por Carla Hilário Quevedo, em 16.05.03
Correspondente da SRA, em Pequim
A minha querida amiga Nani escreveu uma nova crónica sobre o que se passa nesse país do absurdo - a China. Imperdível!
A cidade proibida
O estatuto de persona non grata é um rótulo tramado. Mas é assim; ser de Pequim, vir de Pequim, morar em Pequim, ter passado em Pequim, gostar de Pequim, referir Pequim é o mesmo que dizer “bom dia, trago comigo a pneumonia atípica”. Ninguém nos recebe, ninguém nos quer. Dentro de Pequim também há segregações e os bairros menos afectados rejeitam os mais desgraçados. Para não falar do infeliz indíviduo que tussa, espirre ou ande com olheiras... ostracismo e primeiro lugar garantido numa fila de supermercado.
Dá-me vontade de rir quando me perguntam “porque é que não sais daí?” Mas para onde é que hei-de ir? Por acaso os meus queridos amigos em Portugal receber-me-iam de braços abertos no aeroporto? Ou arranjariam desculpas variadas durante os primeiros 15 dias para não me verem? Pois se até o amigo norte-coreano acabou com os voos para Pequim... E que eu saiba não têm voos para mais lado nenhum, por isso a coisa é mesmo grave. Claro que é sempre possível visitar Pyongyang mas primeiro há que passar por uma quarentenazinha de 10 dias num hotel a preceito preparado para a ocasião, com água corrente quente e fria mas só de manhã e a 100 dólares por noite e por nossa conta, claro está. Promoção a não perder.
Shanghai também não nos quer lá. Aterrar dá direito a 14 dias de quarentena, também pago pelo bolso dos próprios suspeitos.
Noutras províncias são ainda mais práticos: se vem de Pequim, não há hotel que o receba. O nosso simpático aeroporto tinha noutro dia uma tabuleta a indicar os únicos hotéis dispostos a arriscar e aceitar os perigosos Pequinenses.
Então e os maravilhosos arredores de Pequim? Admitindo que se conseguem furar os vários controlos mais ou menos oficiais e passar o teste implacável do termómetro, o novo objecto fetiche chinês, sobra a ira dos camponeses que reagem de forma muito mais eficaz à visão de uma matrícula de Pequim: à pedrada.
Em Portugal, a perspectiva é ainda mais aterradora. Aterrar na lusa pátria dá direito a cobertura mediática personalizada. Porque o nosso povo prefere sempre comover-se com o caso individual a ter de aturar análises aborrecidas sobre impactos económicos e políticos de pestes asiáticas em terras tão distantes quanto desconhecidas. And I don't want to be a SARS star.
Uma última palavrinha, em jeito de comentário às declarações de um médico do Hospital de S. João no Porto (onde U-M, repito UM suspeito fez as aberturas dos telejornais durante algum tempo) que dizia que em Portugal a situação nunca seria tão grave como na China porque as condições hospitalares são muito melhores. Que tal receber 3000 doentes de uma assentada ao abrigo de um projecto filantrópico de cooperação e desenvolvimento com a República Popular da China?
Nani, no meio deles todos.
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