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por Carla Hilário Quevedo, em 29.11.05
As coisas em que Camilla me fez pensar*

Ouço Love and Marriage, cantado por Frank Sinatra. Diz a canção que não pode haver casamento sem amor nem amor sem casamento. Possuída pelo espírito de Carrie Bradshaw, a protagonista da série Sexo e a Cidade, escrevo: haverá pessoas felizes em casamentos sem amor? Sim. E pessoas felizes que solteiramente se amam? Com certeza. Mas nada disso interessará àqueles que, como eu, acreditam que muito bom na vida é ter tudo e mais alguma coisa. Ou seja, amor e casamento.

Casamento sem amor leva à distracção permanente. O amor obriga à concentração. É a velha história de "não ver mais nada à frente", que se confunde com uma espécie de doença. O amor acaba com a visão periférica, no sentido em que deixa de haver espaço para outras coisas de menor importância. Ora uma pessoa concentrada naquele ou naquela que ama está mais ocupada e é por isso mais sexy, mais gira, infinitas vezes mais atractiva. Quem ama no casamento tem mais que fazer, muito mais em que pensar e não perde tempo com disparates. Casar sem amor leva à dispersão, à procura desorganizada, ao inevitável desleixo consigo próprio e com o outro. A falta de concentração (ou de amor) resulta na confusão das prioridades, coisa feiosa e, nos dias de hoje e em países livres, completamente desnecessária. Para quê casar se não houver amor? Eis uma pergunta clássica de uma pessoa que respeita a instituição e o sentimento. Parece que pensar assim já não se usa. Paciência. Se o escrever com umas sandálias Jimmy Choo calçadas, perdoam-me?

Frank Sinatra, em All the Way, canta: "When somebody loves you, it's no good unless he loves you all the way". Pois amar no casamento desde as entranhas mais profundas é a coisa mais sexy que existe. Mais do que Angelina Jolie a fazer beicinho. Mais do que Brad Pitt em Troy e ainda mais do que George Clooney de bata verde. As imagens, embora estimulantes, não convencem. Aquele que ama profundamente a pessoa com quem se casa e ao lado de quem envelhece (um verbo menos agradável, as minhas desculpas) é o verdadeiro sex-symbol, o autêntico sexy motherfucker, citando Prince.

Amor sem casamento é como viver numa rulote. Por mais sofisticado que seja o veículo e por mais divertida que seja a vida a dois na estrada, o excesso de movimentação cansa o corpo e a vista e - lá está - mais tarde ou mais cedo, na viagem, leva à dispersão, e já sabemos o que é que isso significa. Mas atenção: se me obrigassem a escolher, amarrada à cadeira com nós bem apertados e uma pistola apontada à cabeça, pois que viesse de lá o amor sem casamento, um cenário bastante mais suportável (embora desenxabido) do que o casamento sem amor.

Amor e casamento são a conjugação certa: o dry martini perfeito. A ideia de termos um sem o outro é perfeitamente possível e ainda bem que assim é. Mas "possível" não é "ideal". Porque não havemos de querer o ideal? E o ideal é termos tudo o que está ao nosso alcance e mais ainda para vivermos excelentemente.

* Texto publicado a 16-04-05, na Única.

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publicado às 11:23