que teve de Lucian Freud: "Lucian Freud came for the weekend, he seems very nice and not at all wicked, but I'm always wrong about that kind of thing." Em 1961, com o retrato já terminado, Deborah escreve à sua irmã Nancy: "Dear little Lu's likeness of me is nearly done. I think it's marvellous. (...) Lu was mixing up paint the other day, got excited & said 'look this is just the colour of your hair'. I looked, & saw a cow pat with silver in it". 

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publicado às 18:40

And I love myself

por Carla Hilário Quevedo, em 27.09.14

(The world is a ghetto with guns and picket signs)

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publicado às 17:32

Bitch, don't kill my vibe

por Carla Hilário Quevedo, em 27.09.14

I can feel your energy from two planets away

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publicado às 17:23

Coisas que melhoram algumas vidas (141)

por Carla Hilário Quevedo, em 24.09.14

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publicado às 19:37

O estratega e o operacional

por Carla Hilário Quevedo, em 24.09.14

O Papa Francisco celebrou 20 casamentos no domingo passado. Não seria notícia se tivesse sido apenas isso. A singularidade do acto deve-se a alguns casais já viverem juntos e alguns até já terem filhos. Como se sabe, a Igreja Católica condena ambas as condições, mas a habitual atitude do Papa de mostrar o que quer da Igreja através de exemplos em vez de fazer declarações solenes é eficaz. A tolerância e a compreensão não se decretam, praticam-se. É, no entanto, importante não ver estes actos públicos como testemunhos de ruptura. Li no The New York Times que a posição de Francisco contrastava com as declarações de Bento XVI, que chamava a atenção para as ameaças à família tradicional que minavam o futuro da humanidade. Não vejo oposição entre ambos. O que Francisco está a fazer é pelo contrário fortalecer a família tradicional, ultrapassando obstáculos obsoletos e arbitrários que a limitavam. Não ver esta continuidade profunda é não ver nada.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 19-9-14

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publicado às 19:33

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 23.09.14
Virginia Johnson aka Lizzy Caplan

 

... estrearam várias séries de merda, pardon my French. Uma coisa chamada Motive, outra, delirante, chamada Extant, com a Halle Berry, mais uma chamada The Leftovers, que ao terceiro episódio ainda não se fez entender. Estreou também Silicon Valley, engraçada, mas entediante como são as histórias protagonizadas por nerds: tudo aquilo tem o limite do nerd, coitado, confrontado com a normalidade que não é capaz de entender. Cansou ao segundo episódio. Resta a segunda temporada de The Bridge, que é excelente e que tem a Franka Potente a fazer de vilã. Mas a verdade é que não ando com disposição para o homicídio. Masters of Sex destaca-se muitíssimo de todas as séries em exibição neste momento. Está cada vez melhor, mais densa, mais delicada. Estamos na fase em que a medicina não é capaz de responder aos problemas, não tem sequer a linguagem necessária para começar a abordá-los. Entra o psicólogo. Mas o problema na terapia é a imprevisibilidade das consequências. Virginia acha que se pode substituir a uma paciente com um trauma de infância e conta ao terapeuta o que aconteceu como se tivesse sido ela, Virginia, a protagonista. Virginia percebe a importância disto no tratamento porque sabe que o sexo está na cabeça, coisa que Masters não quer admitir. Virginia pensa que a terapia consiste numa série de conselhos que depois de adoptados resultam numa cura instantânea, e é por isso irrelevante quem conta a história. Mas as pessoas, lá está, não são todas iguais. 

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publicado às 08:33

O Não dos escoceses

por Carla Hilário Quevedo, em 21.09.14
Duas belas escocesas apoiantes do Sim. App Instagram sem filtro

 

“A Escócia rejeita esmagadoramente a independência” era o título do Telegraph que assim declarava a vitória do Não no referendo de 18 de Setembro que decidiria se a Escócia continuaria ou não a fazer parte do Reino Unido. A campanha pelo Não, liderada por Alistair Darling, um nome que lembra o Captain Darling de Blackadder (“Last person I called ‘darling’ was pregnant 30 seconds later” é uma frase que recordo desta extraordinária série de humor), venceu por uma margem de dez pontos: 55,3% contra os 44,7% do Sim.

 

O resultado exprime a derrota não apenas do Sim, cuja campanha foi liderada pelo ministro escocês Alex Salmond como também das sondagens, que não chegaram a conseguir reflectir o que muitos intuíam: que o Sim dificilmente conseguiria vencer, mas que o referendo seria um teste importante à participação dos eleitores sobre uma questão que está longe de ser nova.

 

Há mais de vinte anos que ouço falar sobre a independência da Escócia. Os cinco independentistas da minha família são persuasivos e sou emocionalmente influenciada pelos seus argumentos. Ouço-os ab imo pectore, de coração aberto. Ajuda, claro, que prefira em abstracto a independência à dependência, por muito que a autonomia custe, por muito que seja mais difícil ter liberdade de escolha do que deixar as decisões nas mãos de outros. E de que serve a isenção num tema que provou ser visceralmente emotivo? Até a Rainha Isabel II fez saber que estava “horrorizada” com a possibilidade de a Escócia deixar de fazer parte do Reino Unido. Penso que pela primeira vez assistimos à expressão pública de uma emoção tão forte por parte da realeza britânica, o que reforça a minha posição: o referendo sobre a independência da Escócia tem razões económicas mas é também um processo afectivo aproveitado pelos políticos.

 

David Cameron defendeu o Não com apelos a que a Escócia ficasse, “stay in the UK”, como um marido destroçado com a ideia da partida da mulher com quem foi casado durante 307 anos. Cameron repetiu que ficaria “de coração partido” e que seria “um divórcio doloroso” se o Sim ganhasse. Gordon Brown, dois dias depois da sondagem que dava uma vitória do Sim, garantiu um reforço de poderes à Escócia, incluindo taxas de juros mais favoráveis de apoio à economia e, na recta final, fez um apelo desesperado ao coração: “A Escócia não pertence aos políticos nem às campanhas; a Escócia pertence a todos nós”.

 

Um primeiro debate fraco de Alex Salmond, dúvidas sobre a moeda a adoptar e sobre a entrada da Escócia na União Europeia, sinais de perturbação nas bolsas e baixa da libra esterlina e a ameaça de bancos saírem da Escócia se o resultado fosse favorável ao Sim terão conseguido incutir o medo nos indecisos.

 

A independência traz incerteza. Ter medo da incerteza implica negar à partida o que de bom o futuro pode trazer. A preferência pelo que é familiar é tão natural quanto tantas vezes limitativa. Seja como for, parabéns à Escócia pela extraordinária força com que se bateu pelo que acredita, tanto de um lado como do outro. Todo o meu amor e respeito pela dignidade que nos mostrou.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 20/21-9-14

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publicado às 19:21

Blockbomba

por Carla Hilário Quevedo, em 21.09.14

The Grand Budapest Hotel (Ralph Fiennes excelente, grande filme).

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publicado às 19:13

Because reasons

por Carla Hilário Quevedo, em 19.09.14

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publicado às 08:11

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 18.09.14

Isabel II, talvez em 1927

... só sei que daqui a bocado faço 97 anos e ainda não acabei a... Seja como for, não precisavam de festejar o meu aniversário com um referendo. Apesar de ter acordado rainha de Inglaterra (why not?), sou a favor da secessão. Que vença o Sim, mas se o resultado for outro, parabéns à Escócia por este processo civilizado, pacífico e democrático. Bravo!

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publicado às 08:04

Amanhã vai ser pior

por Carla Hilário Quevedo, em 17.09.14

Penso que os portugueses aceitariam o pessimismo como característica nacional predominante. Mas para surpresa de muitos, devo anunciar que não somos o povo mais pessimista do mundo. Estar à espera do pior, lidar com a dor imaginária ou real, lembrar os piores dias da nossa vida e esquecer depressa o dia de ontem, quando tudo correu às mil maravilhas, não são provas da nossa portugalidade mas da nossa humanidade. Jacob Burak, na Aeon Magazine, afirma que estamos preparados para sentir a dor, mas não para a ausência dela. Esta capacidade para encontrarmos a natureza negativa da realidade pode ser uma defesa inconsciente e também uma forma de derrotismo ou resignação dócil a este vale de lágrimas em que fomos condenados a viver. A solução é simples mas de difícil execução: convencermo-nos de que nem tudo é tão mau como parece e que nem tudo acaba inevitavelmente por melhorar. Aceitemos, por fim, que o optimismo é na verdade uma perturbação mental. 

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 12-9-14

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publicado às 19:57

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