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por Carla Hilário Quevedo, em 02.09.05
O menino da mamã e da avó (16)

Picking up where we left off, Marcel idolatra a Senhora de Guermantes e sonha com a possibilidade de a conhecer e de ser, enfim, seu amigo: "Durante todo o dia, naqueles passeios, pudera pensar no prazer que seria ser amigo da duquesa de Guermantes, pescar trutas, passear de bote no Vivonne, e, ávido de felicidade, nada mais pedir à vida nesses momentos além de que se compussse sempre de uma sequência de tardes felizes." (193) Quando Marcel vê a senhora de Guermantes, percebe a diferença entre a imaginação e as expectativas que cria e a realidade naturalmente finita de uma pessoa como outra qualquer, embora a duquesa não o seja. A senhora de Guermantes existe e é descrita desta forma: " (...) durante a missa de casamento, um movimento do suíço deslocando-se do seu lugar permitiu-me ver sentada numa capela uma senhora loira com um grande nariz, olhos azuis e perscrutantes, um lenço de pescoço tufado, de seda rosa-malva, lisa, nova e brilhante, e um pequeno sinal ao canto do nariz." (184-5) Subitamente, da idealização livre de uma pessoa que não conhece, e que é por isso tão fácil de amar e de se imaginar amado, Marcel percebe que a senhora de Guermantes existe mesmo e isso assusta: "«É aquilo, não passa daquilo a Senhora de Guermantes!», dizia o rosto atento e admirado com que contemplava aquela imagem que naturalmente não tinha qualquer relação com as que sob o mesmo nome de senhora de Guermantes tantas vezes haviam surgido nos meus sonhos, visto que ela, ai, ela não fora, como os outros, arbitrariamente formada por mim, mas me saltara aos olhos pela primeira vez, apenas uns momentos atrás, na igreja (...)" (185-6) A passagem é longa. Tem de ser lida. Mas a questão interessante parece ser a seguinte: há personagens que são imagens de imagens (já explico melhor no 17) outras que são imagens somente para o leitor (como em qualquer livro), que vai relacionando e reconhecendo, coitado, o que pode e como pode. Imagino a senhora de Guermantes porque ela existe (mesmo que nunca tenha existido). A descrição física confere-lhe uma existência no romance completamente diferente da das outras personagens. E Marcel mais uma vez (depois da menina Vinteuil e da menina Swann - feioso mas activo) apaixona-se, sendo que o seu interesse amoroso se resume a uma expectativa que só ao menino pertence e que é independente da mulher amada: "E imediatamente a amei, porque às vezes pode bastar, para amarmos uma mulher, que ela nos olhe com desprezo, como eu julgava que fizera a menina Swann, e que pensemos que ela nunca nos poderá pertecer, às vezes também pode bastar que ela olhe para nós com bondade, como fazia a senhora de Guermantes, e que pensemos que ela poderá pertencer-nos." (188) As várias impressões que a senhora de Guermantes suscitam em Marcel dão-lhe "um prazer não racional, a ilusão de uma espécie de fecundidade". Mas "o dever de consciência" não permite que as impressões sejam irracionais. Como podia? Marcel volta para o beijinho de boas-noites: "Como eu teria dado tudo aquilo para poder chorar toda a noite nos braços da minha mãe!" (194) Enfim, quem nasce totó talvez chegue a Guermantes, mas só de visita e já vai com sorte e lá mais para o terceiro volume. Parece.

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publicado às 16:13